
Um “Plano Condor” global?
Friedrich Engels disse uma vez: A sociedade capitalista encontra-se perante um dilema: avançar para o socialismo ou recuar para a barbárie.
Por Marcelo Colussi
«Perante Deus e o mundo, o mais forte tem o direito de impor a sua vontade».
Adolf Hitler
Em novembro de 1975, foi formalmente posto em marcha o sinistro Plano Condor. Trata-se de uma manobra do governo dos Estados Unidos, que impulsionou um sistema secreto de coordenação repressiva entre as ditaduras militares do Cone Sul da América, em funcionamento entre 1975 e a década de 80 do século passado, com o objectivo de perseguir e eliminar opositores políticos ligados à esquerda, mesmo para além das suas próprias fronteiras.
Praticamente todos os países da América do Sul participaram na operação, que resultou em 80 mil mortes e mais de 400 mil detenções, enquanto na América Central as forças armadas — sempre sob a tutela de Washington — também perseguiam sangrentamente qualquer dissidência política.
No contexto da Guerra Fria (fria, naturalmente, para as duas potências envolvidas: os Estados Unidos e a União Soviética, que não disparavam os seus mísseis nucleares, mas abrasadora e em plena efervescência para os povos latino-americanos, bem como para os da África e do Médio Oriente), amparando-se na Doutrina de Segurança Nacional e no combate ao inimigo interno, a direita silenciou todos os protestos, recorrendo a mortes, torturas, cemitérios clandestinos e desaparecimentos forçados de pessoas. Sobre montanhas de cadáveres ergueram-se os planos neoliberais, ainda hoje em vigor, subjugando a classe trabalhadora e privatizando o Estado, enquanto se entronizava a «mão invisível» do mercado.
O Plano Condor tinha como objectivo acabar com o «perigo comunista». No entanto, hoje, mais de quatro décadas depois, parece que esse perigo não se extinguiu: «São esses comunistas ateus ( ) a ameaça mais grave à existência dos Estados Unidos e do Ocidente», declarou o presidente Donald Trump.
Nesse contexto, nesse clima de anticomunismo visceral, no passado dia 16 de julho realizou-se em Washington a Reunião Ministerial sobre o Ressurgimento do Terrorismo Político, promovida pela Casa Branca e coordenada pelo Secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional, Marco Rubio.
A agenda, que reuniu mais de 60 países que partilham estas posições de extrema-direita, é um apelo à mobilização contra este alegado ataque à civilização por parte da «esquerda radical», representada por um leque vastíssimo de posições, que inclui marxistas, comunistas, socialistas, anarquistas, anticapitalistas, anti-imperialistas, antifascistas, democratas centristas, que reivindicam a igualdade de género, defendem o aborto, opõem-se à homofobia e à transfobia, defendem o ambiente, acolhem todo o tipo de diversidade, condenam o racismo e o supremacismo e têm uma visão progressista das sociedades.
Esta reunião reflecte a situação actual do mundo: as forças de extrema-direita estão a ganhar terreno a um ritmo vertiginoso, chegando mesmo a assumir o poder formal nos Estados através do voto popular. As grandes maiorias, cada vez mais empobrecidas por um capitalismo neoliberal implacável e distraídas até à exaustão pelas mais sofisticadas — e embrutecedoras — técnicas de comunicação social, acabam por aceitar docilmente os seus algozes. O lema de Hitler passa a ser alegremente consentido e abençoado.
Será que nos dirigimos para um Plano Condor global? Não se pode afirmar que estejamos perante um novo Yalta (nós, humildes mortais comuns, como quem escreve isto, não temos acesso a informação confidencial; por isso, isto é pura especulação: será que os territórios do planeta já estão repartidos?). Mas é mais do que evidente que os Estados Unidos estão a transformar a América Latina no seu terreno de caça, a sua «Doutrina Monroe» revista e ampliada, levada ao seu extremo. As outras grandes potências, a China e a Rússia, não se intrometem, desviam o olhar. A Venezuela passou a ser um protectorado invadido e Cuba está a ser mortalmente asfixiada, pelo que parece ser totalmente verdadeira esta frase de Trump quando afirma, exultante, que «este é o nosso hemisfério».
