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“Serão sempre argentinas”: jogadoras reivindicam as Malvinas após eliminarem a Inglaterra

A selecção da Argentina não só venceu a Inglaterra por 2 a 1, qualificando-se para a final do Mundial de 2026, como também contornou a censura imposta pela FIFA e pelo Governo britânico, que tinha proibido a exibição de bandeiras com as Ilhas Malvinas.

Os jogadores da Selecção Argentina defenderam, esta quarta-feira, a exibição de uma bandeira com o lema «As Malvinas são argentinas» depois de derrotarem a Inglaterra por 2-1 e se qualificarem para a final do Mundial, num jogo repleto de simbolismo histórico e político.

A bandeira foi hasteada no campo após o fim do jogo disputado em Atlanta, onde a Argentina venceu a selecção inglesa e avançou para a sua segunda final consecutiva, na qual irá defrontar a Espanha. Os golos do jogo foram marcados por Enzo Fernández aos 85 minutos e por Lautaro Martínez aos 90+2, após o golo inicial do britânico Anthony Gordon.

Questionado pela imprensa após o jogo, o médio Leandro Paredes apoiou o gesto dos seus colegas e reafirmou a reivindicação argentina sobre o arquipélago do Atlântico Sul. «E serão sempre argentinas», respondeu Paredes quando questionado sobre a bandeira com a silhueta das Ilhas Malvinas.

O gesto dos jogadores da Albiceleste contrariou a censura sistemática imposta pela FIFA e pelo Governo do Reino Unido, que tinha sido apoiada anteriormente pelo próprio Governo de Javier Milei. O órgão regulador do futebol internacional tinha classificado a reivindicação de soberania como «mensagem política ou provocadora».

Apesar dessas restricções ao público, após o apito final, o médio Giovanni Lo Celso exibiu no relvado uma bandeira com a inscrição «As Malvinas são argentinas», imagem que rapidamente se espalhou nas redes sociais e nos meios de comunicação internacionais.

Além disso, durante as comemorações, vários futebolistas argentinos entoaram o cântico «quem não salta é inglês», um slogan habitual entre os adeptos argentinos que costuma ouvir-se em vários jogos da selecção.

O avançado Lautaro Martínez, autor do segundo golo contra a Inglaterra, reconheceu que o encontro teve uma carga emocional diferente devido à história entre os dois países. «A Guerra das Malvinas é algo que aconteceu há muitos anos, mas para nós não foi um jogo como os outros. Foi um jogo especial», afirmou.

Após o jogo, milhões de argentinos tomaram as ruas e praças de toda a Argentina para celebrar a vitória da Albiceleste. No Obelisco de Buenos Aires, um veterano da Guerra das Malvinas entoou a Marcha das Malvinas enquanto agitava uma bandeira argentina, numa imagem marcante que ilustra o caráter simbólico do jogo contra a Inglaterra.

Numa entrevista à teleSUR, os ex-combatentes afirmaram que a vitória teve um significado especial e emotivo, ao mesmo tempo que dedicaram a vitória aos camaradas que perderam a vida no conflito de 1982. «O Maradona ajudou-nos do céu, assim como todos os veteranos», disse Adrián Paulo. Por seu lado, Jorge Irigoitia afirmou: «Continuamos a lutar, continuamos a reivindicar a nossa soberania, pelos rapazes das Malvinas que nunca esquecerei».

Outra das vozes que se juntou às comemorações foi Omar de Felippe, treinador, ex-futebolista e ex-combatente da Guerra das Malvinas. Através das redes sociais, afirmou: «Há jogos que vão além do futebol. Como veterano das Malvinas, hoje só quero agradecer a estes rapazes pela enorme alegria e pelo imenso conforto para a alma que nos proporcionaram. O desporto nunca muda a história, mas, por vezes, ajuda a curar emoções que continuam muito vivas».

A reacção do Reino Unido à exibição da bandeira não tardou a surgir. Meios de comunicação britânicos, como o The Sun, classificaram a celebração como um acto de «arrogância argentina» e descreveram a reivindicação da soberania sobre as Malvinas como «repugnante» e «deplorável».

Na mesma linha, The Telegraph e Daily Mail noticiaram que a Federação Inglesa de Futebol (FA) está a ponderar apresentar uma queixa formal à FIFA para solicitar sanções contra a Associação Argentina de Futebol (AFA), invocando o regulamento que proíbe manifestações políticas durante as competições oficiais.

Desde 3 de janeiro de 1833 que a Inglaterra ocupa ilegalmente as Ilhas Malvinas, situadas na plataforma continental da Argentina, a pouco mais de 400 quilómetros da costa da Patagónia. A 2 de abril de 1982, a enfraquecida ditadura cívico-militar argentina, comandada na altura por  Leopoldo Fortunato Galtieri, ordenou o desembarque nas ilhas e deu início à guerra contra a Grã-Bretanha.

A Argentina enviou 23 812 combatentes; cerca de 49% eram jovens recrutados (através do Serviço Militar Obrigatório) com idades compreendidas entre os 18 e os 20 anos. Os soldados destacados para as ilhas enfrentaram condições extremas: temperaturas abaixo de zero, falta de provisões e inundações nas suas trincheiras.

Soldados do exército argentino lêem os jornais em Puerto Argentino. Foto: Telam/ Román Von Eckstein

O conflito bélico prolongou-se por 74 dias e resultou na morte de 649 combatentes argentinos. A maioria das baixas ocorreu após o afundamento do cruzador ARA General Belgrano, ordenado pela primeira-ministra britânica Margaret Thatcher e ocorrido fora da zona de exclusão, o que causou 323 mortes. Nos anos que se seguiram à guerra, estima-se que entre 350 e 500 veteranos se tenham suicidado, embora não existam números oficiais.

Actualmente, o Reino Unido mantém a ocupação ilegal e militarizada do território, além de saquear diariamente os seus recursos naturais. De acordo com o site especializado Agenda Malvinas, a Coroa britânica «rouba 250 mil toneladas por ano de recursos pesqueiros, prevê extrair cerca de 900 milhões de barris de petróleo a partir de 2028 e lançou uma campanha de prospecção de diamantes e ouro».

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