Cuba

Os dados como quinto factor de produção: a revolução digital que está a transformar Cuba

O governo cubano anuncia o reconhecimento dos dados como um recurso económico não renovável e gerador de riqueza, a criação de um polo tecnológico nacional, a aplicação da inteligência artificial na administração pública, a abertura ao sector privado no domínio das telecomunicações e a conceção de um sistema de remuneração competitivo para reter os profissionais digitais. Trata-se do maior pacote de transformações tecnológicas desde a Revolução.

Havana, 18 de junho de 2026 — «Um domínio de importância fundamental e que constitui, além disso, um dos pilares da gestão governamental é a transformação digital» . Com esta declaração, o primeiro-ministro Manuel Marrero Cruz introduziu o capítulo sobre transformação digital, inteligência artificial e economia do conhecimento no pacote de 176 reformas apresentadas à Assembleia Nacional. Não se trata de uma declaração retórica: as transformações anunciadas representam uma mudança de paradigma na concepção da economia cubana, reconhecendo os dados como o «quinto fator de produção» e apostando na inteligência artificial como ferramenta para modernizar o Estado e a economia.

Num contexto de crise e escassez de recursos, o governo cubano decidiu apostar na tecnologia como alavanca de desenvolvimento. As reformas incluem a criação de um polo tecnológico nacional, a aplicação da inteligência artificial na administração pública, a abertura do sector das telecomunicações ao sector privado, a concepção de um sistema de remuneração competitivo para reter os profissionais da área digital e o reconhecimento dos dados como um recurso económico não renovável e gerador de riqueza.


1. Os dados como quinto factor de produção

A transformação mais conceptual e, ao mesmo tempo, mais revolucionária é o reconhecimento do dado como o quinto factor de produção, a par da terra, do trabalho, do capital e do espírito empresarial.

Marrero explicou o alcance desta medida: «Isso implica que os dados sejam considerados um recurso económico não renovável e com capacidade para gerar riqueza» . Isto significa que o governo cubano reconhece que os dados, quando devidamente geridos e analisados, podem gerar valor económico e contribuir para o desenvolvimento do país.

Esta declaração tem implicações profundas:

  • Reconhecimento da economia digital: os dados são um activo económico que deve ser gerido, protegido e explorado.
  • Quadro regulamentar: estabelecerá as bases para a regulamentação da economia digital e a proteção de dados.
  • Investimento: abrirá as portas a investimentos em infraestruturas digitais e capacidades analíticas.

2. Nodo tecnológico nacional de software, hardware e IA

Propõe-se a criação de um nó nacional de tecnologia de software, hardware e inteligência artificial. Este nó seria um centro de excelência que concentraria capacidades tecnológicas, investigação e desenvolvimento, e formação de talentos.

O objectivo é posicionar Cuba como um interveniente relevante no desenvolvimento tecnológico regional, tirando partido do elevado nível de formação dos seus profissionais e da tradição nas ciências exatas e na tecnologia.


3. Quadro nacional de interoperabilidade e governação de dados

É estabelecido o quadro nacional de interoperabilidade obrigatória, governação de dados e base nacional para a inteligência artificial. Isto implica:

  • Interoperabilidade obrigatória: os sistemas de informação do Estado devem ser capazes de comunicar entre si, partilhando dados e evitando duplicações.
  • Governança de dados: serão estabelecidas normas claras sobre a forma como os dados são recolhidos, armazenados, tratados e utilizados no sector público.
  • Base nacional para a inteligência artificial: será criada uma infraestrutura de dados que permita o treino e a implementação de modelos de IA.

4. Inteligência artificial na administração pública

Propõe-se a utilização da inteligência artificial na administração pública com supervisão humana e equidade territorial. Isto significa que o governo cubano irá incorporar a inteligência artificial para:

  • Automatizar processos administrativos, reduzindo a burocracia.
  • Melhorar a tomada de decisões, através da análise de grandes volumes de dados.
  • Otimizar a afectação de recursos, identificando necessidades e prioridades.

Marrero salientou que a utilização da IA será «com supervisão humana e equidade territorial» , o que implica que as decisões automatizadas não substituirão o julgamento humano e que se garantirá que todos os territórios beneficiem destas tecnologias.


5. Sistema de remuneração competitivo para profissionais digitais

Um dos problemas mais prementes no sector tecnológico cubano é a fuga de talentos. As empresas estatais não conseguem competir em termos salariais com o sector privado (nacional ou internacional), o que tem levado à perda de profissionais altamente qualificados.

Para dar resposta a este problema, propõe-se a aplicação de um sistema de remuneração competitivo que incentive o impulso das exportações de serviços profissionais nas áreas das tecnologias digitais e da inteligência artificial.

Marrero reconheceu a situação: «Temos hoje excelentes profissionais, mesmo nas empresas estatais, mas os seus salários não estão em consonância com a média noutros sectores não estatais e, por isso, é preciso resolver esta questão» .

