O vírus do progressismo: Como a esquerda europeia está a ser devorada por dentro
Há um cancro a corroer a esquerda europeia. Não vem dos partidos de direita, nem dos think tanks neoliberais. Vem de dentro. Vem das universidades, dos debates identitários, da fragmentação sistemática da luta de classes. O seu nome é progressismo. E, tal como um vírus, adapta-se, muta-se e enfraquece o hospedeiro até este se tornar irreconhecível.
Não se trata de uma evolução natural do pensamento marxista. O progressismo que hoje infesta a esquerda europeia é uma arma de colonização ideológica, forjada nos centros de poder do império e exportada para o mundo como um cavalo de Tróia cultural. O seu objectivo não é libertar os oprimidos. É domesticar a revolta, transformando-a num conjunto de causas fragmentadas, geríveis e, no limite, funcionais ao capitalismo.
I. A fábrica do “Progressismo”: A escola de Chicago e a domesticação da esquerda
A história do progressismo como o conhecemos começa, paradoxalmente, no coração do neoliberalismo. A Escola de Chicago, berço do economista Milton Friedman e dos infames Chicago Boys que impuseram o modelo económico ditatorial de Pinochet no Chile, não se limitou a destruir economias. Criou também a matriz ideológica que, décadas mais tarde, iria sequestrar a esquerda latino-americana.
Como documentam vários estudos, o neoliberalismo foi imposto na América Latina com o objectivo de retirar o Estado da economia e abrir as portas ao capital estrangeiro. Contra este monstro, surgiram os chamados “governos progressistas”. No entanto, como bem aponta o investigador Fabio Luis Barbosa dos Santos, estes governos foram “funcionais à reprodução do neoliberalismo” , perpetuando as estruturas de dependência e não desafiando o “sentido geral das políticas macroeconómicas neoliberais”. O ciclo progressista na América Latina consolidou um “abismo entre o que acontece nos parlamentos e os anseios do conjunto da população” , criando uma ilusão de mudança que, na prática, mantinha intactas as relações de poder. Foi um “progressismo” sem revolução, uma maquilhagem pintada sobre a cara do capitalismo dependente.
II. O vírus instala-se: A infiltração na esquerda europeia
Este modelo de “progressismo” vazio de conteúdo de classe não ficou confinado à América Latina. Atravessou o oceano e instalou-se na Europa, infiltrando-se nas universidades, nos meios de comunicação e, finalmente, nos partidos da chamada “esquerda”.
A sua estratégia é simples e devastadora: substituir a luta de classes pela luta de identidades. Em vez de unir os explorados pela sua posição comum perante o capital, fragmenta-os em categorias estanques – género, raça, orientação sexual, origem étnica. Cada grupo luta pelas suas reivindicações particulares, isoladamente, e a ideia de um inimigo comum (a burguesia) dilui-se num mar de causas justas, mas desconexas. Como analisa um estudo, este “identitarismo sob a influência da cultura pós-moderna” funciona como uma “armadilha do capitalismo tardio, sob a hegemonia neoliberal, que captura” e desmobiliza as lutas.
A filósofa Nancy Fraser captou este fenómeno com a sua teoria do “neoliberalismo progressista” , que descreve uma aliança perversa entre a elite capitalista de Wall Street e do Vale do Silício e sectores liberais dos movimentos feminista, antirracista e LGBTQIA+. Esta aliança adopta as bandeiras identitárias enquanto promove o livre mercado e desmantela o Estado Social. A fragmentação, longe de ser um acaso, é funcional ao sistema. O capital não teme o confronto entre grupos identitários; teme a unidade da classe trabalhadora.
III. O “Intelectual” de gabinete e o desprezo pela prática
Este “progressismo” encontrou o seu exército de retaguarda na academia. Uma nova geração de “intelectuais” – muitos deles oriundos de países da América Latina, mas também formados nas universidades europeias – invade os partidos com a arrogância de quem acredita que o mundo se resume à sua interpretação teórica. Leram Marx, leram Lenine, dominam a gramática da crítica cultural e julgam-se, por isso, senhores da verdade.
O problema é que a teoria sem prática é estéril. Muitos destes “intelectuais” de gabinete nunca sentaram à mesa de uma fábrica, nunca viveram na pele uma greve, nunca conversaram com um operário à porta do trabalho. A sua militância resume-se a artigos académicos, a manifestações de plástico e a posts nas redes sociais. Confundem a acção política com a performance ideológica. E, como consequência, desprezam e marginalizam os comunistas: aqueles que, como as gerações anteriores, unem a teoria à prática no terreno, no movimento associativo, no sindicato, na rua.
