
Cuba não pode servir de substituto para os EUA na guerra com o Irão
A ilha não vai deixar que a usem, e os seus líderes estão a alertar o mundo, em particular o povo norte-americano, para o desígnio maquiavélico do seu presidente e dos seus acólitos: mantê-lo distraído e stressado, afastado do caso Epstein e das muitas fealdades que pesam sobre ele.
Com a derrota da vitória inventada no Irão, Cuba não pode ser a roda sobressalente de Trump para o furo no terreno espinhoso iraniano que paralisou a sua geoestratégia na Ásia Ocidental. Está comprovado que ele precisa de acções bem fortes que ocupem as mentes dos seus compatriotas e enterrem os seus crimes e mesquinharias que, mais cedo ou mais tarde, o levarão para atrás das grades de uma prisão de alta segurança.
A ilha não vai permitir que seja utilizada nesse sentido e os seus líderes estão a alertar o mundo, em particular o povo norte-americano, para o desígnio maquiavélico do seu presidente e dos seus acólitos, que pretendem mantê-lo distraído e sob pressão, afastado do caso Epstein, das suas fraudes fiscais e de inúmeros outros crimes, para que não prospere um processo de impeachment, nem haja eleições intercalares que lhe sejam desfavoráveis e ele saia da Casa Branca como uma bola por um buraco
Não seria justo que o povo dos Estados Unidos permitisse essa intenção perversa de Trump de utilizar, para a sua política interna, cenários tão terríveis como o de Gaza, ou, no caso de Cuba, o roteiro aplicado na Venezuela, que os cubanos não permitirão, pois não haverá passividade nem medo para o enfrentar.
Trump é obrigado a reconhecer a sua derrota estratégica no Irão e a aceitar que é um criminoso de guerra, cínico e maléfico, e, ao mesmo tempo, um mercenário do sionismo, não por obrigação, mas por convicção ideológica e de classe. Mas perdeu perante uma civilização ancestral. Não há volta a dar, e esse erro de cálculo dos EUA e de Israel não pode ser pago por Cuba, além do mais, porque não faz sentido e não lhe trará nada de bom.
Este senhor republicano, presunçoso e mentiroso, sabe que o seu principal problema não é enganar os seus compatriotas, mas sim que o fracasso no Irão é apenas a ponta do iceberg de um problema maior com a China, a Rússia e a Europa.
O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI) acabou de lhe dizer isso há 24 horas, exortando-o a escolher entre uma operação militar impossível ou um mau acordo com a República Islâmica do Irão, e lembrando-lhe que a margem para a tomada de decisões se reduziu. Mais claro, nem a água.
O mais traumático para ele é que, pelo menos neste momento, não pode contar com a arma nuclear e tudo tem de ser resolvido pela via militar convencional. É a isso que responde a nova oportunidade que o CGRI lhe serviu numa bandeja de prata, com a sua proposta de 14 pontos que, nas suas condições, constituiria uma saída com algum dignidade.
Como ele gostava de dizer antes — já há algum tempo que não o diz — esse é sim um verdadeiro ultimato iraniano num contexto global sobre o qual ele deveria reflectir mais, pois ocorre no âmbito de um bloqueio naval ao Golfo, que poderia ser o destino final desses navios encalhados ali antes de serem afundados, a mudança de tom da China, da Rússia e da Europa contra a Casa Branca, e a sua manobra com a carta ao Congresso a anunciar que a guerra tinha terminado.
Porquê Cuba? Que sentido militar, económico ou estratégico tem uma agressão belicosa e criminosa, se, politicamente, tudo isso só trará prejuízos para o seu governo e para o seu partido? Será um desafio à China e à Rússia, cujos líderes lhe disseram discretamente, para que nem sequer se soubesse, para que deixasse os cubanos em paz? Isso seria deixar de brincar com a corrente e aproximar demasiado a mão das mandíbulas do animal.
Está em curso uma negociação discreta de importância vital, numa época de mudanças tão radicais, entre Trump, Xi Jinping e Putin, e é disso que depende que o mundo se organize ou se desorganize ainda mais do que já está, aumentando o risco de desaparecimento total do homo sapiens.
Portanto, Cuba não tem qualquer importância para a situação geral em que se encontram os Estados Unidos, para além do ódio visceral e do egocentrismo que dominam os sentimentos de Trump, e é aí que a animosidade pode tornar-se letal.
O que está em jogo não é se Cuba é socialista ou não, se se alia à China e à Rússia ou aos Estados Unidos e à Europa. Trata-se da reestruturação do sistema global já em curso, que não pode ser travada nem revertida pela força militar ou diplomática, pois é um processo dialético no qual o homem apenas pode atrasá-lo e complicá-lo, nada mais.
Nesse sentido, o que devemos observar e ter constantemente em conta são os pontos de viragem nessa reconstrução da nossa casa comum, e não os devemos encarar como resultados de vitórias e derrotas, mas sim como uma vigilância sobre o seu desenvolvimento, para que não haja imprudências que alterem as delicadas relações entre as potências, do cujo equilíbrio todos dependemos.
Se a racionalidade prevalecer, certamente sobreviveremos. A grande dúvida que nos deixa nervosos é que a irracionalidade anda à solta, como um elefante a «trombar» até de madrugada, e o Congresso dos Estados Unidos, em vez de fechar as portas da loja de vidros para que ela não entre, abriu-as de par em par.
Luis Manuel Arce Isaac | Jornalista cubano
Fonte:

