Em torno do mito de que a Venezuela vende petróleo a Israel
Nas últimas semanas, uma notícia ganhou força em certos meios de comunicação: o suposto reinício da comercialização directa de petróleo pela Venezuela ao Estado de Israel. A narrativa procura apresentar uma imagem de incoerência ideológica quebrada por interesses económicos. No entanto, uma análise detalhada da dinâmica actual do mercado petrolífero, marcada por uma complexa rede de licenças, intermediários e gargalos logísticos nos Estados Unidos, revela uma realidade muito mais matizada.
A presença do petróleo venezuelano em destinos como Israel não é resultado de uma decisão soberana da Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA), mas uma consequência indirecta da reconfiguração do mercado energético global orquestrada a partir de Washington.
Gargalo logístico e reorganização no Golfo do México
A reintegração do petróleo venezuelano no mercado norte-americano após o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama, Cilia Flores, no passado dia 3 de janeiro, gerou uma congestão inesperada na infraestrutura de refinação da Costa do Golfo. De acordo com fontes secundárias da OPEP, a produção venezuelana situava-se em 830 000 barris por dia em janeiro — um número não visto desde maio de 2024 e que representa uma queda em relação aos 917 000 barris diários de dezembro —, começou a ser encaminhada para refinarias americanas que há anos não processavam petróleo pesado venezuelano devido às sanções impostas pelo próprio Trump entre 2017 e 2019.
A Valero Energy Corporation surgiu como o participante mais agressivo neste cenário. A empresa, que possui a segunda maior rede de refinação dos Estados Unidos com capacidade para processar petróleo pesado venezuelano, planeia importar 6,5 milhões de barris em março próximo, o equivalente a aproximadamente 210.000 barris por dia. Este número representaria o maior volume processado pela empresa desde o início do embargo petrolífero dos Estados Unidos contra a Venezuela e poderia posicionar a Valero acima da Chevron como a principal refinadora de petróleo venezuelano em território norte-americano.
O vice-presidente de Abastecimento e Comércio de Petróleo da Valero, Randy Hawkins, confirmou durante a teleconferência sobre os resultados do quarto trimestre de 2025 que a empresa estava em negociações com vendedores autorizados de petróleo venezuelano, antecipando que este constituiria uma «parte bastante significativa» das suas compras de petróleo pesado durante fevereiro e março. A empresa aproveitou descontos reportados de cerca de 9 dólares por barril em relação ao Brent, impulsionando margens de refinação que já mostravam uma recuperação significativa: no quarto trimestre de 2025, a Valero reportou receitas operacionais de 1,6 mil milhões de dólares, contra 348 milhões no ano anterior.
No entanto, este súbito afluxo de petróleo pesado saturou as capacidades logísticas da região. As refinarias do Golfo do México, concebidas para processar uma cesta diversificada de petróleos, enfrentam agora um desequilíbrio entre a oferta disponível e as suas capacidades de armazenamento e transporte interno. O petróleo pesado canadiano, que tradicionalmente competia com o venezuelano por espaço nessas instalações, começou a ser negociado com descontos de 11 a 11,50 dólares abaixo do Brent na Costa do Golfo, aproximadamente 4 dólares mais barato do que a média do quarto trimestre de 2025.
Essa pressão logística obrigou as empresas comercializadoras a diversificar os seus destinos de exportação, não por decisão da PDVSA, mas pela impossibilidade física de absorver os volumes adicionais no mercado norte-americano.
A Vitol e a Trafigura, as duas principais empresas comerciais (ou de trading) que obtiveram licenças especiais do Tesouro para operar com petróleo venezuelano, após a reunião na Casa Branca, começaram a oferecer cargas a refinarias na China e na Índia para entregas em março. O CEO da Trafigura, Richard Holtum, declarou ao presidente Trump durante uma reunião na Casa Branca que a empresa estava a trabalhar «para levar esse petróleo venezuelano para os Estados Unidos», acrescentando que o primeiro navio «deveria carregar na próxima semana».
Outras gigantes como a Phillips 66 e a Citgo também solicitaram autorizações para comprar petróleo directamente da Venezuela, procurando garantir matéria-prima para suas refinarias.
Diversificação de clientes vs desinformação
O mecanismo imposto por Washington para a comercialização do petróleo venezuelano transferiu o controlo operacional da PDVSA para intermediários privados sob supervisão norte-americana. A Vitol e a Trafigura não só facilitam a logística, como também determinam os destinos finais dos carregamentos.
Essa estrutura gerou uma complexa rede de revendas que desvincula o Estado venezuelano das decisões comerciais finais. O secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, confirmou durante sua visita a Caracas, em 11 de fevereiro, que «a China já comprou parte do petróleo vendido pelo governo norte-americano», sem especificar volumes nem condições comerciais. Esta declaração evidencia que o petróleo venezuelano está a ser redireccionado para os mercados asiáticos como resultado da estratégia comercial das empresas de trading autorizadas.
Neste contexto, a reportagem da Bloomberg de 10 de fevereiro sobre um suposto envio de petróleo venezuelano para Israel deve ser analisada com cautela. A informação, atribuída a «pessoas com conhecimento do acordo» que solicitaram anonimato, sugeria que aproximadamente 200 000 barris da carga transportada pelo navio Poliegos (IMO 9746621) — com destino inicial ao porto de Sarroch, na Sardenha, Itália — seriam redireccionados para a refinaria de Haifa operada pelo grupo Bazan.

O governo venezuelano, através do vice-presidente setorial para Comunicação e Cultura, Miguel Pérez Pirela, classificou o relatório como «falso» e «desinformação fabricada». A negação oficial insere-se no contexto da ruptura diplomática com Israel, ocorrida em 2009, durante a presidência do comandante Hugo Chávez, e no histórico de solidariedade venezuelana com a causa palestina. Fontes consultadas pela teleSUR enfatizaram que não existem registos oficiais de embarque nem confirmações governamentais que corroborem a versão da Bloomberg.
A ambiguidade do caso reside na opacidade inerente ao comércio marítimo de petróleo. Israel não divulga publicamente os seus fornecedores de petróleo bruto, e os petroleiros desaparecem frequentemente dos sistemas de rastreamento digital perto dos portos israelitas, como reconheceu a própria agência Bloomberg. O grupo Bazan recusou-se a comentar sobre o suposto embarque, enquanto o Ministério da Energia israelita manteve a sua política de não revelar fontes de abastecimento, de acordo com o Latin Times.
O que fica evidente é que, se o envio para Israel tivesse sido concretizado, essa decisão não teria partido da PDVSA nem do Estado venezuelano, mas da cadeia comercial controlada pela Vitol — acionista majoritária da refinaria de Sarroch — e sujeita à autorização do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos. A Licença Geral 48, emitida em 10 de fevereiro passado pelo Gabinete de Controlo de Activos Estrangeiros (OFAC), proíbe explicitamente transacções com entidades russas, iranianas, norte-coreanas, cubanas e chinesas, mas não estabelece restrições sobre envios para Israel, deixando às empresas comerciais liberdade para determinar destinos dentro do bloco ocidental.
Perspectivas e mudanças na dinâmica do mercado global do petróleo
A reconfiguração do comércio petrolífero venezuelano «sob supervisão» dos Estados Unidos levanta questões fundamentais sobre a soberania energética e a autonomia comercial do país. Wright declarou que o controlo dos EUA sobre as exportações petrolíferas venezuelanas será mantido por um período «indefinido», condicionando o acesso das autoridades de Caracas às receitas petrolíferas à apresentação de «pedidos de orçamento» sujeitos à aprovação de Washington.
Até à data, as receitas geradas por este esquema mostram uma diferença significativa em relação às projecções iniciais. Enquanto o presidente Trump anunciou em janeiro um acordo emblemático de 2 mil milhões de dólares correspondentes a 30-50 milhões de barris, funcionários norte-americanos confirmaram apenas 500 milhões de dólares depositados em contas controladas pelo Tesouro no Catar, com outros 300 milhões adicionais esperados em fevereiro. O magnata presidente reconheceu publicamente que os Estados Unidos «manterão uma parte» dessas receitas, sem especificar percentagens ou mecanismos de distribuição.
A PDVSA, por sua vez, adoptou uma postura defensiva em relação à nova arquitectura comercial. Algumas fontes indicam que a empresa estatal se recusa a vender directamente a empresas que não possuam licenças individuais do Tesouro dos Estados Unidos, mantendo uma posição cautelosa diante da incerteza regulatória. Isso, no entanto, é marginal num contexto em que as decisões de comercialização foram efetivamente externalizadas para a Vitol e a Trafigura.
A estratégia geopolítica subjacente visa conter a influência chinesa no hemisfério ocidental. Alguns analistas, como Igor Collazos, interpretam a Licença 48 como uma operação de «marcação de território» por parte de Washington, concebida para consolidar áreas de influência numa «fase final do jogo para confinar a China fora do hemisfério ocidental». Durante a sua visita à Faixa Petrolífera do Orinoco, Wright expressou que a cooperação entre empresas americanas e recursos venezuelanos tem como limite “o céu”, numa declaração que sublinha a natureza estratégica da relação petrolífera.
Para os mercados globais, a reintegração parcial do petróleo venezuelano representa tanto uma oportunidade quanto uma fonte de incerteza. A Índia surgiu como potencial beneficiária do redirecionamento dos fluxos, com empresas públicas como a Indian Oil e a Hindustan Petroleum juntando-se à refinaria privada Reliance Industries para adquirir 2 milhões de barris de petróleo Merey nas próximas semanas. Este realinhamento poderá pressionar os mercados de petróleo pesado russo e do oeste asiático, fornecedores tradicionais da indústria de refinação indiana.
A produção venezuelana, que atingiu um milhão de barris por dia em fevereiro, segundo declarações de Wright, ainda enfrenta severas limitações estruturais. Apesar das reformas legislativas que reduzem impostos e royalties para investidores privados, a infraestrutura petrolífera requer investimentos maciços que as empresas americanas, segundo o CEO da ExxonMobil, Darren Woods, consideram prematuros enquanto o país permanecer “não investível” do ponto de vista do risco político.
Neste cenário, a narrativa sobre as exportações diretas da Venezuela para Israel é mais funcional para uma agenda de desestabilização política do que para a realidade comercial. A ausência de controlo venezuelano sobre os destinos finais do petróleo, a opacidade deliberada do comércio marítimo e a intermediação obrigatória por meio de empresas comerciais autorizadas por Washington configuram um mercado onde as decisões sobre o destino obedecem a cálculos de margens e estratégias geopolíticas americanas, e não a políticas externas soberanas.
A denúncia por parte do governo venezuelano do relatório da Bloomberg como «notícia fabricada» deve ser entendida não apenas como uma afirmação factual, mas como uma reivindicação de princípios diplomáticos que a nova estrutura comercial imposta pelo exterior coloca em risco.
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