
Eleições fraudadas
Nos últimos tempos, o império já manipulou quatro eleições na América Latina: uma durante a administração Biden e três durante a de Trump. Mas isto não é algo invulgar na história das relações entre os Estados Unidos e os nossos países.
Os casos mais notórios do passado foram os da eleição presidencial mexicana de 1988, quando Cuauhtémoc Cárdenas foi privado da sua vitória para favorecer o candidato dos Estados Unidos e das classes dominantes, Carlos Salinas de Gortari. Esta eleição marcou o início da era das fraudes informáticas na região, ainda muito primitivas em comparação com o que a Palantir é hoje capaz de fazer de forma muito sofisticada.
Naquela época, recorria-se a um «apagão informático» orquestrado que, mais tarde, quando os computadores do Instituto Nacional Eleitoral eram reiniciados, dava origem ao milagre que alterava radicalmente os números atribuídos aos principais candidatos até ao momento do apagão.
Mas há mais: em 2000, Alberto Fujimori venceu as eleições através de uma manipulação flagrante dos votos e das actas. A manobra foi tão descarada que até a OEA retirou a sua missão de observação para manifestar o seu protesto. Meses depois, Fujimori seria destituído do cargo.
Outro caso ainda mais escandaloso foi o das eleições presidenciais de 2017 nas Honduras, que permitiram a reeleição de Juan Orlando Hernández graças a uma «falha informática» semelhante à que tinha possibilitado a vitória de Salinas de Gortari no México.
Não é um pormenor insignificante recordar que, anos mais tarde, JOH seria detido pelas autoridades norte-americanas, julgado nos seus tribunais e, em 2024, condenado a 45 anos de prisão por ter sido considerado culpado de ter introduzido várias centenas de toneladas de cocaína naquele país, enquanto era presidente das Honduras e, ao mesmo tempo, chefe de um cartel de droga.
Confirmando mais uma vez a «seriedade» da luta do governo dos Estados Unidos contra o tráfico de droga, JOH beneficiou de um indulto decretado por Donald Trump em novembro de 2025 e desfruta agora da mais absoluta liberdade para prosseguir com as suas actividades criminosas.
Um rápido olhar para a actualidade demonstra a renovada vigência desse costume de fraudar eleições nos nossos países:
1. Equador, abril de 2025. O império e a direita equatoriana erguem todo o tipo de obstáculos para impedir a eleição de Luisa González, candidata da Revolução Cidadã. Instaurou-se um clima de violência e desencadeou-se uma campanha feroz na imprensa destinada a desacreditar a figura de González, além de se ter praticado uma manipulação impune da contagem de votos com a cumplicidade aberta do Conselho Nacional Eleitoral. Assim, saiu vitorioso o multimilionário Daniel Noboa, cidadão norte-americano nascido em Miami, de quem se diz ser o maior exportador de cocaína deste continente com a sua frota de navios bananeiros. Para a OEA, tudo bem.
2. Honduras, 2025. A candidata Rixi Moncada, do partido governista Libre, viu as suas hipóteses eleitorais desmoronarem-se quando Washington deu a entender que estava a considerar rever a política de envio livre de remessas para as Honduras, caso Moncada vencesse as eleições. Essas remessas são um recurso vital para as famílias hondurenhas: o país recebe cerca de 12 mil milhões de dólares por ano, um alívio fundamental para os mais necessitados. A mera divulgação da notícia provocou uma fuga maciça de votos que reduziu o cenário eleitoral a uma batalha entre duas vertentes da direita: Salvador Nasralla, do Partido Liberal, e Nasry Asfura, candidato do Partido Nacional de Juan O. Hernández. Trump declarou em várias ocasiões que o seu candidato era Asfura, que acabou por se impor nas eleições com pouco mais de 40 por cento dos votos.
