CecilIA: a inteligência artificial cubana que quer falar como o seu povo
O modelo de linguagem cubano avança como projeto de soberania tecnológica e defesa da identidade nacional.
CecilIA não é apenas o nome de um romance cubano do século XIX. Em pleno 2025, é também a aposta de um grupo de cientistas, professores e estudantes da Universidade de Havana para desenvolver um modelo de linguagem de inteligência artificial cubano, concebido a partir de Cuba, com dados cubanos e ao serviço do país. Num contexto global dominado por tecnologias treinadas com preconceitos culturais, interesses corporativos e em línguas hegemónicas, CecilIA surge como uma alternativa soberana e com identidade.
O modelo, inicialmente treinado com textos literários cubanos, imprensa nacional, discursos políticos e o Diário Oficial, já começou a mostrar resultados. O seu desenvolvimento foi impulsionado pelo Grupo de Inteligência Artificial e Ciência de Dados da Faculdade de Matemática e Computação (Matcom) e tem como objectivo final que a IA em Cuba fale e compreenda “em cubano”.
Durante sua segunda apresentação pública, desta vez na sede da União Nacional de Juristas de Cuba, foram compartilhados avanços técnicos, mas, acima de tudo, foi enfatizado algo fundamental: sem dados cubanos, não há IA verdadeiramente cubana. Por isso, os desenvolvedores convidam instituições, meios de comunicação, juristas e artistas a adicionar documentos, roteiros, canções, notícias e textos jurídicos que permitam alimentar o modelo.
Um projeto coletivo, de Cuba e para Cuba
O modelo CecilIA baseia-se no que os especialistas chamam de “modelos de linguagem pequenos” (SLM), que requerem menos recursos e são ideais para países em desenvolvimento. A partir do modelo base Salamandra (também em espanhol), a equipa cubana realizou um treino contínuo com corpora próprios e agora trabalha no desenho de instruções cubanas que permitam afinar a interação e adaptar melhor as respostas do modelo.
O Dr. Yudivián Almeida, um dos seus líderes, anunciou que se espera construir um corpus com pelo menos 10 000 instruções específicas, muitas das quais poderão ser propostas abertamente por qualquer pessoa interessada. Isto aponta para uma IA colaborativa, enraizada no conhecimento do povo.
Mas o desafio não é apenas técnico. A equipa sublinha a importância da ética, da prevenção de preconceitos, da explicação e da necessidade urgente de digitalizar documentos patrimoniais. Bibliotecas, editoras e arquivos ainda têm informações valiosas apenas em papel, o que limita o acesso e a utilização para fins de treino de IA.
Além do desenvolvimento de software, o projecto CecilIA tem uma dimensão cultural profunda: proteger a identidade cubana num mundo onde os algoritmos costumam ignorar as nuances do Sul Global. A possibilidade de criar aplicações de IA que reconheçam a fala, os conceitos e as referências culturais do país representa uma ferramenta estratégica para a soberania informativa.
En #Cuba, feria para jóvenes sobre uso de la Inteligencia Artificial https://t.co/AjYSScu05u
— Radio Cubana (@radio_cubana) July 14, 2025
Durante o encontro em Havana, juristas, linguistas, sociólogos e cientistas concordaram com a necessidade de todas as disciplinas contribuírem para este tipo de projectos. Não apenas para garantir a qualidade técnica, mas também para que o resultado final esteja alinhado com os valores sociais, culturais e éticos da nação.
CecilIA é um exemplo do que pode ser alcançado a partir de uma universidade pública e de um sistema científico comprometido. Mas o seu sucesso dependerá de toda a sociedade compreender que a transformação digital não é um luxo, mas uma necessidade nacional. Enquanto o trabalho continua, o modelo já inspira outras equipas em todo o país. Como disseram ao encerrar a apresentação: «crescemos em tudo».
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