Um povo sob o peso do cerco e da ameaça
A Casa Branca pretende levar Cuba por um caminho de desgaste, de pressão económica, de isolamento e de criminalização sistemática
Na gíria das prisões norte-americanas, a «última milha» é o trecho que separa o condenado do cadafalso; simboliza a passagem definitiva entre a vida e a morte, o momento final de espera antes da execução.
Ao observar a sequência de medidas que a actual administração republicana tem vindo a implementar contra Cuba nos últimos meses, pode-se afirmar que o poder em Washington decidiu transpor essa lógica carcerária para o cenário geopolítico.
Desde o passado dia 16 de julho, quando o Secretário de Estado convocou em Washington uma reunião ministerial sob o pomposo título de «Renascimento do Terrorismo Político», a narrativa oficial norte-americana tem vindo a intensificar-se em virulência, algo que parecia impossível de alcançar.
Nesse documento, a ilha foi descrita como «a capital mundial do terrorismo de esquerda radical». Quatro dias depois, a 20 de julho de 2026, o Departamento de Estado publicou um relatório, intitulado «Cuba: The Capital of 21st Century Subversion», no qual se acusa Havana de fomentar o extremismo e de tecer uma rede de espionagem para «minar os interesses dos EUA».
Todas as quartas-feiras ou quintas-feiras, como um macabro calendário do Advento, surge uma nova série de «sanções», cada uma delas apertando um parafuso diferente: o cerco petrolífero, as sanções secundárias às empresas estrangeiras, a lista de países que apoiam o terrorismo – um estigma falacioso que pesa mais do que uma condenação –, a declaração oficial de Cuba como «ameaça à segurança nacional».
Mas vamos além dos comunicados, porque por trás de cada resolução, de cada lista e de cada relatório, há nove milhões de vidas que não são peças num tabuleiro; o cerco, que já durava seis décadas — o pretérito perfeito de uma guerra não declarada —, torna-se absoluto.
Alguns analistas, com a memória ainda fresca, temem que falte apenas um passo: a operação de bandeira falsa, o pretexto perfeito; e não se trata de uma teoria da conspiração; é a lição aprendida noutros cenários.
O facto de o secretário de Estado, Marco Rubio, falar de «terrorismo político», ao mesmo tempo que impede o resto do mundo de manter relações comerciais com a ilha sob ameaça de represálias, é um exercício de cinismo que quase dispensa comentários.
A «última milha» que querem que Cuba percorra é um caminho de desgaste, de opressão económica, de isolamento e de criminalização sistemática. Mas há algo que o poder costuma esquecer: nessa milha, os condenados não caminham sozinhos.
Nesta jornada, contamos com a solidariedade internacional dos movimentos sociais, das pessoas honestas deste mundo e de alguns governos que se recusam a ceder, enquanto a própria resistência quotidiana dos cubanos transforma esta etapa num espaço de afirmação vital.
Ninguém pode alegar ignorância quando os factos estão datados, assinados e publicados. O relatório de 20 de julho é público, as sanções são verificáveis; trata-se de uma questão de sobrevivência da humanidade, embora agora prefiram fazer como a avestruz.
A última milha não é apenas o percurso dos condenados; é também a distância que nos separa da nossa própria consciência; nessa milha, ainda estamos a tempo de parar, ou não haverá outro mundo possível além daquele em que impera a lei do mais forte.
Porque, se há algo que os relatos dos presos no corredor da morte nos ensinam é que, mesmo no último momento, a esperança é a única corrente que não nos podem arrancar. Cuba, apesar de tudo, continua a dançar a sua valsa – não a da rendição, mas a da resistência – ou melhor, dançamos ao ritmo da rumba mambisa.
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Raúl Antonio Capote | (Havana, 1961) é um escritor, historiador, professor, investigador e jornalista cubano. Jornalista, chefe de redacção do Granma Internacional
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