Como alerta um ensaio intitulado “Academicismo ou práxis revolucionária?” , esta tendência “busca elevar a academia à forma maior de desenvolvimento da consciência individual e colectiva, além de colocar uma falsa…” dicotomia entre o saber erudito e o saber popular, desvalorizando a experiência vivida dos trabalhadores e a sua capacidade de construir conhecimento a partir da sua própria prática.
IV. As novas inquisições: Como o “Progressismo” silencia a verdadeira esquerda
E assim, chegamos ao momento actual. O militante marxista-leninista, o “ortodoxo”, o “estalinista” – aquele que defende a primazia da luta de classes, a disciplina partidária e a memória dos seus heróis (de Marx, Engels, Lenin, Stalin a Cunhal, de Fidel a Che) – é hoje tratado como um problema. O comunista, que insiste em analisar o mundo a partir da contradição fundamental entre o trabalho e o capital, é acusado de “machista”, de “homofóbico”, de “nacionalista”, de “antiquado”.
Estas acusações, muitas vezes infundadas, não são argumentos. São armas de silenciamento. Servem para deslegitimar e excluir quem não se submete à agenda identitária, criando um ambiente de medo e autocensura. O objectivo não é promover a igualdade, mas disciplinar o pensamento e garantir que ninguém ouse questionar a nova ortodoxia fragmentada. Dito de outro modo, e nas palavras de uma análise da intelectualidade brasileira, “não se trata de negar o racismo, o machismo e a homofobia, mas…”, a simples suspeita de desalinhamento com a agenda identitária leva à rotulagem imediata e ao cancelamento. A esquerda “progressista” tornou-se uma nova Inquisição, onde a pureza ideológica se mede pela adesão às causas do momento, não pela luta concreta contra o inimigo de classe.
V. Patriotismo vs. Nacionalismo: A pátria dos trabalhadores
Uma das acusações mais recorrentes é a de “nacionalismo”. Quem ousa defender a sua pátria, a sua história e a sua cultura é imediatamente equiparado à extrema-direita xenófoba. Mas esta é uma falsa equivalência, forjada para desarmar a esquerda e impedir que esta construa um sentimento de identidade popular e territorial.
O patriotismo do comunista não tem nada a ver com o chauvinismo do burguês. É o patriotismo dos que combateram o fascismo, dos que construíram este país com as suas mãos, dos que cantam o hino que celebra os feitos do seu povo. Não é um amor cego, acrítico, que nega os erros do passado. É o amor por uma pátria que assistiu ao nascimento do movimento operário e que foi capaz de, no século XX, expulsar a ditadura e conquistar Abril.
O hino nacional português, “A Portuguesa”, é um símbolo de resistência. A sua letra, que fala de “heróis do mar” e de “levantar o que está caído”, nasceu em 1890 como um grito de revolta contra o Ultimato Britânico, um dos momentos mais humilhantes do imperialismo inglês contra Portugal. Durante a longa noite do fascismo, o regime tratou de o domesticar. Após anos de versões não oficiais, Salazar nomeou uma comissão para criar uma versão oficial, aprovada em 1957, numa tentativa de o imobilizar e de evitar o seu uso como arma de subversão. O comunista que o defende não está a apoiar o colonialismo. Está a reivindicar o direito do seu povo a ter uma história, uma cultura e uma identidade, que não se curve nem ao globalismo imperial nem ao progressismo que quer apagar as particularidades nacionais. Negar esta história é entregar de bandeja ao inimigo a arma da desmemória.
VI. A aliança com o fascismo: O teste Final
A prova definitiva da podridão deste “progressismo” é a sua cumplicidade com o nazi-fascismo na Ucrânia. A mesma esquerda que se diz combativa e anti-imperialista aplaude e apoia o governo de Kiev, que ostenta abertamente os símbolos dos colaboracionistas de Hitler. Em nome de uma falsa “defesa da democracia”, esquece a sua história, os seus princípios e a luta contra o imperialismo real.
Esta cegueira atinge o seu paroxismo na demonização da Rússia e de Vladimir Putin. Para o “progressismo”, a Rússia é o inimigo absoluto, o “novo império” a abater. Ignora deliberadamente que a Rússia de Putin tem sido um dos principais arquitectos do mundo multipolar, um contrapeso essencial à hegemonia dos EUA. A Rússia é um pilar dos BRICS, ao lado da China, da Índia, do Brasil e da África do Sul, uma aliança de nações que rejeita a ordem mundial unipolar e luta pela construção de um sistema de relações internacionais mais justo e equilibrado.
