Artigos de OpiniãoRaúl António Capote

A cultura como campo de batalha: o eixo da guerra multidimensional contra Cuba

Em 1993, quando Cuba atravessava o momento mais sombrio do «período especial», com uma economia em colapso e o inimigo a apostar na queda iminente da Revolução, Fidel Castro proferiu uma frase que muitos interpretaram como um lema: «A cultura é a primeira coisa que há que salvar», afirmou perante o V Congresso da União de Escritores e Artistas de Cuba

Em 1993, quando Cuba atravessava o momento mais sombrio do «período especial», com uma economia em colapso e o inimigo a apostar na queda iminente da Revolução, Fidel Castro proferiu uma frase que muitos interpretaram como um lema: «A cultura é a primeira coisa que há que salvar», afirmou perante o V Congresso da União de Escritores e Artistas de Cuba.

A frase não surgiu no calor dos debates; era uma reflexão amadurecida ao longo de décadas de confronto com a potência mais poderosa do planeta. Fidel compreendia que, sem o sentimento de pertença, sem a defesa dos princípios e sem a espiritualidade que sustenta uma nação, seria impossível encontrar a força para resistir.

Pouco depois, em Caracas, ele sintetizou o conceito: «Uma revolução só pode ser fruto da cultura e das ideias». Era a constatação de que a Revolução Cubana tinha sobrevivido a dez governos norte-americanos, a um bloqueio económico sem precedentes e ao desaparecimento do seu principal aliado, porque possuía uma cultura revolucionária forjada ao longo de mais de um século de luta.

No vasto e turbulento cenário dos conflitos contemporâneos, as armas deixaram de ser o instrumento exclusivo para subjugar as nações; a guerra multifacetada e de carácter não convencional deslocou o centro de gravidade do confronto para terrenos menos visíveis, mas igualmente devastadores: as mentes, as identidades e as narrativas que sustentam os povos.

Assim, neste novo paradigma, a cultura não é um adorno nem um refúgio neutro; é o alvo principal, e a estratégia norte-americana contra Cuba ilustra com precisão este princípio.

Há décadas que a estratégia de subversão contra a ilha não se limita ao estrangulamento económico nem ao cerco diplomático, incorporando, de forma explícita e documentada, uma componente cultural que visa minar a identidade nacional para facilitar a derrota.

Com a fábrica de falsificadores a funcionar a todo o vapor, tal como fizeram na Europa de Leste, produzem em massa os nossos Aleksandr Solzhenitsyn, promovem, através da música a soldo, os valores da sociedade de consumo, a vulgaridade e a misoginia, compram supostos jornalistas, corrompem as consciências, saturam o nosso ecossistema digital com lixo mediático, etc.

O objectivo declarado é fazer com que «as pessoas reneguem a sua identidade» e «tenham vergonha da sua história», para que assimilem «os paradigmas e os padrões da filosofia imperialista hegemónica».

Este ataque cultural está interligado com as restantes dimensões da guerra, essencialmente com o estrangulamento económico, que não é apenas um castigo material; trata-se de uma pressão psicológica concebida para gerar desesperança e atribuir ao sistema cubano a culpa de todos os males.

Uma nação que deixa de se reconhecer a si própria está preparada para aceitar qualquer destino imposto pelo exterior; a lógica é simples e cruel.

O Primeiro Secretário do Comité Central do Partido e presidente da República, Miguel Díaz-Canel Bermúdez, descreveu a natureza desta agressão: «apagar a identidade cultural de todos os nossos povos e de todos os nossos países; tem de apagar as nossas histórias, as nossas raízes culturais; tem de levar os povos a considerar a sua cultura obsoleta».

Não se trata de uma interpretação tendenciosa por parte de Havana, mas sim de uma estratégia documentada: o uso da cultura e das artes como instrumentos de desestabilização surge nos manuais atribuídos a Gene Sharp, cujos métodos foram testados na Europa de Leste e posteriormente adaptados à América Latina.

A guerra cognitiva ataca «a capacidade de uma sociedade para interpretar a sua realidade, para se emancipar na sua história, para pensar a partir da sua própria experiência»; o objectivo não é destruir fisicamente o adversário, mas sim esvaziar de significado os símbolos que sustentam a sua coesão.

Fazer com que «soberania» signifique isolamento, que «socialismo» signifique atraso, que «Revolução» signifique ditadura, trata-se, em última análise, de uma guerra pelo significado.

Num mundo em que as guerras já não são travadas apenas com exércitos, mas com algoritmos, narrativas e símbolos, salvar a cultura é salvar a própria possibilidade de existir como nação soberana; Fidel compreendeu isso antes de quase toda a gente; a frase de 1993 não era uma metáfora, muito menos um slogan vazio.

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Raúl Antonio Capote | (Havana, 1961) é um escritor, historiador, professor, investigador e jornalista cubano.  Jornalista, chefe de redacção do Granma Internacional

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"Para quem está cansado da narrativa única." 🕵️‍♂️

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