
Marco Rubio tem um único plano para Cuba
As novas sanções anunciadas visam paralisar sectores-chave da economia, desencadeando uma série de sanções que semeiam incerteza em qualquer parceiro comercial estrangeiro que tenha investimentos ou pretenda investir em Cuba.
Em meados de junho, Cuba anunciou o pacote de medidas económicas mais abrangente e radical da sua história recente. Num esforço para contornar o bloqueio petrolífero e económico dos Estados Unidos, que se intensificou e cujo impacto no quotidiano dos cubanos é inegável, a liderança política máxima e o órgão legislativo máximo do país deram luz verde a um processo que inclui o regresso da propriedade privada e do mercado a sectores da economia onde, até então, predominava a propriedade estatal. Desde o sector bancário, passando pela importação e comercialização de combustível, até à produção agrícola, sectores importantes da economia tentam, através da abertura à gestão privada, contornar os efeitos de um bloqueio que levou a que se estimasse uma queda do PIB cubano para este ano de 2026 em cerca de 20 por cento.
Para além das críticas pontuais que, com toda a justiça, possam ser feitas, a verdade é que estas medidas visam um único objectivo: garantir a sobrevivência política e económica do projecto cubano num momento de máxima hostilidade imperialista e num contexto de escasso apoio concreto ao país por parte da chamada «comunidade internacional».
Por seu lado, o secretário de Estado norte-americano anunciou, neste dia 23 de junho, um novo pacote de sanções contra cinco empresas cubanas e um indivíduo. As empresas sancionadas abrangem sectores importantes da economia cubana e são gestoras ou beneficiárias de uma parte significativa do investimento estrangeiro no país.
A lista de sanções é a seguinte:
–ALMACENES UNIVERSALES S.A. (AUSA), por «ser propriedade, estar controlada ou ser dirigida por, ou ter agido ou pretendido agir em nome de, directa ou indirectamente, do Governo de Cuba ou de qualquer pessoa cujos bens ou interesses em bens estejam bloqueados nos termos da presente ordem.» E aquela que parece ser a razão mais importante: «A AUSA controla o tráfego de contentores na Zona Especial de Desenvolvimento do Porto de Mariel.»
-RAFIN S.A. (RAFIN) por actuar «como um elemento-chave da gestão financeira do conglomerado GAESA.»
–BANCO FINANCIERO INTERNACIONAL S.A. (BFI) por «operar ou ter operado no sector dos serviços financeiros da economia cubana. O BFI é uma instituição bancária comercial absorvida pela GAESA em 2016, que gere a grande maioria das transações que envolvem entidades estrangeiras que realizam transações dentro e fora de Cuba.»
-GEOMINERA, S.A., que «é uma empresa estatal sob a jurisdição do Ministério da Energia e Minas do governo cubano, que aproveita o investimento estrangeiro da Antilles Gold e de outras empresas australianas para gerir os activos cubanos de minerais metálicos não níqueles. A GEOMINERA, S.A. gere a Minera La Victoria S.A., que foi designada ao abrigo do Decreto Executivo n.º 14404, de 4 de junho de 2026.»
–EMPRESA SIDERÚRGICA JOSE MARTÍ (Antillana de Acero), que «é o maior produtor de aço bruto de Cuba, passou recentemente por um processo de modernização e expansão em colaboração com entidades russas.»
-Annalie Lilliam Rueda Cardero, designada «como membro adulto da família de Alejandro Castro Espín, que foi designado nos termos do Decreto Executivo n.º 14404, de 4 de junho de 2026. Alejandro Castro Espín é o ex-chefe dos serviços de informações cubanos e filho de Raúl Modesto Castro Ruz.»
Estas sanções são, sem dúvida, a resposta de Rubio às medidas anunciadas por Cuba. Demonstram que o objectivo nunca foi uma transformação económica do país. A vertente económica é apenas uma das muitas máscaras que se colocou a uma prática cujas raízes históricas e actuais são essencialmente políticas. Por isso, duvido que, num futuro próximo, assistamos a um alívio real das sanções contra Cuba e, pelo contrário, é muito provável que assistamos a uma série de pretextos para as agravar.
