Concordo com as medidas.
Não porque venham agora impostas de cima, nem porque eu tenha tido alguma epifania, ou porque ache que devessem ter sido aplicadas desde antes. A única razão válida é que são o resultado de um consenso que passou, primeiro, pela discussão das orientações e, depois, pela aprovação da Constituição. Ambas há bastante tempo. Demasiado.
Actualmente, está a decorrer um debate que lembra os debates relactivos à NEP. E embora partilhe as preocupações manifestadas por alguns colegas da esquerda, a quem, aliás, respeito, não creio que estas nos conduzam necessariamente a um modelo neoliberal, ou sequer a um capitalismo «light», se fizermos as coisas como deve ser.
A dialética e a história mostram-nos que não se verifica uma transição para um estádio superior sem uma coexistência com elementos do passado. Ainda hoje, depois de ter ressuscitado a escravatura para a sua acumulação primária, o capitalismo coexiste em perfeita harmonia com os resquícios do feudalismo. Não podemos esperar que esta pequena ilha, cercada e sem recursos, arraste o planeta para aquele «futuro luminoso» que a URSS se propôs alcançar, sem o conseguir, apesar dos seus recursos e do seu desenvolvimento.
A construção do socialismo requer um Estado economicamente forte, e a única forma de o conseguir é pôr o país a produzir. Produzir, hoje, é trabalhar pelo socialismo, seja quem for que o faça. Um Estado socialista que — por quaisquer que sejam as razões — tenha perdido a capacidade de garantir à sua população nem sequer aqueles famosos cinco produtos, não poderá ser o mediador da economia se não houver produção. Não se pode distribuir, nem implementar políticas sociais, com o que não existe.
O previsível agravamento das diferenças sociais representará um enorme desafio. Qualquer esquema de corrupção gerado no âmbito do sistema de atribuição de recursos e centralização que bem conhecemos poderá parecer insignificante perante a abundância de recursos financeiros de que dispõem alguns poucos, nas novas condições. A tendência para o egoísmo entrará certamente em contradição com os valores de solidariedade que considerávamos sagrados. Iremos, inevitavelmente, assemelhar-nos um pouco mais a um contexto geográfico em que prevalecem fenómenos que, por princípio, rejeitamos.
Onde está a chave? Na minha opinião, na forma de fazer política.
As medidas económicas que, por necessidade, tomamos arrastar-nos-iam espontaneamente se não fossem acompanhadas por uma reformulação igualmente profunda na política. A burocratização, o formalismo, o exagero, o sociolismo, a burocracia, a hipocrisia, a opacidade, a inventividade ou a complacência não seriam bons ingredientes na fórmula política que estas mudanças na economia exigem como contrapeso.
É no município e na sua relação com o tecido empresarial que se definirá o sucesso ou o fracasso destas mudanças no modelo. Uma empresa com autonomia real, gerida pelos seus trabalhadores, com uma direcção colectiva transparente e uma relação bem definida com o povo, seu proprietário; e não um feudo nas mãos dos seus dirigentes, com uma gestão opaca, fonte de corrupção, onde «resolver» seja a palavra de ordem.
Entidades não estatais, integradas de forma harmoniosa na economia do país, num quadro jurídico que lhes garanta igualdade de condições, todas empenhadas na resolução dos problemas do seu entorno e complementando-se mutuamente. Todas elas, sem exceção, com as suas contas em dia perante a sociedade.
Mas, acima de tudo, um território que retenha os recursos exigidos pelas suas novas competências, com dirigentes capazes de os administrar bem e de forma pública e transparente, empenhados na resolução dos problemas e com poder real para os enfrentar; livres do clientelismo e eleitos por comunidades que vejam nessas estruturas e nos seus quadros o poder real do povo, e não meros intermediários de queixas sem solução.
E talvez uma lição. Uma sociedade aberta ao debate, em que nos escutemos uns aos outros, com respeito, deixando de lado os rótulos, tão simplistas e tão prejudiciais, em que não demore tanto tempo a chegar a um consenso perante um mundo tão complexo e tão mutável.
Que apenas aquele que nos agride se exclua a si próprio. Dentro da nação, tudo; contra a nação, nada.
Será que tudo isso é possível?
O desafio é enorme e só o tempo dirá, mas não nos resta outra opção senão tentar.
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Henry Omar Perez | Comunicador Membro da Asociación Cubana de Comunicadores Sociales, escreve para a ACN, Jornal Soy Villa Clara e para as páginas Cuba Soberana e Razones de Cuba.