O sistema de remuneração competitivo tem como objectivo:

  • Reter os profissionais no sector público, oferecendo salários atrativos.
  • Incentivar a exportação de serviços digitais, gerando divisas.
  • Promover a inovação, criando um ambiente propício ao desenvolvimento tecnológico.

6. Abertura ao investimento estrangeiro em centros de dados

É permitido ao investimento estrangeiro ampliar as capacidades dos centros de dados. Além disso, é permitido ao sector privado prestar serviços de centros de dados que não alojem plataformas de gestão de infraestruturas críticas do país.

Isto significa que:

  • O sector privado poderá explorar centros de dados para serviços comerciais.
  • As infraestrcuturas críticas do Estado continuarão sob controlo estatal.
  • Abre-se um novo nicho de negócio para o investimento privado e estrangeiro.

7. Telecomunicações: abertura ao sector privado

É permitida a fabrico de equipamentos, bem como a instalação de redes móveis fixas, comercialização de serviços «triple play», centros de dados, serviços na nuvem, telefonia e centros de contacto.

Esta medida representa uma abertura significativa do sector das telecomunicações, que até agora era dominado pela empresa estatal ETECSA. É permitida a participação do sector privado em:

  • Fabrico de equipamentos de telecomunicações.
  • Instalação de redes móveis e fixas.
  • Comercialização de serviços «triple play» (Internet, televisão e telefonia).
  • Centros de dados e serviços na nuvem.
  • Centros de atendimento (call centers).

8. Plataforma digital para compras públicas

É criada uma plataforma digital que recorre à inteligência artificial para o sistema de compras públicas e os concursos públicos que garanta transparência e segurança.

Esta plataforma tem como objectivo:

  • Tornar o processo de contratação pública mais transparente, reduzindo a corrupção.
  • Agilizar os procedimentos, reduzindo os prazos.
  • Utilizar inteligência artificial para classificar bens, avaliar propostas e detetar irregularidades.

9. Gestão mista das infraestruturas postais e logísticas

É permitida a gestão mista das infraestruturas postais e logísticas de última milha. Isto significa que o setor privado poderá participar na prestação de serviços postais e logísticos, complementando a oferta estatal.


O que muda com a transformação digital

ÁreaMedida fundamentalImpacto
Fator de produçãoOs dados como quinto fatorReconhecimento da economia digital
Infraestrutura tecnológicaNodo nacional de software, hardware e IACentro de excelência tecnológica
Administração públicaIA com supervisão humanaAutomatização e eficiência
RemuneraçãoSistema competitivo para profissionaisRetenção de talentos
Centros de dadosAbertura ao investimento estrangeiroAumento das capacidades
TelecomunicaçõesAbertura ao sector privadoConcorrência e melhoria dos serviços
Contratação públicaPlataforma digital com IATransparência e eficiência
Serviços postaisGestão mistaMelhoria do serviço

Os desafios: infraestruturas, talento e fosso digital

As transformações digitais apresentam desafios significativos:

  • Infraestrutura: a conectividade à Internet em Cuba continua a ser limitada e dispendiosa. São necessários investimentos significativos.
  • Talento: a fuga de talentos é um problema real. O sistema de remuneração competitivo deverá ser eficaz.
  • Fosso digital: a adopção de tecnologias não é homogénea. É necessário garantir que todos os territórios beneficiem dessa adopção.
  • Regulamentação: a protecção de dados e a privacidade são questões que devem ser devidamente regulamentadas.

Conclusão: um novo paradigma para a economia cubana

As transformações nas áreas da transformação digital, da inteligência artificial e da economia do conhecimento apresentadas por Marrero Cruz representam uma mudança de paradigma na estratégia de desenvolvimento cubana. O governo compreendeu que o futuro da economia passa pela tecnologia e que Cuba deve tirar partido do seu capital humano altamente qualificado para se posicionar na economia digital global.

O reconhecimento dos dados como o quinto factor de produção, a criação de um polo tecnológico nacional, a aplicação da inteligência artificial na administração pública, a abertura ao sector privado no domínio das telecomunicações e a conceção de um sistema de remuneração competitivo são elementos de um novo modelo que visa tornar Cuba num interveniente relevante na economia digital.

O desafio consiste em conciliar esta aposta tecnológica com as limitações de infraestruturas, a fuga de talentos e o fosso digital.

Como o próprio Marrero resumiu: «Um domínio de importância fundamental e que é, além disso, um dos pilares da gestão governamental é a transformação digital» .

O tempo dirá se esta aposta na tecnologia será capaz de transformar a economia cubana e melhorar a qualidade de vida da sua população.


O que achas desta revolução digital em Cuba? Deixa o teu comentário e partilha este artigo para te manteres informado sobre as transformações que o país está a viver.


Este artigo baseia-se no discurso do primeiro-ministro Manuel Marrero Cruz perante a Assembleia Nacional do Poder Popular, em 18 de junho de 2026, e nas propostas de transformações económicas e sociais apresentadas na Terceira Sessão Extraordinária da X Legislatura.

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Fonte:

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