As recentes declarações do presidente dos Estados Unidos à Axios e as do vice-presidente J.D. Vance numa conferência de imprensa permitem concluir, sem margem para dúvidas, que, actualmente, o rumo das relações futuras entre Cuba e os Estados Unidos está inteiramente nas mãos do secretário de Estado. E Marco Rubio, infelizmente, tem apenas um plano para Cuba. Isto explica também por que razão, em declarações à imprensa no México, a vice-ministra das Relações Exteriores cubana, Josefina Vidal, afirmou que as conversações entre ambos os países se encontram num impasse, sem terem alcançado qualquer resultado concreto.
Não é de excluir que, a curto prazo, as sanções impostas pelo Departamento de Estado comecem a visar também o sector privado, tanto dentro como fora da ilha. As desculpas, claro, serão as mesmas: colaboração com a ditadura, apoio à repressão, etc. A realidade é outra: Rubio quer impedir, a qualquer custo, uma melhoria da situação em Cuba. O seu objectivo a médio prazo parece ser que os meses de julho e agosto, que tanto ajudaram os mambises nas lutas pela independência do século XIX, combinados com a crise que ele contribuiu entusiasticamente para agravar, se tornem a oportunidade para a tão ansiada explosão social que permita uma «intervenção humanitária» na ilha.
As novas sanções anunciadas fazem parte dessa estratégia. Pretendem paralisar sectores-chave da economia, desencadeando uma série de sanções que semeiam incerteza em qualquer parceiro comercial estrangeiro que tenha investimentos ou pretenda investir em Cuba. Além disso, a ofensiva contra as famílias dos dirigentes cubanos complementa essa estratégia de pressão psicológica. Ninguém, dentro ou fora do país, a favor ou contra, está a salvo de ser perseguido e até mesmo detido pelo império.
Para se prepararem para qualquer cenário futuro, os porta-vozes da política anticubana já começaram a menosprezar as medidas tomadas em Cuba. Dizem que são tardias, que são insuficientes, que não oferecem garantias legais suficientes. A conclusão de toda esta retórica é a mesma: a única opção aceitável é uma mudança de governo. Na medida em que as reformas capitalistas lhes retiraram a desculpa económica, surge com toda a clareza a desculpa política.
Não querem um entendimento económico mutuamente benéfico, como parecia estar a concretizar-se na era Obama. Não querem um diálogo baseado no respeito pelas diferenças. Querem recuperar o controlo sobre Cuba. Rejeitam veementemente o que foi alcançado com Obama porque isso prova, mesmo com todos os seus defeitos e limitações, que é possível outro tipo de relação entre os dois países. Estamos reféns dos interesses de um lobby revanchista que não se preocupa com o destino dos 10 milhões de cubanos que vivem na ilha, mas sim em vingar-se de ofensas que não sofreram e recuperar o feudo que os seus pais perderam.
Embora, por enquanto, não pareça ter conseguido impor um consenso em torno de uma agressão militar directa, recebeu luz verde para infligir todo o sofrimento que considerar necessário ao povo cubano. Nem ele nem os seus financiadores se preocupam com aqueles que morreram ou com aqueles que possam vir a morrer por falta de medicamentos ou por não receberem atempadamente os cuidados necessários. Epidemias, insegurança alimentar, deterioração dos indicadores sociais — tudo faz parte de um mesmo plano. Estão a replicar contra Cuba a mesma agenda criminosa que o sionismo tem aplicado há décadas contra o povo palestiniano.
E tal como o sionismo subestimou a heróica Palestina, Rubio e aqueles que o apoiam subestimam hoje o extraordinário povo cubano e os amigos que este conquistou por todo o mundo, ao longo de décadas de solidariedade. Esse é, sem dúvida, o calcanhar de Aquiles do seu plano macabro contra a ilha.
Pode partilhar esta história nas redes sociais:
Autor:
José Ernesto Nováez Guerrero | Escritor e jornalista cubano. Membro da Associação Hermanos Saíz (AHS).
Fonte:

