
Será que a CIA consegue derrotar Cuba? De Harry Truman a Donald Trump (II)
A história da CIA contra Cuba inclui uma longa lista de sabotagens, assassinatos e todo o tipo de acções destinadas a derrubar a revolução, o seu líder Fidel Castro e acabar com o exemplo de dignidade do povo; neste artigo, o autor relata muitos desses acontecimentos.
Em 1980, o republicano Ronald Reagan, um actor medíocre que se tornou presidente, venceu as eleições nos Estados Unidos. Com pouca cultura e sem estudos universitários, aos 69 anos apresentou uma visão desprovida de complexidade que o ligou a amplos sectores da população anglo-saxónica da classe média baixa. Tudo o que era preciso saber era que os Estados Unidos estavam envolvidos numa luta global contra o comunismo e que a estavam a perder «… simplesmente porque não nos apercebemos ou não queremos aperceber-nos de que estamos nessa luta (…) só pode haver um desfecho para a guerra em que estamos metidos (…) a guerra termina em vitória ou derrota», afirmou num discurso de campanha (Dugger, 1983: 351).
Reagan solicitou, no meio da campanha eleitoral, um plano de política externa. O seu conselheiro para essas questões, Richard Allen, um politólogo que integrava a equipa do Conselho de Segurança Nacional na Administração Nixon, reuniu em Santa Fé, Novo México, um grupo de trabalho cuja liderança atribuiu a Roger W. Fontaine. Intitularam-no: «As relações interamericanas; escudo da segurança do novo mundo e espada da projecção global dos Estados Unidos» ― ou Documento de Santa Fé I.
Com a Doutrina Monroe e a ideologia neoliberal como pilares fundamentais, conceberam o recurso aos meios militares como garantes da política externa dos Estados Unidos. «O continente americano está sob ataque», declararam, e todo o argumento visava responsabilizar Cuba como instrumento da URSS para intervir na América Latina e nas Caraíbas. Apelaram à retoma da assistência às ditaduras militares do Cone Sul; à colocação do Canal do Panamá sob a protecção da Junta Interamericana de Defesa; à derrubada do Governo da Frente Sandinista e das guerrilhas da Guatemala e de El Salvador; a combater a Teologia da Libertação e a dar prioridade à «batalha pelas mentes» da elite intelectual latino-americana através de prémios e bolsas de estudo (Documento Santa Fé I, 1980: 2-4).
Santa Fe I não foi o resultado de um exercício teórico, como se quis fazer crer. Essa era a visão de Reagan e os seus redactores limitaram-se a transpor o seu pensamento político para a linguagem académica, a fim de estabelecer uma doutrina.
Um axioma nos Estados Unidos defende que o início de um governo é o melhor momento para enviar sinais: um mês antes de tomar posse, Reagan nomeou Allen como conselheiro de Segurança Nacional; e Fontaine como conselheiro para a América Latina do Conselho de Segurança Nacional (NSC, na sigla em inglês). Como secretário de Estado, a escolha foi mais explícita: Alexander Haig, um general de quatro estrelas que combateu na Coreia e no Vietname; trabalhou como conselheiro adjunto de Segurança Nacional e chefe de gabinete de Nixon; como elo de ligação do NSC com a Brigada 2506 (mercenários da Baía dos Porcos) e conselheiro de Robert Kennedy durante a Crise de Outubro; comandante supremo da OTAN entre 1974 e 1979.
A 20 de janeiro de 1981, Reagan compareceu à cerimónia de tomada de posse (por assim dizer) vestido de ranger e com a faca na boca para desafiar a URSS… Em relação a Cuba, por outro lado, mostrou-se cauteloso. Foi Haig quem desencadeou um verdadeiro clima de crise ao acusar o Governo soviético de apoiar a guerrilha salvadorenha através de Cuba e, a 27 de fevereiro, proferiu uma ameaça de intervenção directa. Os seus planos encontraram resistência. No início de junho de 1981, apresentou uma proposta de plano de contingência ao NSC para impor «limites» a Cuba com medidas centradas em intensificar o bloqueio e acções militares; outra proposta, em novembro, seguia a mesma linha.
Haig não desistiu e, nesse mesmo mês de novembro, decidiu aventurar-se num terreno espinhoso: ameaçar directamente Cuba. Pediu ao presidente mexicano José López Portillo que marcasse um encontro secreto com um dirigente do Governo da ilha. Cuba nunca se recusou ao diálogo e Fidel enviou o vice-presidente Carlos Rafael Rodríguez, um dos mais importantes ideólogos da Revolução, um comunista experiente na luta desde a época de Machado. Não era a primeira vez que se reunia com um alto funcionário norte-americano; mas Haig era outro caso, o próprio López Portillo classificou as suas declarações sobre Cuba como «terrorismo verbal».
