
Uma estrela de David no Escudo das Américas
Devido à política geopolítica neofascista de Trump, a América Latina e o Médio Oriente estão unidos por laços indissolúveis, dos quais depende a própria existência dos nossos povos.
Em 1879, o panfletista alemão Wilhelm Marr acrescentou à conotação religiosa do antijudaísmo — cuja origem é anterior à era moderna — uma dimensão étnica: o «anti-semitismo», e fundou o primeiro partido de base popular criado para promover a hostilidade ideológica e «racial» contra os judeus: a Liga Antissemita; embora seja importante precisar que o termo «semita» não se limita aos hebreus: define os descendentes de Sem, o primogénito de Noé, cuja linhagem, de acordo com o livro do Génesis (o primeiro da Bíblia), se espalhou pelos antigos povos de Aram, Assíria, Babilónia, Síria, Canaã — incluindo os israelitas — e Fenícia.
A partir da década de 1880, os defensores mais extremistas do nacionalismo judaico laico — surgido de um grupo de ateus convencidos de que o antissemitismo europeu impedia a assimilação individual — empenharam-se em criar um Estado na Sião do Antigo Testamento; daí o nome «sionismo», palavra cunhada em 1890 pelo líder desse pequeno núcleo intelectual: o austríaco Nathan Birnbaum. Segundo a mitologia bíblica, essa terra abrangia o que na época se denominava Palestina e era habitada pelos árabes há mais de mil anos. Um slogan do jornalista britânico de origem judaica, Israel Zangwill: «Uma terra sem povo, para um povo sem terra», ocultou o facto de que, nos 25 mil km² do território histórico da Palestina, viviam meio milhão de árabes (90 por cento).
O sionismo encontrou o seu profeta em Theodor Herzl, um jornalista húngaro formado em Viena que, em 1897, organizou o primeiro congresso sionista na cidade suíça de Basileia. Após uma viagem, no ano seguinte, à Palestina — na altura, possessão colonial do Império Otomano —, Herzl publicou o panfleto «O Estado Judeu», no qual a palavra «árabe» não aparecia uma única vez, em consonância com o slogan de Zangwill que tentavam incutir na consciência social europeia.
Em 1909, o primeiro judeu integrou um governo britânico: Herbert Samuel, um indivíduo reservado quanto às suas ideias sionistas que conseguiu persuadir o ministro dos Negócios Estrangeiros, Sir Edward Grey, e o ministro da Economia — e futuro primeiro-ministro —, Lloyd George: uma vez derrotado o Império Otomano, a região destinada a servir de pátria nacional não deveria incluir Beirute nem Damasco, habitadas por uma numerosa população árabe que não poderiam integrar. Era vantajoso que o resto da Síria fosse anexado pela França, pois para o Estado a criar seria muito melhor ter como vizinho uma potência europeia e não os turcos. A partir desse momento, tomou forma a ideia de uma divisão entre ingleses e franceses: a Grã-Bretanha ocuparia o território da Palestina histórica; a França, a Síria e o Líbano.
Do outro lado do Atlântico, um pregador de Dallas, no Texas: Cyrus Scofield, publicou nesse mesmo ano de 1909 uma versão anotada da Bíblia que legitimava os desígnios sionistas: Deus tinha dois povos escolhidos: o povo judeu e a Igreja. O primeiro cumpriria os planos terrenos de Deus; o segundo reinaria com Deus no céu.
Os sionistas consagram o Estado de «Israel»
Em 1917, o lobby sionista em Londres conseguiu que a Coroa emitisse a Declaração de Balfour, que concedia um «lar nacional» ao povo judeu assim que este derrotasse o Império Otomano na Grande Guerra. O Tratado de Versalhes, de 1919, ractificou essa decisão: a Grã-Bretanha ficou com o mandato colonial do Iraque e da Palestina, que foi dividida em duas: a Palestina e a Transjordânia. A França ocupou a Síria e o Líbano. A 1 de julho de 1920, Herbert Samuel assumiu o cargo de Alto Comissário do governo de Londres em Jerusalém, onde se encarregou de estabelecer o quadro jurídico para a colonização judaica. Os ideólogos do sionismo já falavam em «transferir» os palestinianos — eufemismo que antecipava a ideia de limpeza étnica — antes de construir uma pátria judaica. «A nossa ideia é que a colonização da Palestina deve seguir duas direcções: o assentamento judeu em Eretz Israel e o reassentamento dos árabes de Eretz Israel em zonas fora do país», proclamou Leo Motzkin, sionista ucraniano e figura-chave da delegação que exerceu pressão em Versalhes (Eichler, 2023).
Com a chegada de judeus ortodoxos da Europa Oriental e com as leis promulgadas a seu favor por Samuel, teve início a colonização. A criação do Estado de «Israel» era uma questão de tempo e, após o fim da Segunda Guerra Mundial, com o apoio dos Estados Unidos e da União Soviética, em 1947, a ONU decretou a divisão do território da Palestina histórica em duas partes.
O sionismo ganha terreno nos Estados Unidos
Aos olhos do cristianismo messiânico nos Estados Unidos, a criação do Estado de «Israel» provou que os planos apocalípticos de Deus estavam prestes a tornar-se realidade. O Texas foi o centro nevrálgico dessa crença graças à Bíblia de Scofield, texto de referência do Seminário Teológico de Dallas, de onde se espalhou pelos estados do sul com a formação teológica do fundamentalismo cristão.
A ajuda militar dos Estados Unidos a «Israel» teve início em 1959. No contexto da Guerra Fria, Harry Truman e Dwight Eisenhower evitaram prejudicar as relações com os países árabes, com o objectivo de diminuir a influência da URSS na região e afastar os consórcios petrolíferos britânicos. O primeiro fornecimento significativo de armas só ocorreu em 1962: o sistema antiaéreo Hawk (mísseis terra-ar contra aviões a média e baixa altitude). John F. Kennedy prometeu apoio em privado no caso de uma invasão árabe; no entanto, tentou dissuadir o programa nuclear que «Israel» desenvolvia com fins militares no deserto do Negev. O seu assassinato em Dallas (o bastião do fundamentalismo cristão) abriu as portas do Salão Oval a Lyndon Johnson, que deu luz verde ao Pentágono para aumentar a ajuda ao exército israelita, de 63 milhões de dólares anuais para mais de 100 milhões.
Entre 1965 e 1967, os Estados Unidos forneceram às Forças de Defesa de «Israel» mais de duzentos tanques M-48, que o exército norte-americano estreou em 1965 no Vietname; caças A-4 Skyhawk e A-4E, com capacidade para transportar bombas nucleares; e caça-bombardeiros supersónicos F-4 Phantom, cujos recordes de velocidade só seriam superados uma década mais tarde. E, em 1973, durante a Guerra do Yom Kippur, forneceu 55 mil toneladas em tanques e artilharia, a que se acrescenta a transferência de 76 caças-bombardeiros e doze aviões de transporte C-130 Hércules.
Washington e «Tel Aviv» estabelecem contacto
Até 1970, o lobby pró-Israel em Washington evitou estabelecer laços com o fundamentalismo cristão devido aos seus preconceitos contra a ortodoxia judaica. Nesse ano, as coisas começaram a mudar: Hal Lindsey, um pregador formado no Seminário Teológico de Dallas, cujos escritos catastróficos associavam os acontecimentos geopolíticos às profecias bíblicas, publicou: A agonia do grande planeta Terra, no qual afirmava que o fim dos tempos estava ligado a «Israel». Descreveu quatro acontecimentos antes da vinda de Jesus Cristo: o povo judeu deveria regressar à sua terra, recuperar Jerusalém e reconstruir o templo destruído pelas legiões romanas. Um quarto evento poderia ocorrer a qualquer momento: o Arrebatamento (Jesus Cristo regressaria em segredo para levar os cristãos para o céu durante a Grande Tribulação na Terra; sete anos depois, regressaria para destruir os ímpios e estabelecer o seu Reino). Com a fundação do Estado de «Israel» em 1948 e a tomada de Jerusalém na Guerra dos Seis Dias, duas das quatro profecias tinham-se cumprido; o fim estava muito próximo: apenas uma geração.
Elogiado por figuras como Bob Dylan e Bob Marley, o livro tornou-se um best-seller de quiosque em paragens de autocarro, aeroportos e supermercados, que concorreu com *O Exorcista*, os romances policiais de Agatha Christie e os livros sobre sexo. No final da década, já tinha vendido mais de dez milhões de exemplares. Foi adaptado para a televisão e Orson Welles realizou um filme em «Israel». Lindsey acumulou uma fortuna e alcançou a fama como conferencista e consultor internacional.
Apesar da relutância dos rabinos ortodoxos, uma estrela em ascensão em «Tel Aviv» captou o sinal: Benjamin Netanyahu, filho de um reconhecido historiador das ideias sionistas que lecionava na Filadélfia, onde Netanyahu realizou os seus primeiros estudos. Em 1967, regressou a «Israel» para cumprir os cinco anos de serviço militar nas forças especiais. Concluiu o serviço com o grau de capitão e a patente de chefe de comando; depois, regressou aos Estados Unidos para estudar gestão de empresas no Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Trabalhou dois anos no Boston Consulting Group, um dos gigantes da especulação financeira, e regressou a «Israel».
