
A estratégia contra Cuba
Os efeitos da escassez de combustível e da crise resultante da política de sanções reforçadas contra Cuba mergulharam a sociedade numa profunda crise económica.
Desde janeiro de 2026 até ao presente, a política de «máxima pressão» dos Estados Unidos contra Cuba tem tido duas vertentes relevantes. Por um lado, o sistema de sanções , sistematicamente reforçado, tem-se empenhado em isolar Cuba de todo o ecossistema de parceiros comerciais e fornecedores que constituem a economia do país. Esta política revelou-se particularmente eficaz no domínio da energia, impedindo, durante quase dez meses, a entrada efectiva de combustível na ilha proveniente de qualquer um dos países e empresas não norte-americanos que tradicionalmente têm abastecido a procura energética do país.
À medida que se intensifica o isolamento internacional, reforça-se a dependência de Cuba em relação à economia norte-americana. Através do sistema de licenças da OFAC, com restricções quanto à aquisição e ao tipo de mercadoria, os Estados Unidos têm-se vindo a tornar-se o único fornecedor de um conjunto essencial de produtos para o país. Isto, longe de aliviar a situação da ilha, funciona como um paliativo político que serve à administração Trump, e particularmente ao seu secretário de Estado, para negar a existência do Bloqueio.
Seguindo a mesma lógica do cerco criminoso de Israel contra Gaza, aqueles que sitiam Cuba e o seu povo permitem apenas a entrada do mínimo indispensável para que o país não entre em colapso total e, ao mesmo tempo, ao controlarem a única via efectiva de entrada de recursos vitais, a ameaça de fechar completamente a porta de acesso serve como um fator de pressão adicional que reforça os seus planos neocoloniais.
Os números de um comércio unilateral
Entre janeiro e agosto de 2026, as exportações totais dos Estados Unidos para Cuba ascenderam a 876,5 milhões de dólares. Este valor ultrapassa o total das exportações de todo o ano de 2025, que ascenderam a 809,6 milhões de dólares. Só o combustível representou 231,7 milhões de dólares nesse período, atingindo, no mês de agosto, o valor de 74,8 milhões de dólares. Para se ter uma referência do aumento que estes níveis de importação de combustível implicam, convém referir que, em 2025, foram comprados nos Estados Unidos apenas cerca de 300 mil dólares de combustível. Nos sete primeiros meses de 2026, entre janeiro e julho, as importações totais dos Estados Unidos para Cuba estão estimadas em 4,9 milhões de barris.
Este combustível que é comprado nos Estados Unidos a partir de Cuba está sujeito a várias condições. Só pode ser adquirido pelo sector privado e não pode ser adquirido em formatos superiores a isotanks de 25 mil litros. Além disso, uma vez em Cuba, não pode ser armazenado em nenhuma das instalações pertencentes à empresa cubana CUPET, sancionada pelos Estados Unidos. A CUPET possui a maior e mais eficiente rede de armazenamento e distribuição de combustível existente no país. Ao não poder utilizar as suas instalações nem as de outras empresas relacionadas, este combustível tem de ser armazenado e transportado, muitas vezes, em condições irregulares, aumentando absurdamente o risco, em consequência das múltiplas proibições norte-americanas.
Além disso, a dependência da ilha em relação à aquisição de produtos alimentares essenciais, medicamentos e outros bens de consumo reforçou-se nesta fase, também em consequência das sanções impostas aos fornecedores e da quase paralisação da actividade das companhias marítimas estrangeiras com Cuba. Este comércio, como já foi referido anteriormente, é unilateral e limitado. Cuba não pode comprar tudo o que deseja no mercado norte-americano e não pode vender os seus produtos neste país.
Contextualizar os dados
Numa entrevista recente que o ministro da Energia e Minas de Cuba, Vicente de la O Levy, concedeu à Reuters, este esclareceu que a quantidade de combustível importado dos Estados Unidos para a ilha, embora pareça um número significativo, equivale apenas a três por cento da procura total de combustível do país nesse período. Em circunstâncias normais, a economia cubana necessitava de cerca de oito navios de combustíveis e derivados por mês para manter uma actividade económica normal. O impacto destas falhas é significativo. Cortes de energia de mais de 20 horas em muitas localidades do país e um défice crítico em serviços essenciais, como os transportes. Numa cidade de dois milhões de habitantes, como Havana, circulam apenas 100 autocarros públicos, dos cerca de três mil de que a capital necessitaria para funcionar normalmente.
Actualmente, Cuba produz cerca de 40 por cento do combustível de que necessita e conseguiu instalar 144 parques solares com capacidade para gerar cerca de 1 418 MW. Além disso, milhões de veículos eléctricos têm vindo a substituir os veículos tradicionais a combustão.
Apesar destes avanços, a situação de vida no país continua a ser crítica. Os efeitos da escassez de combustível e a crise decorrente da política de sanções reforçadas contra Cuba mergulharam a sociedade numa profunda crise económica. A cada mês que a comunidade internacional permite que o cerco contra a ilha se intensifique, a situação do povo cubano agrava-se um pouco mais.
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José Ernesto Nováez Guerrero | Escritor e jornalista cubano. Membro da Associação Hermanos Saíz (AHS).
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