Haig deixou claro que não estava a fazer ameaças em vão com a ameaça de invasão caso Cuba não retirasse os professores que prestavam colaboração na Nicarágua — a quem chamou de «conselheiros militares». Como é de imaginar, o Governo Revolucionário não iria renunciar a um princípio que rege as nossas lutas desde o século XIX: o internacionalismo. Graças à colaboração dos professores e professoras cubanos, em menos de um ano, 406 mil 56 nicaraguenses foram alfabetizados e a taxa de analfabetismo reduziu-se de 50,35 por cento para 12,96 por cento.
A Revolução Sandinista teve de pagar um preço elevado por garantir ao seu povo o direito ao conhecimento. Entre 1979 e 1984, a Contra, organizada e financiada pela CIA por ordem da Administração Reagan, destruiu 14 escolas, assassinou 113 professores — entre os quais quatro cubanos — e raptou outros 187.
A 29 de janeiro de 1982, Haig apresentou ao NSC outro plano de contingência contra Cuba e a Nicarágua. Desta vez, pensou ter sorte, pois Reagan aprovou-o e emitiu a Directiva 21 de Segurança Nacional; em essência: fechariam a Secção de Interesses em Havana e expulsariam os diplomatas cubanos em Washington; colocariam numa lista negra os navios que atracassem em portos da ilha; e estabeleceriam um bloqueio naval com acções militares de grande envergadura para neutralizar a capacidade ofensiva de Cuba e da Nicarágua. O Secretário da Defesa alertou que poderia repetir-se outro Vietname e os chefes do Estado-Maior Conjunto consideraram que a URSS poderia responder com acções de retaliação noutro ponto do globo. Tudo indica que Reagan reconsiderou e arquivou a directiva.
Longe do que se pensava no NSC, enquanto a elite transnacional se unia a Reagan, a liderança soviética distanciava-se dos seus aliados e demonstrava cada vez menos preocupação com os países em desenvolvimento. A 29 de dezembro de 1982, Yuri V. Andropov disse a Raúl Castro, numa reunião em Moscovo, que, em caso de agressão norte-americana, Cuba teria de se defender sozinha: «… vocês estão a 11 mil quilómetros de nós. Vamos lá para que nos partam a cara?” (Leonov, 2015: 200-202).
Fidel reagiu com uma mudança estratégica na doutrina de defesa: passar para a «guerra de todo o povo», testada com sucesso no Vietname.
Enquanto Cuba se preparava para combater a intervenção militar, a CIA pô-se a implementar um programa de guerra económica, terrorismo de Estado e acções destinadas a fortalecer a oposição interna. Nesse contexto, nasceu, em 1981, a Fundação Nacional Cubano-Americana (FNCA), que, com o apoio de Langley e da própria Casa Branca, assumiu um papel de destaque na concepção e implementação da guerra suja contra a ilha. O apoio da administração foi de tal magnitude que abriu caminho no Congresso para os descendentes da burguesia e das famílias batistianas. Foi a FNCA que promoveu a inclusão de Cuba na lista de países que patrocinam o terrorismo e exerceu pressão para encerrar a Secção de Interesses em Havana, acção que não prosperou porque implicava a retirada da estação local da CIA.
Com a criação, em 1983, da National Endowment for Democracy (NED), os programas de subversão política e de apoio financeiro aos processos de mudança de regime passaram a estar sob a sua alçada. O seu carácter público permitiu-lhe contornar o estigma da CIA, que, em matéria de influência, se centrou no recrutamento seletivo de líderes e personalidades estrangeiras. Só nos primeiros dez anos, a NED distribuiu mais de duzentos milhões de dólares na América Latina — uma parte, fornecida a partir de Langley sem supervisão do Congresso.
Esta mudança conceptual conferiu maior protagonismo à USAID, que, juntamente com a NED, passou a encarregar-se de encobrir as operações de influência. Os beneficiários dos fundos norte-americanos já não precisariam de disfarces…
Uma Revolução só pode sobreviver se for capaz de se defender, sobretudo quando a sorte lhe reserva como vizinho um império que cobiça a sua nação para si. É possível que a CIA tenha chegado a pensar que Cuba estava repleta de traidores e que tinha o touro pelas cornas desde a abertura da Secção de Interesses em Havana. A bolha rebentou em 1987: a 6 de junho, um oficial dos serviços secretos cubanos que se encontrava em Praga atravessou a fronteira e apresentou-se como desertor na embaixada dos Estados Unidos em Viena.
Um porta-voz do Departamento de Estado informou, pouco depois, que ele tinha sido acolhido em Washington. O traidor prometeu revelar todos os esforços cubanos para preservar a segurança do seu Estado face à guerra implacável desencadeada por todas as administrações norte-americanas desde 1959. Obviamente, estava a gabar-se…
Uma operação mediática orquestrada por especialistas em desinformação teve como objectivo atribuir a Cuba os estigmas da CIA, e os grandes meios de comunicação social dos Estados Unidos colaboraram para impor essa narrativa.
A festa durou pouco: Fidel revelou-se um adversário imbatível na réplica e, a 7 de julho, Cuba publicou as provas reunidas das operações de espionagem e subversão contra Cuba entre 1980 e 1987. Foram revelados 27 casos de revolucionários recrutados por agentes da CIA sob cobertura diplomática, que receberam equipamentos de comunicação «Agente-Centro Principal» — ou seja, com Langley. Entre os pedidos de informação, não houve um único sobre se Cuba estaria a planear algo que ameaçasse a segurança nacional dos Estados Unidos.
As questões eram outras, destinadas a criar condições para assassinar Fidel e prejudicar a economia cubana, com a introdução de pragas que devastassem o tabaco e os citrinos: recolheram amostras para estudar nos laboratórios da CIA quais dos microrganismos naturais — dependendo do tipo de pesticidas que estavam a ser utilizados em Cuba — seriam os mais adequados para reactivar a sua virulência e reintroduzi-los. A grosseira ingerência ianque foi desmascarada, bem como os perigos que acarretavam operações nas quais participaram 89 oficiais que trabalharam na Secção de Interesses ou a utilizaram como cobertura para a espionagem.
A queda do Muro de Berlim em 1989 e a deterioração do clima político na URSS, que culminou na sua desintegração, trouxe-lhes novas esperanças; sobretudo quando uma avaliação dos serviços secretos datada de 10 de setembro de 1991 — dois meses e meio antes da intervenção televisiva de Gorbachev que pôs fim à «República das repúblicas» — previu que, após o colapso soviético, cairia o «comunismo cubano». Sem guerra em África, sem movimentos guerrilheiros a apoiar e sem socialismo europeu, as desculpas tinham-se esgotado e o novo pretexto invocado para dar sustento moral à política anticubana foi a necessidade de garantir uma «transição democrática». Como o fariam?
A 23 de outubro de 1992 — duas semanas antes das eleições presidenciais e numa clara manobra eleitoral para atrair os votos da Flórida — George H. W. Bush promulgou a Lei Torricelli, que impediu as filiais norte-americanas em países terceiros de continuarem a comercializar com Cuba —700 milhões de dólares em alimentos e medicamentos— e proibiu, durante 180 dias, a entrada de navios que passassem pela ilha com fins comerciais. Nasceu o «risco Cuba», que na altura implicava sobretaxas de até 22 por cento sobre as taxas de juro e os preços do mercado mundial.
Quatro anos depois, ficaram tão surpreendidos com a reacção de um povo que não desmoronou como um castelo de cartas — tal como tinham previsto —, que, a 1 de março de 1996, o Congresso aprovou a Lei Helms-Burton e William Clinton a promulgou a 13. Para além do seu carácter extraterritorial, esta lei federal confere aos Estados Unidos o poder de decidir sobre a ordem política em Cuba e ao seu presidente a tarefa de certificar se existe ou não um Governo «democrático» na ilha. Um pormenor: uma vez deposto o Governo Revolucionário, nomeariam um procônsul para conduzir a destruição de todo o sistema institucional consagrado pelo povo cubano na sua Constituição; e garantiriam a devolução aos cidadãos norte-americanos das propriedades nacionalizadas a partir de 1 de janeiro de 1959.
Só então o procônsul poderia certificar o cumprimento das exigências dos ianques, e o Congresso federal reserva-se o direito de revogar ou não todo o sistema que foi construído ao longo de décadas para sufocar a Revolução.
Desde então, em Langley têm-se empenhado arduamente em fornecer informações que permitam rastrear a mais ínfima operação comercial e financeira de Cuba em qualquer canto do planeta; mas não se limitaram a isso e continuaram as operações secretas — incluindo novos planos para assassinar Fidel —, por vezes de forma directa; outras, através da entidade criada para não terem de recorrer ao manido princípio da «negação plausível»: a FNCA, que em 1992 constituiu o seu braço paramilitar com veteranos da base JM/Wave.
Em 1996, a FNCA destinou fundos para criar uma rede terrorista com o objectivo de colocar bombas em hotéis de Cuba. A tarefa de recrutar os assassinos na Guatemala e em El Salvador caberia a: Luis Posada Carriles, ex-agente da CIA e autor, juntamente com Orlando Boch, do sabotagem de um avião da companhia aérea civil cubana a 6 de outubro de 1976, que resultou na morte de 73 homens, mulheres e crianças.
Entre 12 de abril e 4 de setembro de 1997, ocorreram explosões em vários hotéis e instalações ligadas ao turismo em Cuba. No total, a rede preparou 14 engenhos explosivos: oito explodiram, quatro foram desactivados e dois foram apreendidos no momento em que eram introduzidos no aeroporto. A maioria dos autores foi detida ainda nesse mesmo ano. Faltava um, que foi detido a 10 de junho de 1998, data em que regressou a Havana com a missão de destruir a Praça da Revolução e o Memorial Ernesto Che Guevara, em Santa Clara.
Várias pessoas ficaram feridas e houve uma vítima mortal em resultado da bomba que explodiu a 4 de setembro no hotel Copacabana: Fabio Di Celmo, um italiano de 32 anos. Nesse dia, explodiram três bombas com intervalos inferiores a 30 minutos em três instalações situadas em Miramar, um bairro residencial onde se concentram a maior parte das representações diplomáticas estrangeiras. Na manhã seguinte, um porta-voz do Departamento de Estado rejeitou o uso da violência como forma de expressão de oposição política e garantiu que os Estados Unidos não tinham informações sobre quem poderiam ser os responsáveis pelas explosões.
Não era difícil encontrá-la, bastava perguntar à CIA ou ao FBI. Também não era necessário investigar tanto, porque, no auge da impunidade, esta prole de bandidos assumiu a responsabilidade por inúmeros atentados bombistas perpetrados em Cuba, Miami, Nova Iorque, Venezuela, Panamá, Porto Rico, México e Argentina, entre tantos outros locais. O próprio Posada confessou, em julho de 1998, ao New York Times o seu papel de destaque nos acontecimentos de 1997 em Havana e Varadero. Quando lhe perguntaram se não sentia remorsos pela morte de Di Celmo, respondeu: «… aquele italiano estava sentado no lugar errado, na altura errada. Tenho a consciência tranquila, durmo como um bebé» (Méndez, 2017: 8).
Posada e Boch circularam impunemente por Miami até ao dia da sua morte. Contrariando o parecer do Departamento de Justiça e do procurador responsável pelo processo de admissão nos Estados Unidos, Boch foi perdoado em 1989 pelo presidente George H. W. Bush, que era director da CIA na altura do crime em Barbados.
Não há qualquer possibilidade de a CIA invocar o princípio da «negação plausível» no que diz respeito a Cuba. Documentos desclassificados na última década revelam — apesar das rasuras — que em Langley sempre estiveram a par das actividades dos terroristas de Miami; na verdade, vários deles prestaram consultoria, a pedido da CIA, aos serviços secretos sul-americanos na Operação Condor. O próprio Bush recomendou, em 1976, ao coronel Manuel Contreras, chefe dos serviços secretos pinochetistas, que estudasse a experiência transmitida por Posada à DISIP na Venezuela.
Quando, a 31 de maio de 1999, foi apresentada a «Queixa do Povo de Cuba ao Governo dos Estados Unidos por danos humanos», estavam registados 3 498 cubanos falecidos e 2 099 incapacitados em consequência das operações orquestradas pela CIA ou pelos terroristas que controlam o enclave de Miami, protegidos pelo seu silêncio cúmplice, o que, neste caso, dá no mesmo.
Bibliografia:
Bouchey, L. Francis, Roger W. Fontaine, David C. Jordan, Gordom Sumner e Lewis Tambs: «As relações interamericanas: escudo da segurança do Novo Mundo e espada da projeção do poder global dos Estados Unidos», em Cuadernos semestrales. Estados Unidos. Perspectiva latino-americana (México), n.º 9, janeiro-junho de 1981.
Dugger, Ronnie (1983): Sobre Reagan: O Homem e a Sua Presidência. Nova Iorque: McGraw-Hill Book Company.
Haig, Jr., Alexander M. e Carlos Rafael Rodríguez: «Transcrição da conversa entre o vice-presidente do Conselho de Estado da República de Cuba, Carlos Rafael Rodríguez, e o secretário de Estado dos Estados Unidos, Alexander Haig», Cidade do México, 23 de novembro de 1981. Fonte: TsKhSD, f. 5, op. 84, d. 584, ll. 1-27; (tradução de Bruce McDonald); Projeto Carter-Brezhnev, Arquivo de Segurança Nacional.
Leonov, Nicolai S. (2015): Raúl Castro: um homem na revolução, Havana, Editorial Capitán San Luis.
Méndez Méndez, José Luis: «20 anos após uma escalada terrorista», Granma (Havana), segunda-feira, 4 de setembro de 2017, n.º 210 • Ano 53, Edição Única.
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Ernesto Limia | Historiador e escritor cubano
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