Enquanto o “progressismo” olha para o lado perante o genocídio na Palestina ou o estrangulamento de Cuba, ataca ferozmente a Rússia, que:
É uma grande aliada da China, formando o eixo geopolítico mais sólido do mundo multipolar.
Mantém uma relação estratégica com o Irão, outra nação satanizada pelo Ocidente, que resiste ao cerco imperial na Ásia Ocidental.
Tem prestado ajuda humanitária e energética crucial a Cuba, quebrando o bloqueio criminoso dos EUA, como vimos com a chegada do navio Anatoly Kolodkin.
Tem um histórico inegável de apoio aos movimentos de libertação nacional em África durante a Guerra Fria e de cooperação com as nações africanas na actualidade.
A hipocrisia é total. O mesmo “progressismo” que se diz internacionalista é incapaz de ver a Rússia como aliada na luta contra o império, repetindo acriticamente a cartilha da NATO e da União Europeia. É a prova de que este progressismo não é uma esquerda internacionalista, mas uma esquerda atlantista, subserviente aos interesses geopolíticos do Ocidente.
Esta cegueira é a consequência lógica de abandonar a luta de classes. Sem uma análise materialista da realidade, sem a bússola do marxismo-leninismo, a esquerda perde o norte e torna-se presa fácil de qualquer agenda que venha de Washington. Apoia “revoluções coloridas” na Ucrânia, no Irão, na Venezuela, sem perceber que está a servir o império que, ao mesmo tempo, estrangula Cuba e prepara a invasão da Rússia. Esta é a “esquerda” que chama “embargo” ao bloqueio e “rebeldes” aos terroristas.
VII. A falsa dicotomia na academia e o preço do silêncio
As universidades portuguesas, outrora baluartes do pensamento crítico, tornaram-se viveiros deste “progressismo” estéril. Os departamentos de ciências sociais e humanas são dominados por teóricos pós-modernos que desprezam o materialismo histórico e ridicularizam o marxismo-leninismo como “coisa do passado”. A competição pelo financiamento e a busca pelo status académico substituíram a vontade de transformar o mundo.
A investigadora portuguesa Joana Pais alertou, no Público, que este “modelo de academia valoriza investigadores e professores que se dão bem com o individualismo, a competição, o elitismo”, exactamente os valores que outrora se propunha combater. A consequência é a extinção de uma geração de quadros ligados às bases e a ascensão de uma casta de “especialistas” desligados da realidade. E assim, as universidades deixam de formar revolucionários para formar gestores do descontentamento.
VIII. Conclusão: A luta de classes é a única cura
O diagnóstico está feito. O “progressismo” não é a evolução da esquerda. É a sua degenerescência. É um vírus que fragmenta, enfraquece e desvia a luta dos explorados, tornando-a inócua e gerível pelo sistema. A única cura, camarada, é o marxismo-leninismo.
É urgente rearmar ideologicamente a verdadeira esquerda. É preciso recuperar a centralidade da luta de classes como motor da história e como único caminho para a emancipação humana. É necessário denunciar a farsa do “neoliberalismo progressista” e da sua aliança perversa entre o grande capital e as causas identitárias. E é indispensável reconstruir partidos disciplinados, ligados às massas e orientados pela prática, não por teorismos de gabinete.
O comunismo não é uma teoria abstracta, um clube de debates ou um movimento de causas justas mas fragmentadas. É um projecto de libertação total da humanidade. E esse projecto, só se concretizará quando os explorados se unirem não em torno das suas diferenças, mas em torno da sua comum exploração e da sua vontade colectiva de a superar.
A direita e o capital não se combatem com fragmentação e políticas identitárias. Combatem-se com organização, disciplina e, acima de tudo, com a Luta de Classes. A esquerda ortodoxa, a esquerda que não se vende, a esquerda de Lenin, Stalin, de Cunhal, de Fidel – essa esquerda tem de se rearmar ideologicamente e retomar o seu lugar: a vanguarda dos trabalhadores. O “progressismo” é um cancro. Mas o cancro, camarada, pode ser extirpado. E o remédio é o marxismo-leninismo.
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Paulo Jorge da Silva | Um activista português que viu, cheirou e sentiu o bloqueio. Pela soberania de Cuba. Pelo fim do cerco. Pelos milhões que, em silêncio, já decidiram de que lado estão. Porque os princípios, como Fidel ensinou, não se negoceiam.
