Cuba

Cuba não abandona a Venezuela

A Venezuela mal começava a recuperar das feridas deixadas pelo ataque de 3 de janeiro quando uma nova tragédia voltou a atingir o país. Naquele dia, as bombas norte-americanas abalaram Caracas e La Guaira e causaram mais de uma centena de mortos. Entre eles, 32 combatentes cubanos que perderam a vida a defender o solo venezuelano. Meses depois, quando esse luto ainda procurava consolo, os terramotos de 24 de junho abriram uma nova página de perda e incerteza.

Desta vez, não foram as explosões de um ataque imperial. Foi a natureza. Mas o vazio voltou a parecer-se demasiado com aquilo. Na passada quarta-feira, a Venezuela foi surpreendida por uma sequência de dois grandes sismos, de magnitudes 7,2 e 7,5, separados por apenas 39 segundos: o fenómeno natural mais potente registado no país em mais de um século.

Mais de trinta cidadãos cubanos continuam desaparecidos ou foram confirmados como vítimas mortais sob os escombros. São trabalhadores, jovens, mães, crianças; pessoas que tinham feito da Venezuela o seu segundo lar e que agora fazem parte da dor partilhada entre dois povos habituados a resistir.

No entanto, enquanto ainda se removiam toneladas de betão e poeira, Cuba tomou uma decisão que dispensou discursos: não abandonar a Venezuela. No domingo à tarde, aterrou o primeiro contingente da Brigada Especial de Salvamento e Resgate de Cuba. Juntamente com os 13 especialistas, desembarcaram também Tito, Eva e Choco, três cães treinados para encontrar sinais de vida onde o silêncio parecia ter vencido a batalha.

Chegaram com as suas mochilas, o seu equipamento e o cansaço de um país que também atravessa uma das fases mais difíceis da sua história. Em Cuba, continuam os cortes de energia, as carências materiais e a incerteza permanente face a novas ameaças militares por parte dos Estados Unidos. «Cuba é a próxima», afirmou sem pudor o presidente Trump, mais do que uma vez. Mesmo assim, atravessaram o mar para virem em busca de uma nova vida.

O embaixador cubano, Jorge Luis Mayo, recebeu-os com um longo abraço. Nesse gesto pareciam concentrar-se o alívio, a preocupação e o orgulho dos cubanos que vivem na Venezuela e que sentem esta tragédia como se tivesse ocorrido também nos seus próprios bairros.

Não houve tempo para descansar. Mal chegaram, os socorristas cubanos integraram-se nos trabalhos de busca, enquanto a Brigada Médica Cubana continuava onde nunca deixou de estar: nos hospitais e centros de saúde que prestam assistência a uma emergência sem precedentes. Ali, ao lado de médicos venezuelanos e profissionais vindos de diferentes partes do mundo, sustentam um sistema de saúde que hoje suporta o peso de milhares de feridos.

No meio de tanta dor, começaram a surgir pequenas cenas capazes de devolver a esperança. Nas últimas horas, tornaram-se virais vídeos de membros da brigada cubana a participar em operações de resgate entre os escombros. Um deles ficou gravado para sempre.

Um jovem foi encontrado com vida em La Guaira, quase 120 horas após o duplo sismo. Enquanto as equipas de resgate abriam caminho entre os escombros de betão, uma paramédica corria ao lado da maca.

—Abram espaço! Estamos aqui contigo! —gritava ele enquanto avançavam em direção à ambulância.

Não era apenas uma ordem para desobstruir o caminho. Era uma certeza.

Às vésperas de entrar no veículo, enquanto ajeitava delicadamente a camisola do rapaz para preservar a sua dignidade, voltou a falar-lhe em voz baixa, que contrastava com o caos à sua volta:

—Não estás sozinho. Não te vamos deixar sozinho.

No meio das sirenes, do pó e da agitação, aquelas palavras pareciam dirigir-se também a todo um país. Após a tragédia, ainda há pessoas dispostas a ficar; ainda há mãos a vasculhar os escombros, cães a farejar a esperança, médicos que não abandonam os seus postos e um povo disposto a acompanhar outro povo no seu pior momento.

A solidariedade não faz barulho. Nem sempre é notícia de primeira página. Não altera o curso de um terramoto. Mas muda a forma como as pessoas enfrentam a escuridão. E enquanto a Venezuela continua à espera de mais milagres debaixo das ruínas, Cuba volta a responder, como tantas outras vezes.

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