3. Peru, junho de 2026, segunda volta das eleições. A escolhida pelo império foi Keiko Fujimori, a quem o próprio Mario Vargas Llosa não poupara insultos devido à sua comprovada imoralidade e cumplicidade em inúmeros actos de corrupção. Roberto Sánchez, representante de um amplo sector da esquerda e do progressismo, foi derrotado por Fujimori numa contagem de votos vergonhosa no segundo turno eleitoral. Fujimori venceu por uma diferença mínima de 49 641 votos, num total de pouco mais de 18 milhões de eleitores. Perante graves denúncias de anomalias no decorrer da votação e nas actas correspondentes, a lei permite a impugnação de mesas suspeitas. É claro que, para o fazer com as 1 751 mesas que apresentavam anomalias graves, era necessário pagar 1 375 soles por cada uma, o que totalizava 715 mil dólares que tinham de ser depositados no prazo de 72 horas após o término da votação. Missão impossível, recontagem nula e novo roubo do império.
4. Colômbia, 2026. As recentes eleições colombianas proclamaram como vencedor uma figura nefasta como Abelardo De la Espriella. Para tal, recorreu-se a uma fraude informática de grande envergadura que introduziu uma inovação preocupante no domínio dos crimes eleitorais. O presidente Gustavo Petro denunciou a existência de um centro de dados clandestino, sediado nos EUA, a partir do qual se monitorizava e alterava a contagem dos votos. Diz-se que esse local concentrou a sua intervenção em pouco mais de cinco mil mesas de votação, criadas exclusivamente para a segunda volta. Nessas mesas, De la Espriella obteve um total de votos desproporcionalmente superior ao dos demais candidatos. Esta anomalia flagrante, que sistematicamente atribuía uma maioria esmagadora ao candidato do império — ele próprio, tal como o seu vizinho Noboa, cidadão norte-americano —, permitiu-lhe impor-se na contagem final com cerca de 250 mil votos de vantagem sobre Iván Cepeda, num cadastro eleitoral de quase 25 milhões de eleitores. Apesar das denúncias do presidente Petro, todo o aparelho judicial colombiano — e não apenas a justiça eleitoral, dominada pelo uribismo — rejeitou por completo a acusação presidencial.
5. Brasil, 2026. Agora, agora estão de olho no Lula. É extremamente importante manter a máxima vigilância para impedir todo o tipo de fraudes, sejam elas electrónicas ou as mais tradicionais. Tenha-se em conta que, se a eleição for roubada ao Lula, Trump terá as mãos livres para, usando uma metáfora do xadrez, tentar dar xeque-mate à rainha, Claudia Sheinbaum, assediada incessantemente pelo louco laranja. E quem se segue nesta fila é a eleição presidencial da Argentina em 2027.
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Atilio Alberto Borón | (Buenos Aires, 1 de julho de 1943) é um politólogo e sociólogo argentino, doutorado em Ciência Política pela Universidade de Harvard. Atualmente, é diretor do Centro de Complementação Curricular da Faculdade de Humanidades e Artes da Universidade Nacional de Avellaneda. É também professor consultor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires e investigador do IEALC, o Instituto de Estudos da América Latina e das Caraíbas. Recentemente, reformou-se do cargo de Investigador Sénior do CONICET (Conselho Nacional de Investigação Científica e Técnica). Foi vice-reitor da Universidade de Buenos Aires (1990-1994) e secretário executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO) entre 1997 e 2006. É diretor do PLED, Programa Latino-Americano de Educação à Distância em Ciências Sociais do Centro Cultural de Cooperação Floreal Gorini. É Doutor Honoris Causa pelas universidades nacionais de Cuyo, Salta, Córdoba e Misiones, na Argentina; pela Universidade Nacional Experimental Rafael María Baralt de Cabimas (Zulia, Venezuela); recebeu o Prémio Internacional José Martí da UNESCO (2009) e do Prémio Honorífico de Ensaio Ezequiel Martínez Estrada da Casa das Américas (Havana, Cuba), do ano de 2004.
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