Artigos de OpiniãoPaulo Da Silva

A Santa Inquisição: Uma Reflexão Histórica Sobre Acusadores Anónimos e Culpas Presumidas

Por um Observador da Condição Humana

Há momentos na História em que as instituições, desenhadas para proteger a fé ou a ordem, se transformam em máquinas de perseguir a verdade. Um dos exemplos mais notórios deste fenómeno é, sem dúvida, o Tribunal do Santo Ofício, mais conhecido como Inquisição.

Criada num contexto em que o poder religioso se confundia com o poder real, a Inquisição estabeleceu um sistema processual que, para muitos historiadores, representa o auge da injustiça institucionalizada . O que mais fascina (e assusta) neste sistema não é apenas a severidade das penas, mas a arquitectura processual que as sustentava: um edifício construído sobre a areia movediça da denúncia anónima e da culpa presumida.

O Acusador Que Nunca Aparece

Uma das características mais peculiares do processo inquisitorial era a protecção absoluta dada ao denunciante. Como documenta o Portal São Francisco, “a denúncia era prova de culpabilidade, cabendo ao acusado a prova de sua inocência” . O acusador nunca precisava mostrar o rosto. Nunca precisava confrontar a vítima. Nunca precisava provar nada. Basta uma palavra lançada nas trevas do anonimato para que a máquina se pusesse em movimento.

O acusado, por seu lado, vivia um pesadelo kafkiano: era mantido incomunicável, sem saber quem o acusava ou do que era acusado em detalhe. “Nenhuma testemunha era apresentada contra ele, nenhuma lhe era nomeada; os inquisidores afirmavam que tal procedimento era necessário para proteger os seus informantes”.

O Processo Secreto e a Incomunicabilidade

O julgamento era secreto, realizado à porta fechada, longe dos olhos do mundo. O acusado, muitas vezes acorrentado, era responsável até pelo custo da sua própria prisão . Tinha de jurar que, se fosse solto, nunca revelaria o que se passara dentro daquelas paredes. O silêncio era a primeira condição para a “liberdade”.

Este procedimento secreto, conhecido como inquisitio, foi formalizado no IV Concílio de Latrão (1216) pelo Papa Inocêncio III. Nele, a autoridade responsável dispunha de poderes para, por sua própria iniciativa, abrir o processo, colher as provas que julgasse necessárias e proceder secretamente no interesse de obter a confissão do réu . A confissão era o objectivo máximo, a rainha das provas, e todos os meios eram válidos para a obter.

O Algoz e a Corrente de Comando

Havia também a curiosa figura do algoz que agia em nome de outrem. Os inquisidores, muitas vezes frades dominicanos, recebiam a sua autoridade directamente do Papa, através de bulas como a Licet ad capiendos (1233) de Gregório IX, que os facultava a proceder contra os hereges “sem apelação, solicitando em caso necessário a ajuda das autoridades seculares” . Os algozes executavam ordens. Eram o braço, mas a cabeça que decidia estava noutro lugar, bem protegida.

E, quando a sentença final era proferida – frequentemente a morte na fogueira para os hereges impenitentes – o tribunal eclesiástico lavava as mãos. A Igreja não executava; “entregava” o condenado às autoridades seculares, que aplicavam a “pena capital”, como era comum na época . Uma separação técnica de responsabilidades que permitia a cada um dizer que a culpa era do outro.

O Significado Para o Nosso Tempo

O historiador Alexandre Herculano, na sua monumental “História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal”, alertava, já no século XIX, para os perigos da “reacção moral” que acompanha os períodos de trevas. Ele descrevia os que saúdam o vencedor sem perguntar donde veio, os velhos interesses que se escondem na “luz frouxa da abside da antiga catedral”, e a “hipocrisia que, depois de minar debaixo da terra durante anos, surge, enfim, à luz do sol” para apoiar os que abusam da força .

Herculano via na Inquisição não apenas um fenómeno do passado, mas um modelo atemporal de como o poder pode corromper a justiça. O inquisidor que se esconde atrás do anonimato do denunciante. O burocrata que emite ordens sem nunca olhar nos olhos do acusado. O algoz que cumpre ordens recebidas de uma cadeia de comando que nunca enfrenta o público. O tribunal que condena baseado em provas que ninguém vê.

Enfim a Conclusão

A Santa Inquisição foi extinta formalmente no século XIX, mas o seu modelo processual – a acusação anónima, o julgamento secreto, a culpa presumida, o acusador que nunca aparece, o algoz que age por delegação – parece ter uma estranha capacidade de ressurgir, em diferentes formas e contextos, ao longo da História.

Fica a lição: quando a justiça se faz nas sombras, quando as acusações vêm de mensageiros sem rosto, quando a culpa é decretada antes da defesa, estamos, talvez, a reviver os velhos fantasmas de um tempo que muitos julgavam (ingenuamente) ter ficado para trás.

E, no entanto, há quem insista em ver nestas práticas meros “excessos de um passado distante”. Esquecem-se, talvez, de que a História, essa velha senhora, tem o mau hábito de se repetir – primeiro como tragédia, depois como farsa. E às vezes, num qualquer dia de semana, num simples julgamento onde a verdade é dita nos olhos, e a coragem de quem a diz é confundida com “falta de remédio”.

Mas o que é o remédio senão a tentativa de curar uma doença que não existe? E o que é a cura senão o reconhecimento de que, afinal, a lucidez não precisa de tratamento?

Fica, pois, a pergunta: se a Inquisição condenava com base em acusações anónimas, julgamentos secretos e algozes que nunca mostravam o rosto – quem são, hoje, os verdadeiros herdeiros desse método? E quem são os que, como os antigos hereges, preferem a fogueira da verdade à paz da mentira?

A resposta, como sempre, fica nas entrelinhas. Onde a espada de Bolívar continua a bailar.

Paulo Jorge da Silva | Um activista português que viu, cheirou e sentiu o bloqueio em Cuba, e que agora testemunha o martírio de Khamenei sob as bombas do mesmo império. Pela soberania dos povos. Pelo fim do cerco, onde quer que ele exista. Pelos milhões que, em silêncio ou nas ruas, já decidiram de que lado estão.

"Para quem está cansado da narrativa única." 🕵️‍♂️

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