
Enquanto Houver Cultura, Cuba Resiste: Um Testemunho do Dia da Cultura Cubana deste lado do Oceano
Lisboa, 21 outubro de 2026
Há dias em que a distância pesa mais do que o costume. E há dias em que a distância é atravessada por um gesto que a torna suportável.
No dia 20 de outubro, Cuba celebrou o Dia da Cultura Cubana. Em Bayamo, o povo voltou a cantar La Bayamesa, como em 1868, quando Perucho Figueredo desceu do cavalo e entregou ao povo a letra do que se tornaria o Hino Nacional . A Praça do Hino encheu-se de vozes, de bandeiras, de memória. E eu não estava lá.
Mas o Paquito telefonou-me.
O Gesto que Atravessa o Mar
A videochamada veio do Pabellón Cuba, sede nacional da Associação Hermanos Saíz, durante um concerto de celebração. Do outro lado do ecrã, o Paquito estava acompanhado por figuras da cultura cubana… algumas que conheço, outras que desejo conhecer. E, no meio da música e da festa, ele lembrou-se de mim.
Não foi uma chamada de circunstância. Foi um abraço à distância. O Paquito sabia o que o Pabellón significa para mim. Sabia o que estou a passar. E, em vez de uma mensagem, ligou-me. Pôs-me dentro do concerto, mesmo estando longe.
Nos últimos tempos, tenho andado mais escondido. Pouco comunicativo. A vontade de estar isolado, de andar entre os meus pensamentos, de não ver pessoas. Não é fuga, nem esquecimento. É o peso dos dias. Mas as mensagens de amigas e amigos cubanos vão caindo no telemóvel, e eu, às vezes, esqueço-me de responder. Desejo que ninguém fique chateado. Em algum momento voltarei à actividade.
A chamada do Paquito fez-me recordar que os amigos estão sempre presentes. E que, em Cuba, muita gente não se esqueceu de mim.
A AHS: Um sentimento, não apenas uma organização
A Associação Hermanos Saíz celebrou 40 anos em 2026. Nas palavras do seu presidente nacional, Yasel Toledo Garnache, a AHS “é muito mais do que uma organização. É também uma família, um grupo de amigos, uma vanguarda de jovens que nutrem uma paixão invulgar pela arte e também por Cuba” .
“É um sentimento, um pulsar com um ritmo singular, uma certeza, um caminho, um impulso real em prol do bem. É o lar de todos aqueles que amam a cultura, independentemente da idade.”
O Pabellón Cuba, sede da AHS, é isso: um lar para a arte emergente, um espaço onde as utopias são possíveis, onde os jovens de 20, 30 ou 70 anos se encontram para criar, para discutir, para amar Cuba através da cultura . E foi de lá que o Paquito me ligou.
O dia da cultura cubana
O Dia da Cultura Cubana não é uma data qualquer. Celebra o nascimento do Hino de Bayamo, em 1868, quando a cultura se tornou a coluna vertebral da rebelião independentista. Como escreveu o Granma, “a cultura é o território último e inexpugnável da Pátria” .
Este ano, a data foi também dedicada ao centenário de Fidel Castro e aos 50 anos do Ministério da Cultura . Em Bayamo, a recriação da entrada dos patriotas e do reparto da letra do hino devolveu à praça o ambiente daquela jornada fundacional. E o ensaísta Ernesto Limia recordou que, desde então, os cubanos se levantaram com uma cultura “de raiz ibérica, de raiz africana”, com “vocação universal” e “como preceito, a justiça” .
“Apesar de todas as dificuldades teremos Pátria”, disse Limia .
A cultura que nos une
O Cubadebate publicou uma fotorreportagem intitulada “A cultura que nos une”. E é exactamente isso: a cultura cubana integra tradições africanas, europeias e caribenhas em expressões artísticas como a música, a dança, a literatura e as artes plásticas. “É um momento para reconhecer como a criatividade e a arte têm sido motores de unidade e resistência, e como continuam a inspirar novas gerações” .
Eu vivi isso em Cuba. Nos dias de agosto, no meio dos apagões e da escassez, a cultura estava em todo o lado. Nos concertos gratuitos, na Feira do Livro, no cinema ao ar livre, nas noites no ICAIC, na música que saía das janelas. A cultura não era um luxo — era uma necessidade. Era a prova de que, mesmo sem luz, a vida continua.
Não estive em Bayamo, mas cantei La Bayamesa
Não estive em Bayamo. Não estive no Pabellón Cuba. Não cantei La Bayamesa com o povo. Mas o Paquito levou-me. E as mensagens que caem no telemóvel dizem-me que não fui esquecido.
O Dia da Cultura Cubana foi ontem. É um daqueles dias em que gostaria de estar em Cuba. Certamente irá acontecer algum dia. Até lá, a cultura cubana continua a ser a minha trincheira. E o Pabellón Cuba, a minha inspiração.
A luta por Cuba está no meu coração todos os dias. A página Cuba Soberana vai sendo alimentada é a minha trincheira. E, quando eu voltar à actividade plena, será com a mesma certeza de sempre: a cultura é a arma que o império não consegue silenciar.
Homenagem ao Dia da Cultura Cubana
A Cuba, no seu Dia da Cultura.
A ti, que cantaste La Bayamesa em Bayamo e continuaste a cantar mesmo quando a luz faltou. Que levaste a arte às escolas, às comunidades, aos locais de trabalho, mesmo quando o país estava às escuras. Que fizeste da cultura não um luxo, mas uma trincheira.
A ti, povo cubano, que há 67 anos resistes ao bloqueio mais longo da história e continuas a criar, a dançar, a escrever, a pintar, a cantar. Que fazes da escassez uma escola de invenção e da escuridão uma sala de concerto.
A ti, que ensinaste ao mundo que a cultura não se compra nem se bloqueia. Que ela nasce do povo, vive no povo e é do povo.
Aos Meus Amigos Cubanos
E a vocês, meus amigos cubanos, que nunca se esqueceram de mim mesmo eu estando deste lado do oceano.
A vocês, que me enviaram mensagens quando eu não respondia. Que me ligaram do Pabellón Cuba no Dia da Cultura. Que me incluíram nas vossas festas, nas vossas conversas, nas vossas memórias. Que nunca me cobraram ausência nem silêncio.
A vocês, que me trataram como família desde o primeiro dia e nunca deixaram de o fazer. Que sabem que a distância não apaga nada e que o mar não separa quem se quer bem.
A vocês, que me ensinaram que a amizade, em Cuba, é coisa sagrada. Que se partilha o rum, o tabaco, o dominó, a música, a vida.
Obrigado por não se esquecerem de mim. Obrigado por me fazerem sentir que ainda estou aí, mesmo quando não estou. Obrigado por serem a prova de que a solidariedade não é uma palavra — é uma prática diária.
Um dia voltarei. E, quando voltar, abraçar-vos-ei como se o tempo não tivesse passado.
¡Patria o Muerte! ¡Venceremos! 🇨🇺✊
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