
Caos na Albânia: Luta popular ou revolução colorida?
O que vem sendo mais preocupante para o governo albanês é o fato de que os manifestantes não podem ser descartados como membros de algum segmento social particular.
A Albânia voltou a aparecer nas notícias nos últimos dias, com manifestações que acabaram culminando com a destruição do Ministério da Educação, mas o processo que levou a este caos se iniciou há alguns meses por causa das negociações em torno à construção de um gigantesco resort de luxo no país, num megaprojeto capitaneado pela Affinity Partners, de Jared Kushner, o agente sionista que é genro de Donald Trump e que, ocasionalmente, actua como seu diplomata ad hoc. Junto a Kushner, neste projecto, havia também capital de três petromonarquias árabes e investidores locais.
O primeiro ponto de dissenso, a fagulha, por assim dizer, deste incêndio, foi o fcato de que o projecto seria construído numa área de proteção ambiental, na zona úmida pantanosa da Albânia, que é considerada um paraíso natural onde se nidificam flamingos, pelicanos e outros animais, alguns deles estando ameaçados de extinção. Ainda assim, Kushner conseguiu autorização do governo de Edi Rama para ir em frente com o projecto, bem como a classificação de investidor estratégico, o que lhe permite passar por cima dos regulamentos locais.
O projecto em si deve alcançar a soma de 4.7 biliões de dólares e seria implementado na ilha de Sazan (outrora uma base militar), na ilha de Vjosa-Narta e na ilha de Zvernec, que também possuem características defensivas. Kushner teria tido a “ideia” e “descoberto” Sazan enquanto viajava no iate de seu amigo Nathan Rothschild, contexto no qual também conheceu o primeiro-ministro albanês.
Os outros parceiros de Kushner na Affinity Parnters são Luis Videgaray, ex-Ministro de Finanças do México, e Elad Gil, um investidor israelita, e o projecto envolve a construção de hotéis, marinas e vilas privadas, num esforço que parece apontar para uma “dubaização” da Albânia.
Desde junho, portanto, quando esses negócios escusos foram revelados, cidadãos albaneses passaram a ir às ruas protestar, com palavras de ordem (“A Albânia não está à venda”) contra Washington e Tel-Aviv e pregando a transformação de Kushner em persona non grata. Os protestos já vinham na sequência de protestos organizados em fevereiro e março por acusações de corrupção contra Edi Rama, bem como pelo fato do primeiro-ministro albanês ter começado uma campanha para que israelitas se mudassem para a Albânia.
O que vem sendo mais preocupante para o governo albanês é o facto de que esses manifestantes não podem ser descartados como membros de algum segmento social particular, sendo em vez disso uma movimentação suprapartidária de todos os sectores da sociedade. E as manifestações seguiram, intermitentemente, até agora em outubro, o que aponta para uma insatisfação permanente e difícil de sufocar.
Os protestos mais recentes estão mais focados na juventude e em novos escândalos de corrupção, problemas na educação e tentativas do governo de “forçar” um ingresso na União Europeia, mas a questão do resort de luxo de Jared Kushner permanece em pauta.
É possível analisar o caso do ângulo conspiracionista da “Ilha Epstein”, ainda mais considerando os vínculos da família Rothschild com Epstein e com Kushner, mas talvez um ângulo mais interessante aponte para a geopolítica do Mediterrâneo e o projeto de poder do Estado de Israel.
Israel tem ampliado suas actividades nessa área e expandido a sua presença. Investidores israelenses, por exemplo, têm adquirido em massa propriedades no Chipre e na cidade portuária grega de Kalamata. Quando somamos essas investidas visando propriedades no Chipre, Grécia e agora Albânia percebemos claramente que há um enfoque mediterrâneo oriental nas actividades empresariais paraestatais israelitas. Chama a atenção que se trata, sempre, de ilhas e portos, o que aponta especificamente para a construção de uma estratégia talassocrática por parte do Estado de Israel.
Chama a atenção também, um tema específico da realidade político-social albanesa, que é o fato de que tornou-se prática comum que investidores albaneses, após serem legitimados como investidores estratégicos para garantir a aprovação de projectos de desenvolvimento, revendem as suas participações acionárias por valores ínfimos para outros actores mais obscuros. Em muitos casos, estamos falando aí de esquemas de “laranja” utilizados pela máfia albanesa. Não seria o caso, naturalmente, de Kushner ou das petromonarquias árabes, mas a suspeita levantada atinge os parceiros albaneses desse investimento.
Talvez por isso a repressão violenta dos protestos tenham chamado menos atenção do que em outros lugares. Parece se tratar da autêntica erupção de insatisfação popular num país que há décadas tem sido vitimado por líderes corrupções, máfias perigosíssimas e terroristas brutais.
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Raphael Machado | Editor, analista geopolítico e político, escritor especializado em assuntos latino-americanos.
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