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O que se esconde por trás do ultimato de Trump sobre a Gronelândia e que problema isso cria para a OTAN

A Aliança corre um grande risco de acabar como quase todas as grandes instituições criadas na segunda metade do século XX, afirma Fiódor Lukiánov, editor-chefe da revista Russia in Global Affairs.

Donald Trump lançou aos países europeus um ultimato decisivo em relação à Groenlândia: ou não se opõem à sua adesão aos EUA ou enfrentarão o poder de tarifas comerciais adicionais, escreve Fiódor Lukiánov, editor-chefe da revista Russia in Global Affairs, num artigo para o Kommersant.

Não se trata do primeiro nem certamente do último ultimato do presidente norte-americano. «Ultimamente, ele lançou vários contra a Rússia, muitos dos quais foram discretamente esquecidos. Nesse sentido, a velha piada encaixa perfeitamente: Trump é um homem de palavra. Ele dá a sua palavra e depois volta atrás», observa o especialista.

No entanto, agora a situação parece ser diferente. Trump não só sente uma forte irritação em relação aos países da Europa Ocidental, como também considera que a União Europeia «deve tudo a Washington» e é incapaz de «conseguir nada de sério sem o patrocínio dos Estados Unidos», salienta.

Porquê a Gronelândia?

Mas por que a Gronelândia atrai tanto Trump, a ponto de se tornar o principal ponto de interesse de Washington? Primeiro, «a vaidade», explica Lukiánov. De acordo com o especialista, Trump «quer passar para a história como o presidente que transformou os Estados Unidos no segundo maior país do mundo em termos de território».

Por outro lado, ele está plenamente consciente do alto valor estratégico da ilha, tendo em conta as riquezas e as oportunidades de concorrência que o Ártico oferece. «Em princípio, Washington pode obter o que quiser do governo dinamarquês, basta pedir», indica. Mas Trump não pensa como um diplomata. O seu instinto assemelha-se ao de um «promotor imobiliário»: é mais seguro ser proprietário do que alugar, salienta Lukiánov.

Por último, o desejo de Trump de manter as potências europeias fora do hemisfério ocidental também desempenha um papel importante. O facto de a Gronelândia, localizada a milhares de quilómetros de Copenhaga, permanecer sob a soberania dinamarquesa não se encaixa no seu modelo de mundo.

O que isso representa para a OTAN?

As ideias e acções de Trump não podem passar despercebidas pela OTAN, o que obriga a Aliança a tomar decisões que podem estar fora do seu alcance. «A simples ideia de que a OTAN possa um dia deixar de existir é assustadora», destaca o especialista. No entanto, essa ideia não é irreal, tendo em conta que «historicamente não houve um “Ocidente político” unificado até à segunda metade do século passado». «Surgiu em condições que já não existem da mesma forma», recorda.

O desaparecimento da OTAN não tem de ocorrer amanhã, uma vez que a ideia de que a Aliança é desnecessária não é predominante nos EUA, além de que a Europa Ocidental seria incapaz de criar rapidamente um organismo que a substituísse, e ainda mais sem o apoio dos EUA. «É provável que a OTAN perdure, simplesmente porque as grandes instituições possuem impulso e inércia. Mas se todas as instituições da segunda metade do século XX estão em profunda crise devido a uma mudança qualitativa da situação, por que razão deveria a OTAN ser a excepção?», conclui Lukiánov.

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