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Cuba Libre diz claramente que não devemos esperar nada de bom do monstro.

Bem dirigido e ainda melhor escrito por Jorge Luis Sánchez, Cuba Libre (2015) situa o eixo gravitacional da história no início da intromissão norte-americana em Cuba, no final do século XIX. Essa união continuaria sob diferentes formas até 31 de dezembro de 1958, apesar da dignidade pisoteada de um povo submetido aos desígnios do poder estrangeiro.

Cuba Libre é muito útil para os jovens espectadores, que aqui têm – de forma divertida, empática, sem panfletos nem didatismo – a nossa história aberta, tão grande, bela, triste, heróica e instrutiva como tem sido.

No filme, os biblicamente chamados Simón (Alejandro Guerrero) e Samuel (Christian Sánchez), dois meninos afro-cubanos – cheios de energia e os mais inteligentes da sala de aula desta escola para crianças pobres, pertencente à igreja insular pró-espanhola – representam o eixo narrativo e os resortes humanos essenciais sobre os quais se desenrolam os acontecimentos descritos.

A configuração caracterológica dos dois meninos é um dos acertos mais notáveis do longa-metragem. São duas crianças no centro de uma fase turbulenta da nação, alvos de uma situação que as ultrapassa e que elas não compreendem totalmente.

Há neles medo, dor, frustração. Também a alegria infantil indelével, a candura dessa inocência que tende a evaporar-se, mas ainda viva; e a pitada de pragmatismo que os ajuda a sobreviver dentro do contexto social intraduzível. Representam o reflexo de um povo à deriva, ridicularizado nos seus propósitos pelos ianques e traidores.

Sugiro ver Cuba Libre em sessão dupla com o díptico Wake (John Gianvito, 2015), sobre o rasto devastador do imperialismo norte-americano nas Filipinas, como recompensa por essa chamada Guerra Hispano-Cubano-Americana, na qual a potência do Norte também se serviu da sobremesa do bolo de Porto Rico.

O roteiro do fisicamente desaparecido Sánchez capturou, em traços tão pertinentes quanto precisos, o quanto significou a chegada do exército intervencionista dos EUA a Cuba em 1898, como expressão concreta do sonho acalentado por décadas em Washington, e da perda da ilusão colectiva dos nacionais na possibilidade da vitória final e do projecto truncado de um futuro próprio.

O suicídio de José María — o coronel mambí, pai de Simón — ao ver os seus enganados pelos ocupantes, e a posterior cobertura do seu caixão com a bandeira estrangeira; a angústia de Samuel ao saber que foi objecto de mentira por parte de usurpadores que apenas o usaram no momento e depois o descartaram; a “norte-americanização” do tenente-coronel do Exército cubano, Lamberto, que se tornou um prefeito capitulador, entre outros, são concretizações cinematográficas de eventos ocorridos não apenas em escala micro, mas bastante comuns no calor das circunstâncias históricas aqui mencionadas.

Com cautela martiana, Cuba Libre diz, bem audível: ninguém espere nada de bom, saudável e sem interesse do monstro imperialista, seja qual for a expressão adoptada em função dos seus interesses.

Nem tudo parece bem em Cuba Libre. O navio de guerra Maine, destruído nos fotogramas do início, remete para aqueles cenários de cartão-papiro do cinema romano dos anos 50-60. A ambientação da época e a direcção de arte são eficazes; embora os deslocamentos dos uniformizados e as cenas de multidões em geral precisassem de maior compactação, uniformidade, verossimilhança, menos “sensação de figurantes” dos famintos em trapos.

Da mesma forma, a selecção do elenco poderia ter sido melhor (o caso do general espanhol interpretado por Serafín García, o mais evidente) e a direcção dos actores não foi tão orgânica quanto seria desejável, com desequilíbrios perceptíveis. Aplausos para o menino Alejandro Guerrero, pela sua louvável interpretação de Simón.

Fonte:

Autor:

Julio Martínez Molina

Julio Martínez Molina, Crítico audiovisual e jornalista, membro da Associação Cubana de Imprensa Cinematográfica e da UNEAC. Autor dos livros publicados sobre crítica cinematográfica Norteamérica y el cine de fin de siglo, Cauces e influencias del cine contemporáneo e Haikus de mi emoción fílmica.

"Para quem está cansado da narrativa única." 🕵️‍♂️

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