
A “ameaçadora” Cuba na Festa do Avante
É uma festa enorme, cheia de bandeiras e abraços. As pessoas chegam sozinhas, em família, com amigos; ouve-se uma palavra linda repetidamente: camarada; bem, duas palavras, na verdade: "obrigada", que significa "gracias" e é o que está no coração de quem teve a oportunidade de desfrutar da 50.ª edição da Festa do Avante, em Lisboa, Portugal.
Durante três dias, as forças de esquerda de todo o mundo ultrapassaram todas as fronteiras; cada país representado trouxe as suas próprias causas para as transformar numa única, imensa e partilhada razão de luta. As bandeiras da Palestina e de Cuba, vítimas do fascismo, ondularam em braços que, ali, não eram estrangeiros, porque naquele pedacinho da Europa o mundo inteiro foi um único país: aquele que se levanta com os oprimidos, com os rebeldes, com aqueles que perseguem a utopia para além do horizonte.
Nada do que me tinham contado conseguiu minimizar a emoção destes dias, especialmente a de ouvir centenas, milhares de pessoas a repetir o meu lema, o nosso, aquele que tem sido o nosso credo mais profundo nos momentos mais difíceis: Pátria ou Morte! Venceremos! A ameaçadora Cuba não se corrige, não o pode fazer, continua a desafiar o imperialismo com o seu exemplo de resistência e a sua coragem à prova de tudo.
Cuba na Festa
Na Quinta de Atalaia, em Amora, no concelho do Seixal, é possível visitar quatro escenarios — ou “palcos”, como lhes chamam os portugueses —, onde a música, o cinema e o teatro reúnem milhares de espectadores; e quando falo de milhares, refiro-me a cada um destes auditórios. No espaço internacional, os stands apresentam os elementos mais significativos da cultura e da identidade de cada nação convidada.
A propósito, conversámos com José Ramón Saborido, embaixador da ilha em Lisboa: “Em primeiro lugar, devo transmitir uma saudação ao povo de Cuba, da nossa embaixada e aos cubanos que se encontram aqui a participar nesta importante actividade do Partido Comunista Português. Este é um evento que tem, este ano, um grande significado, porque estamos a celebrar o 50.º aniversário da Festa do Avante.”
“Aqui está presente uma representação extraordinária de todos os movimentos de solidariedade do mundo, dos partidos de todo o mundo e do povo em geral. É uma feira muito abrangente, onde estão representados todos os municípios, todos os núcleos, todos os elementos da solidariedade do país. E para nós é, sem dúvida alguma, um momento especial, porque grande parte dela se dedica também à solidariedade internacional e à solidariedade com Cuba. Há um programa de trabalho conjunto com muitas actividades, onde estão a ser debatidas questões essenciais sobre a situação internacional e tudo o que diz respeito a Cuba, ao bloqueio, ao Centenário do Comandante, que também estamos a celebrar nestes três dias do Avante. Por isso, é, sem dúvida alguma, um evento de grande importância para o país.”
A Associação de Amizade Portugal-Cuba acompanha a Embaixada e a delegação do nosso Partido Comunista neste evento, afirmou o diplomata: “É um apoio extraordinário para o país; todos aqueles que, de uma forma ou de outra, também prestam homenagem a Cuba: enviam-se contentores, medicamentos, e estamos realmente muito contentes porque esta foi para mim, na verdade, desde que estou aqui, a melhor festa do ‘Avante’ destes últimos anos”.
O stand da Maior das Antilhas está em constante movimento, seja para saborear o típico Mojito, seja para expressar um carinho que atravessa o oceano: “Cuba é muito conhecida aqui, muito mesmo. Aqui não se pode dar um passo sem que surja uma manifestação de solidariedade, de amizade, de apoio à defesa da nossa soberania, porque, precisamente, Cuba ocupa esse lugar pelo que representa para as pessoas em todo o mundo, agora mais do que nunca. Até mesmo a guerra que o inimigo nos trava fez com que esses sentimentos de solidariedade e de respeito pelo país se intensificassem. E, acima de tudo, diria eu, o exemplo que Cuba transmite de resistência permanente e de luta em defesa da justiça social para o nosso povo”.
Cuba não é apenas bem-vinda, é necessária
É o que afirma o vice-presidente da Associação de Amizade Cuba-Portugal, João Luís Gonçalves Frias Terreiro:
“É certo que sentimos muita falta de que Cuba esteja sempre presente no espaço internacional da Festa do Avante; na verdade, tem estado presente em quase todas. Cuba é o nosso foco, é a nossa estrela no mundo. Por isso, é muito importante vermos os cubanos aqui, a trabalhar connosco, e queremos também transmitir-lhes sempre uma mensagem muito forte de que não estão sozinhos no mundo, de que há muita gente, muitos milhões de pessoas que estão com Cuba e com a sua Revolução.”
·Esse é o nosso objectivo: denunciar o bloqueio que existe há mais de 60 anos e dizer a Cuba que não está sozinha. Não é um trabalho, é puro activismo. E há aqui um ditado em Portugal que diz: “quando se corre por prazer, não se fica cansado”, e o activismo em prol de Cuba é o nosso sentimento e a nossa vontade.
A música como um talismán…
Desde que começaram a soar os acordes do “Talismán de Cuba”, a distância geográfica e as diferentes línguas deixaram de ter importância; aquilo a que García Márquez chamara “o disparate bíblico da Torre de Babel” tornou-se realidade no Palco 1 de Maio da Festa do Avante: uma única linguagem, a da música, uniu, comoveu e fez dançar toda a gente ao compasso dos ritmos que chegavam como testemunho de uma pequena ilha, que sofre os ataques constantes do vizinho opressor, mas nunca perde a grandeza da sua essência, a capacidade ameaçadora de cantar e ser feliz no meio de qualquer tempestade.
Não era apenas boa música; as pessoas sentiram a energia de todo um povo traduzida em melodia, harmonia e ritmo. O que importa se a maioria dos milhares de espectadores não conseguia compreender as letras em espanhol? Dançaram e, tal como escreveu o colega português, quase cubano, Paulo Jorge Da Silva nas suas redes sociais:
“O concerto terminou, a multidão dispersou-se, mas a música ficou. Ficou no corpo, na memória, na certeza de que Cuba não se apaga — nem mesmo à distância. Ficou a prova de que a cultura é a maior trincheira da Revolução e de que viaja connosco, estejamos onde estivermos.”
Ficou a convicção de que os presentes na Festa do Avante gritaram em voz alta: Cuba vencerá.
Pode partilhar esta história nas redes sociais:
Fonte:



