
A necessidade de refletir sobre Chávez
Hugo Chávez convoca-nos mais uma vez a travar a batalha. Pela Venezuela comunitária, pelo regresso urgente de Nicolás e Cilia, pela expulsão do território bolivariano dos ianques, dos sionistas e dos seus cúmplices locais.
Intransigente e ousado na tomada de decisões, sobretudo aquelas relacionadas com os interesses da sua querida Venezuela. Apaixonado e entusiasta na defesa dos mais humildes, a quem dedicou todos e cada um dos dias do seu mandato. Defensor da unidade para, todos juntos, enfrentarmos o Império, algo que demonstrou não só na política interna, mas também na doutrina que estabeleceu a nível da América Latina e do mundo. Inteligente e com os pés bem assentes na terra quando se tratava de abrir as portas ao debate — mesmo com os seus inimigos mais ferozes — e na hora de formular ideias que permitissem aproximar posições que se encontravam nos antípodas. Trata-se de Hugo Chávez, de quem sentimos tanta saudade.
Forjador das armas mais poderosas para enfrentar os ataques dos diversos líderes norte-americanos (seja Bush, Obama, Biden ou, neste momento, Trump), aquelas que não se carregam com balas, mas com o desenvolvimento de uma consciência sólida e vital, extraída da história de luta dos nossos povos. Só ele, e mais ninguém além dele, teve a lucidez para perceber que tinha chegado a hora de conduzir o continente rumo à Segunda Independência que tanto nos foi negada, e que ainda continua a ser uma tarefa pendente. Resgatador dos nossos próceres e heróis, a quem retirou do mármore ou do bronze e transformou em figuras de actualidade inusitada. Bolívar, San Martín, Sucre, Manuelita Sáenz, O’Higgins, Guacaipuro, Túpac Amaru, Simón Rodríguez, Sandino, Evita Perón e, claro, o Che Guevara. Com eles na mochila, convocou a resgate da Pátria Grande das mãos transformadas em garras do Norte brutal. Denunciou o enxofre derramado por Bush no pódio da ONU e deu-lhe um pontapé soberano naqueles dias gloriosos em que a ALCA foi demolida por ele e por um grupo de presidentes que o apoiaram. Estamos a falar de Chávez. De quem mais, senão dele?
Pensando nas crianças, nos idosos e nas idosas, nos condenados da terra (este Comandante feminista e antipatriarcal introduziu a linguagem de género na política, como ninguém o tinha feito antes), deu força às Missões e tornou-as indispensáveis no desenvolvimento da sua gestão. Contornou as burocracias ministeriais e, como se fosse um coelho que o mágico tira da cartola, ofereceu ao seu povo a possibilidade de se alfabetizar plenamente, de obter cuidados médicos gratuitos com a Missão Milagre, de mãos dadas com a solidária Cuba. Permitiu que os mais pobres tivessem acesso, pela primeira vez em décadas (ou em séculos), às universidades. As Missões tornaram-se um rio caudaloso e uma bandeira de mobilização das grandes maiorias: habitação para todos e todas, o Mercal alimentar para romper com as cadeias da intermediação, a Missão Música, o Banco da Mulher, a prática desportiva nos bairros, a Missão Ciência, ou a Che Guevara (de formação socialista), a Missão Negra Hipólita, ou a das Mães do Bairro. Os dias do ano não seriam suficientes para as enumerar, e a todas elas o Comandante imprimiu o seu impulso pessoal, a sua sabedoria e as suas horas sem dormir para que se tornassem realidade. A Chávez Frías, o neto de Maisanta, guerrilheiro intrépido, recordamo-lo nestas linhas sucintas e insuficientes.
Filho proclamado de Fidel, juntos formaram um furacão que percorreu o continente, espalhando ideias, força, sabedoria e aquela forma particular de recriar a política sem especulações de qualquer tipo. Ao som dessa dupla nasceu a ALBA, dotando a América Latina e as Caraíbas de uma ferramenta eficaz para se imbuírem de solidariedade, ombro a ombro. Mas não só isso: soube também mostrar ao mundo que era possível falar com os gringos de igual para igual, sem hesitações nem submissões, como vinha a acontecer até que as nações afro-indo-americanas recuperassem a sua autoestima e se pusessem em marcha. Essa foi a sua primeira proeza, mas depois foi mais longe e ajudou (com uma paciência inestimável) a construir a CELAC e a UNASUR, reunindo todos — da direita à esquerda —, mas sem a tutela norte-americana que lhes ditasse o guião. Chávez fez isso, e o seu caminho foi seguido por outros como ele, nascidos das lutas na Bolívia, na Nicarágua, no Equador e em tantos outros lugares.
