Cuba

A chantagem como método

A poucos dias de a Assembleia Geral das Nações Unidas analisar, mais um ano, o relatório sobre a necessidade de pôr fim ao bloqueio contra Cuba, o Governo dos Estados Unidos lançou uma intensa campanha de pressão e chantagem sobre os chefes de Estado e de Governo de vários países

A poucos dias de a Assembleia Geral das Nações Unidas analisar, mais um ano, o relatório sobre a necessidade de pôr fim ao bloqueio contra Cuba, o Governo dos Estados Unidos lançou uma intensa campanha de pressão e chantagem sobre os chefes de Estado e de Governo de vários países.

A denúncia foi feita esta quarta-feira por Bruno Rodríguez Parrilla, membro do Bureau Político e ministro dos Negócios Estrangeiros de Cuba, através da sua conta na rede social X. «O Secretário de Estado dos EUA, nervoso e ansioso perante mais uma derrota nas Nações Unidas, está a pressionar e a chantagear chefes de Estado e de Governo de vários países para que alterem o seu voto contra o bloqueio na Assembleia Geral da ONU», escreveu o ministro das Relações Exteriores.

Não se trata de uma acusação rectórica. O próprio Rodríguez Parrilla revelou que o custo do bloqueio entre 1 de março de 2025 e 28 de fevereiro de 2026 ascendeu a 8 083,3 milhões de dólares, o valor mais elevado registado e 7 % superior ao do período anterior. O total acumulado desde o início do embargo ultrapassa os 178 700 milhões de dólares a preços correntes.

Por trás desses números está uma estratégia que não se limita ao estrangulamento material. A pressão sobre os votos na ONU faz parte do mesmo plano: isolar politicamente a ilha para que a sanção económica pareça uma condenação universal e não uma decisão unilateral de Washington.

Nessa linha de pensamento, o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, Carlos Fernández de Cossío, descreveu o mecanismo dessa ofensiva. «À maior potência económica, tecnológica e militar do planeta não basta impor uma punição colectiva a todo o povo de Cuba e deteriorar o nível e as condições de vida de toda a população com o objectivo de provocar uma crise humanitária», afirmou nas redes sociais.

Perante o isolamento político e moral que essa agressão gera, acrescentou, Washington «dedica recursos consideráveis para pressionar os governos de todo o mundo, com o objectivo de que estes alterem a sua posição tradicional e exijam que se ponha fim aos abusos e aos crimes».

O vice-ministro dos Negócios Estrangeiros foi mais longe ao descrever o comportamento do secretário de Estado Marco Rubio. «Andou a vaguear de país em país e a telefonar a chefes de Estado, num esforço desesperado para intimidar, chantagear e prometer incentivos a governos de todas as partes do mundo», escreveu.

Essa imagem do Secretário de Estado a percorrer capitais com promessas e ameaças não é uma licença literária, é a descrição de uma diplomacia que transformou a chantagem num instrumento do quotidiano.

Temos o padrão bem claro: quando a pressão não consegue fazer com que a maioria mude de opinião, procura, pelo menos, reduzi-la; cada voto perdido é depois apresentado como prova de um suposto isolamento de Cuba, embora a esmagadora maioria continue a apoiar o fim do bloqueio.

A votação deste ano está prevista para 28 de outubro, mas já não basta o cerco económico; a isso juntam-se a intimidação direta aos representantes dos Estados-Membros, a promessa de benefícios em troca de um voto e a invenção de pretextos para justificar o injustificável.

Mas o que está em jogo não é apenas o resultado de uma votação, é a possibilidade de o multilateralismo funcionar como um espaço de deliberação soberana, porque quando a potência mais poderosa do planeta pressiona os países pequenos e médios para que alinhem os seus votos com os seus interesses, não ataca apenas Cuba, ataca o próprio princípio da igualdade soberana dos Estados, consagrado na Carta das Nações Unidas.

Bruno Rodríguez foi muito claro: Washington tenta «silenciar o acto de punição colectiva que comete contra o povo cubano e tornar o resto da comunidade internacional cúmplice dessa barbárie». É a descrição exacta do que acontece quando a chantagem se torna um método de trabalho diplomático.

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Raúl Antonio Capote | (Havana, 1961) é um escritor, historiador, professor, investigador e jornalista cubano.  Jornalista, chefe de redacção do Granma Internacional

Fonte:

"Para quem está cansado da narrativa única." 🕵️‍♂️

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