A direita cresce, o supremacismo, o racismo, a xenofobia, a misoginia e os valores da Guerra Fria, acompanhados de um anticomunismo visceral, crescem; nós, os povos, estamos paralisados, estupefactos; nós, da esquerda, não reagimos .
O que fazer face a esta evolução?
Os tempos actuais não são favoráveis à mudança social. Pelo contrário, são tempos de conservadorismo extremo. Os ideais socialistas de solidariedade e confraternidade foram, por enquanto, postos de lado. Mais precisamente ainda: os tempos actuais são marcados por um ódio fomentado e manipulado, por muito ódio contra a ideia de mudança, contra tudo o que se apresente como inovador e alternativo. Os jovens foram levados a prestar mais atenção — com vontade de imitar — aos influenciadores do que às propostas de mudança social (será que o aumento exponencial do consumo de drogas terá algo a ver com isto? Tudo isto faz com que um jovem argentino, quando questionado sobre o motivo pelo qual votou em Milei, diga sem pudor: «Porque é fixe ser fascista, meu»). As únicas mudanças possíveis são aquelas que o sistema permite e consegue absorver sem que as suas raízes sejam postas em causa. Por outras palavras: «gatopardismo».
Sem menosprezar, nem que seja minimamente, qualquer luta, sabemos que a fragmentação do protesto social em pequenas vertentes (a luta contra o patriarcado por um lado, contra a discriminação étnica por outro, pela diversidade sexual por ali, pelo ambientalismo por aqui, todas separadas e sem uma perspectiva de classe — «O ambientalismo sem luta de classes é jardinagem», disse Chico Mendes —) serve ao poder, à manutenção do sistema. A tendência actual é, no máximo, permitir pequenas válvulas de escape, em muitos casos incentivadas e financiadas pelos grandes poderes, dando a sensação de mudança, mas impedindo, na realidade, qualquer modificação profunda (grandes fundações filantrópicas — Soros, Gates, Ford, Rockefeller, Susan Buffet — a pagar pelos progressismos: no mínimo, soa suspeito). Hoje, com este avanço fenomenal da direita religiosa e fundamentalista, até isso é posto em causa. O feminismo e o antirracismo são ataques comunistas perigosos!
Vivemos um momento de obscurantismo, de repressão ideológico-cultural mais intensa do que durante a Guerra Fria. Em vez de avançarmos para o comunismo científico e para uma sociedade sem classes sociais, regressamos às trevas medievais, às fogueiras da Inquisição e à escravatura primitiva. Os chicotes são agora electrónicos, regidos pela inteligência artificial e difundidos — e alegremente aceites — pelas redes sociais. Vários autores (Cédric Durand, Shoshana Zuboff, Yanis Varoufakis) estudaram detalhadamente as novas formas de capitalismo, chegando, em alguns casos, a falar de «tecnofeudalismo», uma modalidade que imita as estruturas feudais da Idade Média europeia, onde as big tech (as megacorporações de tecnologia digital do Vale do Silício) desempenhariam o papel de senhores feudais, com um poder de domínio absoluto sobre os utilizadores — os servos da gleba —, totalmente dependentes das plataformas digitais, oferecendo gratuitamente quantidades astronómicas dos seus dados pessoais, que servem para continuar a promover o consumo (e para o controlo populacional com traços de inteligência militar).
Pelo andamento das coisas, não parece que o mundo esteja a caminhar para o comunismo, mas sim para o feudalismo! A jornada de trabalho de oito horas — conquistada através de lutas heróicas — está a ser perdida e agora pede-se — exige-se! — a «milha extra».
Este discurso da extrema-direita não tem piedade; pelo contrário, revela abertamente qual é o seu objectivo: continuar a beneficiar uma elite minúscula e impedir qualquer tentativa de mudança por parte das grandes maiorias. O que é patético é que isso se enraizou tanto nas pessoas que muitas delas — sem outra propriedade além da sua força de trabalho — foram tão habilmente manipuladas que aplaudem alegremente esta deriva para o neofascismo, sem saber bem o que estão a apoiar. Pensemos, por exemplo, no jovem argentino em questão. Miguel Mazzeo dirá:
Ao contrário da linguagem da direita tradicional, a linguagem da extrema-direita não procura construir uma rectórica que não se revele como tal. Não pretende dissimular nada de aberrante, nada de escabroso, nada de absurdo. A linguagem da extrema-direita revela a sua aspiração perversa ao «mal comum» e à dissolução da comunidade, ao mesmo tempo que celebra abertamente a ganância, a injustiça e a crueldade em todas as suas formas. (Mazzeo: 2024).
