Heróis de uma Guerra Suja: O Atentado à Embaixada de Cuba em Portugal
22 de abril de 1976. Lisboa. Uma bomba. Duas vítimas mortais. Uma ferida que, 50 anos depois, ainda não sarou.

Houve uma manhã, em Lisboa, em que o terrorismo de estado bateu à porta da revolução cubana. Não foi em Havana, nem em Miami. Foi aqui, no meu país. Na minha cidade. A poucos quilómetros de onde agora escrevo.
E eu, que tantas vezes atravessei o oceano para sentir Cuba na pele, descubro que Cuba também foi ferida no meu chão. E essa dor, camarada, é duas vezes minha.
O Crime
22 de abril de 1976, 16h45. A Embaixada de Cuba em Lisboa, na Rua de Sant’Ana à Lapa. Uma bomba, colocada por um mercenário, explode. O objectivo era matar dezenas – incluindo cerca de dez crianças, filhas de diplomatas, que ali costumavam estar àquela hora.
Mas as crianças tinham saído. Estavam de férias escolares. Escaparam por um triz, por um sopro, por aquilo a que os crentes chamam milagre e os revolucionários chamam acaso.
O acaso existe.
O que não existe é justiça.
Os Heróis
Adriana Corcho, 35 anos. Efrén Monteagudo, 33 anos. Dois cubanos, dois diplomatas, dois heróis cujo nome poucos guardam.
Adriana foi a primeira a detectar a bomba. Não fugiu. Alertou os companheiros, tentou tomar as medidas de segurança. Morreu. Não como vítima passiva, mas como revolucionária activa. O seu corpo tombou, mas a sua dignidade, essa, não tombou nunca.
Efrén, avisado, podia ter-se salvo. Subiu as escadas, na esperança de desactivar o engenho. Foi apanhado pela explosão. Morreu a tentar salvar outros.
Não são heróis porque morreram. São heróis porque viveram – e porque, até ao último segundo, agiram como revolucionários. Adriana e Efrén não são nomes numa lista. São a prova de que a revolução não se faz com discursos. Faz-se com o corpo. Com o risco. Com a disponibilidade para dar a vida pelos outros.
Quantos de nós, camarada, seriam capazes do mesmo?
A Impunidade
Ramiro Moreira, o homem que colocou a bomba, foi condenado a 21 anos de prisão. Não os cumpriu. Fugiu para Espanha. E, em 1991, foi indultado pelo governo de Mário Soares.
Indultado.
O assassino de dois revolucionários, o homem que tentou matar crianças, foi perdoado. Pelo governo do meu país. E a justiça, essa, ficou por fazer.
O advogado Levi Baptista, representante das famílias, acusou publicamente a CIA de estar envolvida no atentado. Mas a sombra do império, como sempre, esfumou-se. E a verdade, camarada, foi varrida para debaixo do tapete.
A Cumplicidade
Não foram apenas Ramiro Moreira e os seus cúmplices. Foi o Estado português que, ao indultar o assassino, se tornou cúmplice. Foi a impunidade que, ao longo de 50 anos, permitiu que este crime caísse no esquecimento. Foram os silêncios, as meias-verdades, as conveniências diplomáticas.
E este silêncio, camarada, é a mesma “Lei Suave da Selva” que denunciei noutro artigo. É a mesma falta de lealdade, a mesma hipocrisia, a mesma cumplicidade com o terrorismo de estado.
A Memória
Enquanto o império matava, o povo português, esse, não se calou. Centenas de pessoas reuniram-se em frente à embaixada, ainda com o sangue fresco, para manifestar solidariedade e repúdio. E essa multidão anónima, camarada, é a prova de que a solidariedade verdadeira – a que não escolhe a cor do passaporte – também existe no meu país.
Não foi uma solidariedade institucional. Foi a solidariedade dos que sabem que Cuba não está sozinha. A solidariedade que, hoje, continua a mover milhões de gotas neste oceano de resistência.
O Legado
Hoje, 50 anos depois, a diplomacia cubana continua de pé. O Ministro dos Negócios Estramgeiros Bruno Rodríguez Parrilla, ao recordar Adriana e Efrén, afirmou que a revolução “não se deterá frente a quem pretende destruí-la com ameaças e terrorismo“. E eu, camarada, acredito: porque a Revolução Cubana não se faz de governos – faz-se de povo. E o povo, esse, não se indulta.
Adriana e Efrén tombaram. Mas tombaram como as árvores que adubam a terra. A sua memória, camarada, é a nossa semente. E a nossa luta, hoje, é a árvore que cresce dessa semente.
A Memória que Não se Apaga
Cinquenta anos depois, a bomba já não ecoa, mas a memória, essa, não se cala. Adriana Corcho e Efrén Monteagudo tombaram. Tombaram como as árvores que adubam a terra, como os mártires que regam a resistência. A sua dignidade, camarada, é a semente que nos foi deixada. E a nossa luta, hoje, é a floresta que cresce dessa semente.
Não podemos devolver-lhes a vida. Não podemos apagar a cumplicidade do Estado português que indultou o assassino. Não podemos esquecer a sombra da CIA que pairou sobre este atentado sem nunca ser verdadeiramente julgada. Mas podemos, e devemos, recordar.
A memória é a nossa vingança. A verdade é a nossa justiça. A solidariedade com Cuba, hoje e sempre, é a nossa resposta.
Este artigo é o meu tributo a Adriana e Efrén. É a minha denúncia da hipocrisia e da impunidade. E é a minha promessa, Camarada: não esquecerei. Não esquecerei que o terrorismo que fere Cuba, fere-me a mim.
Até à vitória, sempre. Pelas vítimas. Pela memória. Por Cuba.

Paulo Jorge da Silva | Um activista português que viu, cheirou e sentiu o bloqueio. Pela soberania de Cuba. Pelo fim do cerco. Pelos milhões que, em silêncio, já decidiram de que lado estão. Porque os princípios, como Fidel ensinou, não se negoceiam.