Graças à gestão de Netanyahu, após a invasão do sul do Líbano em 1978, «Israel» concedeu um canal de televisão aos fundamentalistas cristãos e, em 1980, permitiu-lhes estabelecer uma embaixada em Jerusalém. Quando, em 1981, Reagan lançou a ofensiva para purificar o sistema de valores norte-americano e instaurar a ideologia neoliberal, colocou o pequeno ecrã nas mãos do fundamentalismo cristão que o levou à Casa Branca. Pregadores histriónicos anunciaram a chegada do Armagedão e apresentaram o expansionismo sionista como um mandato divino. «Quem se opõe a «Israel» opõe-se a Deus», proclamou de costa a costa o pastor batista Jerry Falwell, ícone da direita religiosa com milhões de seguidores.
Em 1985, na qualidade de embaixador de Israel junto da ONU, Netanyahu foi convidado para a convenção anual dos sionistas cristãos em Nova Iorque. A sua intervenção no evento selou a aliança e, a partir daí, enquanto o lobby israelita em Washington concentrava os seus esforços nas fileiras do Partido Democrata, os fundamentalistas angariavam o apoio republicano, um feito de grande importância, uma vez que a classe empresarial republicana tendia a aceitar os pontos de vista árabes.
Nesse ano de 1985, foi assinado um Acordo de Comércio Livre — o primeiro do género para os Estados Unidos —, que garantiu a estabilidade económica de «Israel» após anos de inflação elevada e transmitiu uma mensagem sobre a natureza de uma aliança baseada em valores partilhados. Em 1987, «Israel» recebeu o estatuto de Aliado extra-OTAN e tornou-se o maior destinatário de ajuda militar norte-americana.
O «terrorismo islâmico»: uma batalha pela narrativa histórica
Na batalha pela narrativa, o meio académico e os linguistas do sionismo conquistaram tantas vitórias, ou talvez mais, que os comandantes militares e os atentados de 11 de setembro de 2001 proporcionaram ao sionismo uma oportunidade. Desde então, o seu núcleo intelectual tem vindo a reescrever a história com uma visão anti-islâmica, que nega as grandes conquistas culturais e sociais do Médio Oriente e tacha de pagã e satânica a atitude muçulmana em relação ao cristianismo ao longo dos séculos. O que se esconde por trás disto? Que se pense nos palestinianos que residem em «Israel» e nos territórios ocupados como «muçulmanos». Esse termo, associado à imagem de que todo o árabe é um terrorista, permite-lhes semear a ideia de que na Ásia se está a forjar outra «solução final». Nas palavras de Noam Chomsky: o novo discurso da academia sionista transformou os Estados Unidos em São Jorge; «Israel» no seu escudo e na sua lança, e o Islão no dragão (Chomsky, 20: 2010).
E São Jorge trabalha para tornar o seu escudeiro invulnerável: «Israel» é o maior destinatário de ajuda militar de toda a história, com 251 mil 200 milhões de dólares, ajustados à inflação, desde 1959. E desde o início dos bombardeamentos em Gaza, a 7 de outubro de 2023, destinou o montante recorde de, pelo menos, 17 900 milhões. Este pacote faz parte de um acordo no valor de 38 mil milhões de dólares para o período de 2019 a 2028, que inclui 50 caças F-15 a serem entregues a partir de 2029.
Em 2020, um tribunal distrital em «Tel Aviv» acusou Netanyahu de corrupção, tornando-o o único primeiro-ministro na história de Israel a ser julgado enquanto exercia o cargo: 333 testemunhas da acusação começaram a prestar depoimento em abril de 2021. Precisando de uma aliança que lhe permitisse ser reeleito nas eleições de 2022, no meio desse processo, fez um pacto com os dois líderes das alas radicais da extrema-direita: Bezalel Smotrich, líder do Partido Sionista Religioso; e Itamar Ben-Gvir, líder do partido supremacista Força Judaica, e saiu vitorioso nas urnas.
No dilema entre civilização e barbárie, o problema com «Israel» nunca foi o seu carácter de Estado judeu, mas sim o carácter étnico que lhe atribuem os ideólogos do sionismo. Não aceitam os árabes como iguais e exacerbam o chovinismo e o medo da vingança entre os israelitas, cientes dos sentimentos de culpa que os dominam após mais de um século de ultrajes contra o povo palestiniano. Invocam o holocausto, mas os seus actos ridicularizam o verdadeiro significado da tragédia judaica. Alimentaram a expectativa de que, através das suas acções, eliminariam os árabes e, hoje, na Palestina histórica, vivem 7 372 mil palestinianos, contra 7 255 mil israelitas. Um século após o início da colonização judaica à sombra do Império Britânico, o número de palestinianos nas proximidades da Palestina e fora dela ascende a 15 milhões. O sionismo falhou no seu objectivo.
