Artigos de OpiniãoPaulo Da Silva

A Verdadeira Vanguarda Está na Rua

Lisboa, 4 de novembro de 2026 Há uma coisa curiosa nos tempos que correm. Nunca houve tantos especialistas em manifestações. Nunca houve tantos analistas de cargas policiais. Nunca houve tantos conhecedores da arte de estar na rua. E, no entanto, quando a polícia avança, quando os bastões caem, quando é preciso ajudar alguém a levantar-se, esses especialistas não estão lá. Estão nos sofás. A escrever.

O manual do perfeito intelectual de sofá

Diz a sabedoria popular que há regras para tudo. E o perfeito intelectual de sofá tem as suas. Aqui ficam, para quem quiser aprender.

Regra número um: Nunca estejas onde a luta acontece. É demasiado perigoso. Há bastões, há cães, há porrada. E, além disso, há o risco de seres visto — e ser visto é comprometer-se.

Regra número dois: Critica quem está na rua. Diz que quer protagonismo. Diz que a luta não é “a nossa”. Diz que é preciso “calcular”. Mas nunca expliques como se calcula uma bastonada. Nunca expliques como se calcula um cerco policial. Nunca expliques como se calcula o medo.

Regra número três: Exige pureza. A luta só é válida se for da tua linha, do teu partido, da tua direcção. Se for de outros, não presta. Se for de trotskistas, não presta. Se for de stalinistas, não presta. Se for de gente sem linha nenhuma, muito menos. Só a tua linha é pura. E, como a tua linha nunca está na rua, a luta nunca presta.

Regra número quatro: Chega sempre tarde. Quando a polícia carregar, espera uma semana. Depois, emite um comunicado a exigir um debate no Parlamento. Nunca condenes a violência policial directamente — isso seria “deitar achas para a fogueira”. Fala de “coesão social”, de “diálogo”, de “seriedade”. E, se possível, convoca o Conselho de Estado.

Regra número cinco: Usa a palavra “protagonismo” com generosidade. Aplica-a a todos os que estão na rua. Não importa se são jovens, se são sem casa, se são pessoas que nunca tiveram visibilidade na vida. Se estão na rua, querem protagonismo. Se estão no sofá, são intelectuais.

O efeito prático

O resultado desta sábia gestão é notável. As acampadas continuam. A polícia continua a carregar. Os feridos continuam a ser tratados. E os intelectuais de sofá continuam a escrever.

Entretanto, a luta pela habitação não avançou um milímetro. Mas os intelectuais de sofá têm a consciência tranquila. Não levaram com bastonadas. Não foram encurralados. Não tiveram de fugir. Não ajudaram ninguém a levantar-se. Mas escreveram um comunicado. E, no mundo dos sofás, isso é o mesmo que estar na rua.

A ironia final

E há uma ironia final, que os intelectuais de sofá nunca entenderão. Enquanto eles escrevem comunicados, há quem esteja na rua com a câmara na mão, a filmar a carga, a ajudar quem cai, a ser encurralado, a sair pela unidade e ajuda entre humanos.

E, quando a história cobrar as suas dívidas, os intelectuais de sofá vão dizer que sempre estiveram do lado certo. E, tecnicamente, estarão. Porque nunca estiveram do lado nenhum.

Homenagem à malta que faz da luta a sua luta

Há um momento, em todas as lutas, em que se percebe quem está lá por convicção e quem está lá por conveniência. Nas acampadas pela habitação, esse momento já passou há muito.

Esta homenagem é para vocês. Os que ficaram.

Para quem não tem Casa

Para vocês, que dormem em tendas no Rossio e na Praça D. João I, não por aventura, mas porque não têm outra. Vocês sabem o que é pagar uma renda que não conseguem suportar, ou viver num quarto que não é vosso, ou depender de familiares que já não têm espaço.

Vocês fazem da luta pela habitação a vossa luta, porque não é uma causa abstrata — é a vossa vida. E vocês estão a lutar por ela.

Para quem tem casa e ainda assim está lá

Para vocês, que já têm casa, que não precisam de estar nas acampadas, mas que estão. Vocês descobriram que a solidariedade não se mede pela necessidade, mas pela consciência. Sabem que a luta não é só vossa, mas que, se não for de todos, não será de ninguém.

Vocês levam com bastonadas por uma causa que não é directamente a vossa, mas que sentem como se fosse. E isso é o que significa ser camarada.

Para quem levou com os bastões

Para vocês, que já sentiram o peso do bastão, o cheiro do medo do cerco. Vocês foram encurralados, tiveram de fugir, ajudaram outros a fugir. E, no meio do caos, continuaram a filmar, a fotografar, a testemunhar — não por heroísmo, mas porque sem imagens a violência seria invisível.

Vocês são a prova de que a luta não é um jogo. É a vida real, com medo e com coragem.

Para quem ajuda sem perguntar de que linha são

Para vocês, que puxaram pessoas para fora do caminho sem perguntar de que partido eram. Vocês estenderam a mão a quem caiu, sem verificar se a linha política era a correcta. Vocês sabem que, perante uma carga policial, a única linha que importa é a linha da humanidade.

E isso, é o que significa ser humano.

Para quem é acusado de protagonismo

Para vocês, que querem apenas uma casa e são acusados de querer protagonismo. Vocês passam noites em claro e são acusados de oportunismo. Vocês levam com bastonadas e são acusados de calcular. Vocês fazem da luta a vossa luta e são acusados de não ser “a nossa”.

Aos que vos acusam, a história cobrará as suas dívidas. A vocês, a história absolver-vos-á.

Para os que ficam

Para vocês, que ficam quando os intelectuais de sofá já foram dormir. Vocês ficam quando os comunicados já foram emitidos. Vocês ficam quando a polícia já carregou e o medo já passou. Vocês ficam porque a luta não é um evento — é uma prática diária.

E é por isso que vocês são a vanguarda. Não a vanguarda dos discursos, mas a vanguarda das ruas.

Não é de um partido

A luta pela habitação não é de um partido, não é de uma direcção, não é de uma linha. É vossa. É de quem precisa de casa. É de quem está na rua. É de quem leva com bastonadas, ajuda quem cai, filma o que acontece, e continua.

E, um dia, quando a habitação for tratada como um direito e não como uma mercadoria, a victória será vossa. Não dos que escreveram comunicados. Não dos que exigiram cálculo. Não dos que acusaram de protagonismo. Vossa.

Porque foram vocês que estiveram lá. Quando era preciso. Quando doía. Quando não havia garantias de nada.

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Paulo Da Silva

Um activista português que viu, cheirou e sentiu o bloqueio. Pela soberania de Cuba. Pelo fim do cerco. Pelos milhões que, em silêncio, já decidiram de que lado estão. Porque os princípios, como Fidel ensinou, não se negoceiam.

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