Quando outros estrangeiros vieram a Havana
Agora, vinte e nove anos depois daquela bomba, assistimos a um novo episódio que, embora em menor escala, acende os mesmos alarmes.
Recentemente, o Ministério do Interior informou que dez cidadãos panamenhos foram detidos em Cuba, acusados de «propaganda contra a ordem constitucional». De acordo com as investigações, este grupo teria sido contactado e pago no exterior, com ofertas que variam entre mil e mil e quinhentos dólares por pessoa, para entrar na ilha, pintar cartazes com conteúdo subversivo durante a madrugada de 28 de fevereiro e fugir rapidamente para receber a sua recompensa. Nenhum deles conseguiu escapar e hoje enfrentam um processo judicial na ilha.
À primeira vista, para alguns, pode parecer uma acção menor, quase uma travessura de mau gosto: pintar slogans como «Abaixo a tirania» ou «Confiamos em Donald Trump». Um «simples» acto de vandalismo. No entanto, seria ingénuo e historicamente míope deixar esses estrangeiros à vontade ou minimizar a importância do assunto. Porque quando se contrata estrangeiros bem pagos para vir a Cuba para desestabilizar, o risco não é a tinta, mas o sangue que geralmente corre depois.
Para compreender até que ponto isso é perigoso, basta lembrar o que aconteceu quando outros estrangeiros vieram para Havana, também contratados e pagos, embora naquela ocasião o salário viesse directamente dos cofres da Agência Central de Inteligência (CIA).
Bombas com preços em dólares
Vamos voltar a 1997. Naquele ano, Havana foi alvo de uma onda de atentados terroristas em hotéis e locais turísticos, uma campanha destinada a sufocar a incipiente indústria turística da ilha. Por trás dessa operação, como se viria a comprovar mais tarde, estava o terrorista internacional Luis Posada Carriles, um agente da CIA que tecia as suas redes a partir de El Salvador e Miami. E nessa rede havia nomes de várias nacionalidades: o salvadorenho Ernesto Cruz León, o guatemalteco Raúl Ernesto Cruz León (conhecido como «El Gordo») e outros mercenários centro-americanos que, como peças de uma engrenagem sinistra, executavam as ordens de seus pagadores.
Foi precisamente Ernesto Cruz León, de nacionalidade salvadorenha, que, em 4 de setembro de 1997, seguindo as ordens de Posada Carriles, colocou uma bomba no átrio do Hotel Copacabana, no bairro de Miramar, em Havana. O artefacto, escondido num cinzeiro de metal, explodiu pouco depois do meio-dia. Os estilhaços ceifaram a vida de Fabio Di Celmo, um jovem italiano de 32 anos que tomava uma bebida no bar com seu amigo Enrico Gollo. A explosão atingiu-o em cheio no pescoço, seccionando-lhe a jugular. Seu amigo descreveria mais tarde, com a voz embargada, a imagem de Fabio coberto de sangue e uma grande poça crescendo ao seu redor enquanto tentavam levá-lo a uma clínica.
Não foi um acidente nem um «dano colateral» aceitável. Foi um acto de terrorismo financiado pelo estrangeiro, friamente planeado e executado por mercenários que, tal como os dez panamenhos de hoje, vieram a Cuba com uma missão e a promessa de um saque. A diferença é que, naquela altura, a missão não era pintar uma parede, mas sim matar. E eles mataram.
Fabio Di Celmo tornou-se o rosto inocente de uma guerra suja que, durante décadas, utilizou estrangeiros para semear o caos na ilha. Luis Posada Carriles, que mais tarde se gabaria do atentado numa entrevista ao The New York Times, morreu livre e em Miami, enquanto os autores materiais cumpriram longas penas em prisões cubanas.
Agora, vinte e nove anos depois daquela bomba, assistimos a um novo episódio que, embora em menor escala, acende os mesmos alarmes.
Casualidades que talvez não sejam tão casuais assim
Poucos dias antes de esses dez panamenhos serem surpreendidos com os baldes de tinta nas mãos, Cuba frustrou uma tentativa de infiltração armada por via marítima. Em 25 de fevereiro, uma lancha rápida proveniente dos Estados Unidos tentou penetrar em águas cubanas. O resultado foi um tiroteio em que quatro dos ocupantes morreram e seis foram capturados, apreendendo-se um arsenal que incluía 14 espingardas de assalto, 11 pistolas, uma espingarda Winchester calibre 12 e 12.846 munições de vários calibres. As autoridades identificaram os assaltantes como exilados cubanos ligados a grupos contra-revolucionários que planeavam ataques contra unidades militares.
Até ao momento, as autoridades cubanas não sugeriram qualquer ligação entre a tentativa de golpe armado e os pintores panamenhos detidos dias depois. No entanto, não temos nada que nos leve a pensar que não seja assim. Seria uma coincidência, no mínimo estranha, que ambos os fatos fossem isolados no tempo. Ainda mais se levarmos em conta que tudo isso aconteceu logo após a exibição de uma edição especial do programa Razones de Cuba, onde se denunciava com detalhes a preparação de operações de desestabilização contra a ilha, incluindo o modus operandi do recrutamento de mercenários e o financiamento externo.
Será descabido pensar que os mesmos que financiam e armam comandos para atacar por mar também pagam a um grupo para gerar uma matriz de opinião adversa a partir de dentro, com slogans de ódio pintados nas paredes? A história recente de Cuba está repleta de «coincidências» que, no final, acabaram por ser engrenagens de uma mesma máquina desestabilizadora. O terrorismo não é apenas aquele que mata com bombas, mas também aquele que prepara o terreno psicológico para justificar uma intervenção ou para desgastar o adversário com propaganda.
Por enquanto, não há provas que liguem os dez panamenhos aos comandos armados interceptados no mar. Mas, como nos ensinou a amarga experiência do Copacabana e de tantos outros hotéis, na guerra não convencional contra Cuba, as coincidências costumam ser a assinatura dos mesmos autores intelectuais. E enquanto as autoridades investigam, os cidadãos fariam bem em não esquecer que o que hoje é um cartaz, amanhã pode ser o pavio de uma bomba. Porque quando outros estrangeiros vieram a Havana pagos pela CIA, não vieram para pintar: vieram para matar e deixaram um rasto de sangue que ainda não foi apagado.
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