Os sionistas aliavam-se ao neofascismo
Perante a rejeição, no seio das mais importantes universidades dos Estados Unidos, do genocídio em Gaza e na Cisjordânia, Netanyahu não teve qualquer receio em estreitar a aliança com o gabinete formado por Trump para o seu segundo mandato presidencial, no seio do qual não são poucos os que veneram a ideologia e os símbolos nazis; consequentemente, a repressão contra o movimento antissionista na América do Norte assumiu traços de macartismo e, com o seu plano neocolonial para Gaza, Trump procurou neutralizar o reconhecimento pleno do Estado palestiniano por parte do Ocidente, mais um passo rumo à emancipação do seu povo.
Especialistas em cibersegurança das Forças de Defesa de «Israel» e empresas que colaboram com os seus serviços de inteligência têm influenciado as eleições presidenciais na Argentina, no Paraguai, nas Honduras, na Colômbia e no Brasil — para citar os casos mais evidentes —, num esforço para apoiar Trump na formação de um eixo neofascista no hemisfério, em consonância com os seus desígnios. Não é a primeira vez que isto acontece: quando, durante a administração Carter (1977-1981), os fornecedores de armas dos Estados Unidos e da Europa Ocidental viram-se obrigados a afastar-se das ditaduras militares do Cone Sul, orquestradas pela CIA na Operação Condor, a indústria de defesa e os mercenários israelitas ocuparam o seu lugar.
Para Netanyahu, o restabelecimento dessas relações desempenha um papel político de primeira ordem: demonstrar apoio internacional face ao isolamento diplomático causado pela guerra em Gaza. Já está a colher os frutos: — além dos Estados Unidos — as Honduras, o Paraguai e a Guatemala estabeleceram as suas embaixadas em Jerusalém; a Argentina e a Colômbia anunciaram essa intenção; Flavio Bolsonaro prometeu incluir o Brasil, caso vença as eleições deste dia 4 de outubro.
Entre os dias 9 e 10 de setembro, Marco Rubio visitará a Colômbia, o Equador e o Peru. É pouco provável que o tema não conste como um ponto da agenda secreta. Rubio mantém laços estreitos com o lobby sionista desde que iniciou a sua carreira na equipa da senadora Ileana Ros-Lehtinen, fervorosa defensora de Batista e de ascendência judaica. Vários elementos confirmam um estreitamento das relações para além das promessas: o ministro dos Negócios Estrangeiros Gideon Sa’ar tem vindo a estabelecer as bases para uma mudança qualitativa que culminará numa maior presença de especialistas israelitas nas operações repressivas contra a esquerda desses três países; tal como acontece nos restantes países onde já operam os seus conselheiros militares e de serviços secretos.
Não podemos resignar-nos ao papel de espectadores quando estão em jogo os destinos da humanidade. Um mundo melhor é possível, como já foi reiterado; mas cabe-nos reagir de uma vez por todas para construir essa utopia nestes tempos de esquecimento, neoliberalismo e guerra cognitiva. Devido à geopolítica neofascista de Trump, a América Latina e o Médio Oriente estão unidos por laços indissolúveis, dos quais depende a própria existência dos nossos povos.
Bibliografia
Chomsky, Noam e Ilan Pappé: Gaza em crise. Reflexões sobre a guerra de «Israel» contra os palestinianos. Penguin Random House Grupo Editorial, 2011.
Eichler, William: «O sonho conturbado de Herzl: as origens do sionismo». History Today, Volume 73, Número 6, junho de 2023. Disponível em: https://www.historytoday.com/archive/feature/herzls-troubled-dream-origins-zionism
Knickmeyer, Ellen: «Os Estados Unidos gastaram um montante recorde em ajuda a “Israel” desde o início da guerra em Gaza». AP (Washington), 7 de outubro de 2024. Disponível em: https://apnews.com/us-news/general-news-49f2e56e58227c28dc174d0d1959a00e
Mainprize, Ronan: «Como LBJ forjou a aliança entre os EUA e Israel», 22 de janeiro de 2024. Disponível em: https://engelsbergideas.com/notebook/how-lbj-forged-the-us-israel-alliance/
Pappé, Ilan: A limpeza étnica da Palestina. Barcelona, Crítica, S.L., 2008.
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Ernesto Limia | Historiador e escritor cubano
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