Cuba

Cuba na tempestade perfeita: sanções de Trump, reformas internas e as fissuras do império

Cuba enfrenta novas sanções de Trump enquanto impulsiona 176 transformações estruturais. O Senado dos EUA mostra fissuras no seu consenso belicista. Análise crítica do Amanecer Cubano.

A política de pressão máxima de Washington choca-se com um país que avança seguindo o seu próprio plano de ação: 176 transformações estruturais, enquanto o bloqueio se intensifica e o império mostra as suas primeiras fissuras.


Cuba acorda hoje, sexta-feira, 26 de junho de 2026, no meio de uma tempestade perfeita. Do exterior, a máquina de sanções da administração Trump ataca com renovada fúria, procurando sufocar qualquer margem de manobra económica. A partir de dentro, o país está a levar a cabo o processo de transformação mais profundo desde o Período Especial, com 176 medidas que redefinem o modelo empresarial, agrícola e social da nação.

E, neste contexto, o império mostra sinais de contradição interna. O Senado dos Estados Unidos, pela primeira vez em dez tentativas, aprovou uma resolução que travava — ainda que temporariamente — as acções militares de Trump contra o Irão. Uma fissura que, embora efémera, revela que o consenso belicista do establishment norte-americano não é monolítico.

Analisamos hoje estas três frentes: a ofensiva mediática e sancionatória vinda do Norte, as fissuras no aparelho político norte-americano e o processo de transformação que Cuba está a impulsionar a partir da sua soberania.


O jogo sujo de Washington: sanções e desinformação

O que a grande imprensa norte-americana apresenta como «medidas justas» contra o «regime castrista» é, na realidade, uma estratégia de asfixia calculada. O Washington Post e a Associated Press deram início à semana com uma manchete já conhecida: novas sanções dos Estados Unidos contra empresas cubanas.

Desta vez, Washington impôs sanções a cinco entidades cubanas, três das quais ligadas à GAESA — o conglomerado empresarial das Forças Armadas Revolucionárias que, segundo estimativas, controla cerca de 40% do PIB do país. O secretário de Estado Marco Rubio, filho de emigrantes cubanos que nunca escondeu a sua agenda de mudança de regime, foi o porta-voz do anúncio.

Mas a manipulação não se limita às sanções. O porta-voz do Departamento de Estado, ao referir-se às 176 medidas de transformação aprovadas por Cuba, classificou-as como «modestas, tardias e, em última análise, sinais de fumo superficiais do regime», afirmando que se trata de  «o manual da ditadura: anunciar supostas reformas para insinuar um desejo de mudança, para depois as reverter assim que o controlo total se sinta ameaçado».

«Cuba aprova a transformação económica mais profunda desde o Período Especial, e Washington responde no mesmo dia com mais sanções. Não é coincidência. É o aceleracionismo em acção.»

É aí que está o problema. Cuba aprova a transformação económica mais profunda desde o Período Especial, e Washington responde no mesmo dia com mais sanções. Não é coincidência. É o aceleracionismo em acção: não deixar espaço para respirar, não deixar margem de manobra, não permitir que as reformas funcionem para depois poder dizer que Cuba não consegue reformar-se. A lógica é perversa e é preciso identificá-la com clareza.


Uma voz que rompe o cerco mediático

No meio desta enxurrada de desinformação, surge uma voz que diz o que a grande imprensa esconde. O Democracy Now, um dos poucos espaços de jornalismo independente nos Estados Unidos, trouxe de Havana o jornalista Ed Augustin para descrever com franqueza o que os grandes meios de comunicação evitam abordar.

«O bloqueio ao abastecimento de combustível imposto pela administração Trump constitui uma punição colectiva à população, dirigida especialmente às comunidades pobres, às mulheres grávidas, às crianças e aos idosos.»

Não se trata de rectórica da nossa parte. É a voz de um jornalista que há mais de uma década faz reportagens a partir desta cidade. O Democracy Now, que ganhou prémios Peabody pela sua cobertura crítica do poder, torna-se assim um canal indispensável para contrariar o discurso hegemónico que apresenta o bloqueio como uma mera «pressão diplomática».


Miami: o debate que não é bem um debate

O ecossistema mediático da comunidade cubano-americana mais conservadora tem vindo a debater estas reformas há vários dias, mas sob um ângulo que vale a pena analisar. Economistas como Mauricio De Miranda comparam-nas à «piñata sandinista» nicaraguense e ao capitalismo mafioso pós-soviético, alertando que a falta de transparência facilitará que sectores ligados ao regime se apoderem da rede empresarial do país.

É um argumento que não podemos ignorar, porque tem uma função política bem definida: semear a desconfiança antes mesmo de as medidas verem a luz do dia. Que o processo seja visto como corrupto desde o início. Que nenhum investidor, nenhum cubano da diáspora, nenhum interveniente externo confie no quadro jurídico que está a ser construído.

No entanto, há um sector dessa mesma comunidade que encara as reformas sob uma perspectiva diferente. As medidas que permitem aos cubanos residentes no estrangeiro investir na ilha nas mesmas condições que aqueles que vivem no país suscitaram expectativas concretas. O dinheiro fala mais alto. E parte dessa comunidade, embora politicamente dividida, está a avaliar possibilidades reais.