A chegada de Donald Trump à presidência do país capitalista mais poderoso do mundo alimenta de forma muito grosseira esta tendência ultraconservadora que já vem a gestar-se há anos, bem como a actitude transgressora que apologia a impunidade. Na verdade, o mandatário é, tecnicamente, um réu condenado, julgado e sentenciado por mais de 20 crimes, incluindo dois crimes federais muito graves: tentativa de golpe de Estado em 2021 e manuseamento ilegal de documentos oficiais secretos de segurança nacional. Além disso, o que já não é pouca coisa, enfrenta acusações de pedofilia decorrentes das suas ligações com o «suicidado» Epstein. De qualquer forma, ignorando as leis e numa demonstração absoluta de desprezo pela «democracia» que diz defender, assumiu a presidência em janeiro de 2025. Agnès Callamard, Secretária-Geral da Amnistia Internacional, destacou os terríveis perigos do «efeito Trump» ao apresentar o relatório «A situação dos direitos humanos no mundo: abril de 2025» da referida organização:
Passados 100 dias do seu segundo mandato, o presidente Trump apenas demonstrou um total desrespeito pelos direitos humanos universais. O seu governo atacou de forma rápida e deliberada iniciativas e instituições essenciais, tanto norte-americanas como internacionais, que foram criadas para tornar o nosso mundo um lugar mais seguro e mais justo. O seu ataque implacável aos próprios conceitos de multilateralismo, asilo, justiça racial e de género, saúde global e acção climática necessária para salvar vidas está a agravar os danos consideráveis que esses princípios e instituições já sofreram e a encorajar ainda mais outros líderes e movimentos contrários ao reconhecimento dos direitos a juntarem-se à sua ofensiva (Callamard: 2025).
Hoje, toda a parafernália mediática do sistema não entroniza o «bom» da história, mas, pelo contrário, incentiva a malícia, o caminho mais rápido que traga dinheiro, fama e poder, o «vale tudo». Por outras palavras: a impunidade. Vale a pena esta nota à margem: nos países socialistas há corrupção, mas não há impunidade! Na China, os dirigentes corruptos são fuzilados sem atenuantes, e lembremo-nos do tratamento dado por Cuba a um traidor da pátria como o general Ochoa: foi condenado à morte pelas suas ligações ao tráfico de droga e a sentença foi executada. No capitalismo, e ainda mais com este regresso ao neofascismo que hoje sofremos, a impunidade é aplaudida e entronizada. Como é que um criminoso sexual pode governar um país sem que ninguém o incomode?
Essa ideologia — ali estão os milhões de memes e vídeos curtos que inundam o espaço digital, os «entretenimentos estúpidos», como os ideólogos da direita os apelidam para manter tranquila a «ralé» » (e aí está o futebol profissional) — vai moldando cada vez mais a opinião pública, pelo que se pensa — ou, para ser mais preciso, fazem-nos pensar — mais no ilusório «sucesso» individual a qualquer custo do que numa saída solidária e comunitária. A frase: «A sociedade não existe, só há homens e mulheres e há famílias», da ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, parece concretizar-se de forma avassaladora.
Como forças que lutam pela igualdade, como esquerda, como campo popular, como seres humanos que continuamos a acreditar que ninguém vale mais do que ninguém, devemos resistir a esta enxurrada e denunciar a infame injustiça que está em jogo. Mas não basta resistir apenas denunciando: devemos combater por todos os meios esta avalanche. Hoje, está em curso uma terrível guerra ideológica, que pode transformar-se — ou já se está a transformar — num novo Plano Condor de âmbito global. É preciso, portanto, enfrentá-la. A frente ideológico-cultural é uma das frentes possíveis. Os meios de comunicação social — num mundo digital que não pára de crescer e que tudo inunda — contribuem mais do que generosamente para esta avalanche. Não há dúvidas de que hoje, já no século XXI e imersos num ambiente comunicacional do qual não podemos prescindir (onde a Internet desempenha um papel preponderante), o campo popular e a esquerda têm muito trabalho a fazer nessa área.
Não se pode deixar de referir que, na capital da República Bolivariana da Venezuela, Caracas, entre 10 e 11 de setembro de 2024, se realizou o «Congresso Mundial contra o Fascismo, o Neofascismo e Expressões Semelhantes» — antípoda do recente encontro liderado por Marco Rubio —, que reuniu cerca de mil representantes de 95 países. A partir desse encontro, foi criada uma «Internacional Antifascista», com sede nesse país, com o objectivo de «travar batalhas presentes e futuras por um mundo diferente e enfrentar a violência que a extrema-direita está a gerar na nação sul-americana e em muitos outros países do mundo».
Talvez isso não seja suficiente para travar a avalanche neofascista em que vivemos — a invasão de 3 de janeiro e a subsequente ocupação após os terramotos comprovam-no —, mas constitui um elemento a ter em conta, mais um grão de areia nesta longa e interminável confrontação, nesta que já não é apenas uma luta, mas uma «guerra» de classes, como disse o magnata Warren Buffett. Enquanto movimento popular, enquanto esquerda, embora hoje estejamos um pouco desorientados, devemos aguçar toda a inteligência de que somos capazes para continuarmos a travar esta batalha. A história, aliás, ainda não terminou. Criar uma Internacional Antifascista não neutraliza automaticamente o fascismo, mas serve para começar a criar antídotos.
Perante esta visão ultraindividualista e opressora do outro, é necessário erguer um novo ideário, outro sistema de valores que volte a colocar no centro das atenções o ser humano, as suas glórias e as suas desgraças. Ninguém é melhor do que outro: todos e todas somos mortais igualmente importantes. As estrofes da Marcha Internacional Comunista são eloquentes a este respeito: ninguém vale mais do que ninguém. Seguindo Jesús Javier Urueña, podemos afirmar que:
«Perante a desvalorização do humanismo e a destruição da Terra, perante a exaltação do ódio e do niilismo moral, podemos voltar ao Iluminismo. Podemos propor que apenas um socialismo democrático, feminista e sinceramente ecologista constitui a base para afugentar os demónios do passado.» (Jaén Urueña: 2023).
Em qualquer uma das suas variantes (o supostamente democrático, ou isto que vivemos agora: neofascismos no âmbito de eleições democráticas), o sistema capitalista continua a ser sempre o mesmo: impiedoso. Prefere a guerra, que vê sempre como uma saída para as suas crises, a partilhar equitativamente os benefícios do desenvolvimento com as maiorias. O capitalismo não oferece soluções à humanidade; apenas as concede, de má vontade, a um pequeno grupo abastado — digamos, 15 por cento da população mundial que consome sem grandes problemas —, às classes médias e aos trabalhadores do Norte, e a um grupo minúsculo que constitui a elite dominante. O resto (os restantes 85 por cento) é sofrimento, penurias e uma sobrevivência precária. Sem dúvida que hoje, com este auge da extrema-direita supremacista, parece não haver caminhos para a mudança. Mas teremos de continuar a procurá-los. Terão de ser inventados novos caminhos, a esquerda terá de se reinventar, porque, seguindo Rosa Luxemburgo:
Friedrich Engels disse uma vez: A sociedade capitalista encontra-se perante um dilema: avançar para o socialismo ou recuar para a barbárie. Lemos e citámos estas palavras com ligeireza, sem conseguirmos compreender o seu terrível significado. Assim, encontramos-nos hoje, tal como Engels profetizou há uma geração, perante a terrível escolha: ou triunfa o imperialismo e provoca a destruição de toda a cultura ( ) ou triunfa o socialismo, ou seja, a luta consciente do proletariado internacional contra o imperialismo, os seus métodos e as suas guerras.
Não há dúvidas: «Socialismo ou barbárie!»
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Marcelo Colussi | Politólogo, professor universitário e investigador social. Nascido na Argentina, estudou Psicologia e Filosofia no seu país natal e reside actualmente na Guatemala. Escreve regularmente em meios de comunicação eletcrónicos alternativos. É autor de vários textos na área das ciências sociais e da literatura.
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