Impecável quando se trata de falar ao povo com a verdade. Amaldiçoando a tutela norte-americana («Vão-se para o c…, ianques de m…», ou afastando os diplomatas sionistas genocidas, agressores da Palestina ocupada («Seja amaldiçoado, Estado sionista de “Israel”»). Esses mesmos, os de Washington e «Tel Aviv», que hoje, surpreendentemente, acorrem à Caracas bombardeada, com o seu presidente e companheira sequestrados e com o petróleo saqueado. E fingem ser «humanitários» e remoedores de escombros, quando são os mesmos que transformaram Gaza num cemitério fumegante de crianças, mulheres e homens palestinianos.
Com uma linguagem didáctica, Chávez foi explicando ao seu próprio povo que era preciso manter-se alerta contra os golpistas de dentro e de fora. Abordou o assunto, recordando a sua própria experiência naquele fatídico ano de 2002, com o massacre de Puente Llaguno, o seu sequestro em La Orchila, o resgate por parte daqueles que desceram das montanhas para lhe demonstrar o seu amor e lealdade, o golpe petrolífero e a sua própria decisão de se radicalizar ao máximo para não dar a outra face aos seus inimigos. Em verdadeiras assembleias populares que reuniram quase dois milhões de pessoas, soube dar as orientações precisas para que as milícias começassem a ocupar um espaço necessário, mas também valorizou o papel meritório que, no processo revolucionário, foram desempenhando as Forças Armadas, que, sob o seu comando, lutaram lado a lado com os bolivarianos comuns. Hugo Chávez tem sido o motor fundamental de tais feitos.
Agora que o seu legado foi acolhido por milhões de pessoas em todo o mundo, e que o seu companheiro de tantas lutas, Nicolás Maduro, se tornou prisioneiro de guerra de um inimigo que fará tudo o que estiver ao seu alcance para destruir a Venezuela, tal como tenta fazer com Cuba, é hora de redobrarmos a homenagem àquele que, sem dúvida, caiu em combate, numa batalha de «martírio ou vitória», como afirmam os combatentes palestinianos. O que mais poderiam ter sido aqueles dias de luta renhida contra aquele cancro que lhe queimava o corpo, mas que não o fazia recuar na sua força ideológica e discursiva? Quem não se lembra, sem que se lhe arrepiem os cabelos, daquela tarde em Caracas, a 4 de outubro de 2012, quando, sob um verdadeiro dilúvio, o Comandante subiu ao palco e, perante uma multidão incrível, gritou Viva a Revolução!, e convocou a todos a fazerem o esforço final para alcançar a vitória nas eleições que se aproximavam. A chuva torrencial que caía sobre a sua imponente figura não conseguiu intimidá-lo, nem a brutalidade da dor provocada pela maldita doença que nos o arrebatou meses depois.
Inspirando-se no amor que sentia por aquela maré vermelha que o ouvia extasiada, agitando bandeiras e entoando slogans, Chávez falou para a posteridade e proclamou a vitória contra a oligarquia e o Império. Era esse o seu estilo e a sua forma de agir. Dedicar-se de corpo e alma até às últimas consequências.
Neste novo aniversário do seu nascimento, a figura do Comandante eterno Hugo Chávez e o exemplo que ele nos deu reforçam a necessidade de redobrar a solidariedade com o povo bolivariano, para continuarmos a enfrentar, como sempre, a escória ianque-sionista que tenta apoderar-se do seu território. Em relação àqueles que foram capazes de bombardear e assassinar centenas de venezuelanos e 32 heróicos combatentes cubanos, não pode haver «nem um pouquinho» de esquecimento ou perdão.
Nestes dias em que o futuro parece tão incerto, Hugo Chávez convoca-nos mais uma vez a lutar. Pela Venezuela comunitária, pelo regresso urgente de Nicolás e Cilia, pela expulsão do território bolivariano dos ianques, sionistas e seus cúmplices locais. Para voltar a realizar um novo feito anti-imperialista, que retome o precedente guevarista, segundo o qual com o inimigo não se negocia, combate-se. Ontem, hoje e sempre.
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Carlos Aznárez | Especialista em política internacional e diretor do jornal Resumen Latinoamericano
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