Artigos de OpiniãoPaulo Da Silva

Artigo 3: Para Além da Demonização: O Significado Geopolítico da Rússia para a Esquerda Internacionalista

Para muitos na esquerda tradicional, a Rússia de Putin permanece um quebra-cabeças insolúvel: um capitalismo de Estado conservador que, no entanto, lidera a resistência ao imperialismo ocidental. Como conciliar esta contradição? A resposta está em abandonar a análise moralista e adoptar uma lente estratégica de classe a nível global. O significado da Rússia moderna para a esquerda internacionalista não reside no seu sistema interno, mas no papel objectivo que desempenha na luta contra o inimigo principal.

A Lição de Stalin: “Socialismo num Só País” e a Consolidação do Poder

O debate histórico entre Stalin e Trotsky sobre a “Revolução Permanente” versus o “Socialismo num Só País” é mais relevante do que nunca. Trotsky defendia que a revolução na Rússia só sobreviveria se se alastrasse imediatamente pela Europa. Stalin, um realista, argumentou que, face ao cerco capitalista, a URSS tinha de se consolidar como uma fortaleza soberana antes de poder apoiar revoluções noutros lugares.

A Rússia de Putin está a aplicar esta lógica a nível geopolítico. Ela não é a URSS, mas a sua luta pela soberania nacional e contra a hegemonia unipolar é a mesma luta pela consolidação de um pólo de poder independente. Ao fazê-lo, ela não exporta a revolução, mas cria algo mais fundamental: espaço de manobra geopolítico.

Porque o Anti-imperialismo é a Questão Chave

Qual é a maior ameaça a qualquer projecto progressista ou socialista no mundo hoje? É o imperialismo norte-americano e a sua máquina de guerra, sanções e golpes. Enquanto este poder mantiver a capacidade de estrangular economias, derrubar governos e lançar guerras de agressão, nenhum projecto de emancipação popular estará verdadeiramente seguro. A Líbia é um testemunho trágico e recente deste facto.

A Rússia, ao desafiar este poder de frente, está a fazer o “trabalho sujo” histórico de desgastar o hegemon. Cada sanção que a Rússia contorna, cada operação militar que trava a expansão da NATO, cada aliança que constrói fora do dólar, é um golpe no sistema que oprime todos os povos. Esta luta é objectivamente progressista, independentemente da natureza de classe do regime que a lidera.

A Fronteira Vermelha: Alianças Táticas vs. Princípios Estratégicos

Isto não exige uma capitulação ideológica. Pelo contrário, exige uma claridade estratégica superior.

  • Podemos e devemos criticar o capitalismo russo, o seu carácter oligárquico e as suas políticas sociais conservadoras.

  • Mas devemos apoiar sem hesitação o seu papel objectivo em desmantelar a arquitectura da unipolaridade. Isto não é uma fusão ideológica; é uma aliança táctica na luta contra o inimigo principal.

A posição correcta é, portanto, de apoio crítico e condicional. Apoiamos a Rússia na sua luta anti-imperialista, tal como um soldado numa trincheira apoia o camarada na trincheira ao lado, mesmo que não partilhe da sua história pessoal. A batalha imediata contra o cerco unipolar é um imperativo estratégico.

Conclusão: O Caminho para um Futuro Plural

Vladimir Putin e a Rússia não são a bandeira vermelha do socialismo do século XXI. Eles são o martelo que está a rachar o escudo do império. A nossa tarefa, como internacionalistas, não é celebrar o martelo, mas reconhecer que, sem ele, a prisão da unipolaridade permaneceria intacta.

O mundo multipolar que a Rússia ajuda a forjar não é o fim da jornada, mas é, finalmente, o início de um novo caminho para a humanidade. É um caminho onde a soberania dos povos, a diversidade de modelos de desenvolvimento e a possibilidade de um futuro socialista deixam de ser uma utopia inalcançável e se tornam, pela primeira vez em décadas, uma possibilidade política tangível.

O significado último da Rússia para a esquerda é este: ela está a abrir a porta. Cabe-nos a nós decidir o que construiremos do outro lado.

Autor:

Paulo Jorge Da Silva

Paulo Jorge da Silva, editor da página Cuba Soberana (https://cubasoberana.com/). Comunista internacionalista, anti-imperialista e solidário com a Revolução Cubana e Bolivariana e a luta dos povos pela soberania.

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Paulo Da Silva

Um activista português que viu, cheirou e sentiu o bloqueio. Pela soberania de Cuba. Pelo fim do cerco. Pelos milhões que, em silêncio, já decidiram de que lado estão. Porque os princípios, como Fidel ensinou, não se negoceiam.

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