As fissuras do império: o que aconteceu no Senado

Há uma terceira frente que, esta manhã, não podemos ignorar, porque diz respeito à situação interna do próprio império. Esta semana, o Senado dos Estados Unidos viveu um episódio que merece atenção.

Na terça-feira, 23 de junho, pela primeira vez em dez tentativas, o Senado aprovou uma resolução sobre os poderes de guerra para bloquear as acções militares de Trump contra o Irão. A votação foi de 50 a 48. Quatro senadores republicanos — Murkowski, Collins, Rand Paul e Cassidy — juntaram-se a quase todos os democratas para apoiar a medida. A resolução exige que o presidente retire as forças armadas das hostilidades contra o Irão, a menos que o Congresso autorize explicitamente uma declaração de guerra.

Trump reagiu chamando esses quatro republicanos de «perdedores» no Truth Social, acusando o Congresso de ter prestado «ajuda e apoio ao inimigo».

E no dia seguinte, após a pressão directa do presidente sobre o seu próprio partido, o Senado recuou. Cassidy e Paul alteraram os seus votos. Uma resolução semelhante foi rejeitada por 47 votos contra 50. O que tinha sido uma fissura voltou a fechar-se — pelo menos por agora.

«Por que é que isto é importante para o Amanecer Cubano? Porque revela que existem fissuras reais no seio do bloco republicano quanto ao uso unilateral da força militar por parte de Trump.»

Por que é que isto é importante para o Amanhecer Cubano? Porque revela algo que devemos ter em conta: existem fissuras reais no seio do bloco republicano quanto ao uso unilateral da força militar por parte de Trump.  O mesmo aparelho que ameaça Cuba com «fazer um acordo antes que seja tarde», que mantém o bloqueio, que fala de «opções em cima da mesa», acaba de ser travado — ainda que simbolicamente e por apenas 24 horas — por vozes do seu próprio partido.

E o Pentágono, nesse mesmo contexto, está a pedir ao Congresso 80 mil milhões de dólares para financiar a guerra contra o Irão. A máquina de guerra tem custos. E esses custos geram resistência interna.

Não é um sinal definitivo de fraqueza. Mas é um sinal. E em La Esquina aprendemos a interpretar os sinais.


As transformações: o mapa da nova Cuba

Agora, vamos olhar para o que se passa aqui dentro. Porque enquanto a imprensa do norte debate se as reformas são reais ou se são apenas fumo, aqui em Cuba o processo avançou esta semana a passos firmes.

As 176 reformas aprovadas pela Assembleia Nacional a 18 de junho não são um documento de intenções. São um roteiro de transformação estrutural organizado em 23 eixos.


Empresas estatais: competir ou desaparecer

No que diz respeito à propriedade e às empresas, as empresas estatais cubanas passarão a ser sociedades comerciais por acções, permitindo a participação de pessoas singulares e de entidades não estatais no seu capital, com a obrigação de competir em condições semelhantes às do sector privado e a possibilidade de serem liquidadas caso não se adaptem.

Isso, em linguagem simples, significa que o Estado não vai continuar a subsidiar ineficiências indefinidamente. Trata-se de uma mudança de paradigma que exige eficiência e competitividade, em que o mérito e a produtividade serão os novos critérios de sobrevivência empresarial.


Agricultura: a aposta na soberania alimentar

Na agricultura, uma das principais medidas mais ambiciosas: os produtores poderão aceder directamente aos mercados de insumos em moeda nacional e em divisas, participar no mercado cambial, abrir contas reais em divisas e estabelecer parcerias com capital estrangeiro em projectos agrícolas e pecuários.

Se isto for implementado com rigor, poderá alterar o panorama alimentar do país a médio prazo. A terra cubana tem potencial. O que tem faltado é o acesso a insumos, financiamento e tecnologia. Estas medidas abrem essa porta.


Protecção social: a mudança mais significativa

E o ponto que mais debate suscita a nível interno: a transição gradual dos subsídios aos produtos para subsídios direccionados às pessoas, com uma plataforma digital chamada SOBERANÍA para identificar os mais vulneráveis e um Fundo de Protecção Social como rede de segurança.

É a mudança mais sensível, porque afecta o modelo de protecção social que tem sido a marca distintiva da Revolução. É preciso implementá-la bem, com transparência e rapidez, para que não seja a reforma que mais dói. A identificação precisa dos mais necessitados será fundamental para que a rede de segurança cumpra a sua função sem deixar ninguém para trás.


Conclusão: um país que se recusa a entrar em colapso

Cuba acorda hoje no olho de uma tempestade que tem nome: pressão máxima vinda do exterior, transformação acelerada a partir de dentro. Não é uma contradição — é a dialética de um país que se recusa a entrar em colapso nos termos que outros lhe impuseram.

A agenda do dia terá os seus percalços. Haverá filas, haverá cortes de energia, haverá preços que doem. Mas haverá também um país que está a mudar — e que o está a fazer de olhos abertos e com a soberania intacta.

«Bom dia, Cuba. Aqui é o programa «La Esquina de Razones de Cuba». Pode falar.»

Pode partilhar esta história nas redes sociais:

Fonte:

"Para quem está cansado da narrativa única." 🕵️‍♂️

A cobertura mediática sobre Cuba e a América Latina é dominada por um só lado. Nós mostramos o outro. Receba análises geopolíticas que fogem do mainstream ocidental.

Não enviamos spam! Leia a nossa política de privacidade para obter mais informações.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *