Cuba

A amnésia do carrasco: quem são os que manuseiam a guilhotina?

«Mais uma semana, mais uma nova lista de “sanções” contra Cuba. É a guerra dos EUA e a sua ânsia de estrangular a nossa economia. Intensificam a agressão com o objectivo de causar ainda mais danos ao povo. Estamos perante um plano de carácter genocida denunciado na ONU há menos de uma semana», afirmou o Primeiro Secretário do Comité Central do Partido e Presidente da República, Miguel Díaz-Canel Bermúdez, nas suas redes sociais

Há quem diga que a memória é curta, que o cinismo é uma qualidade diplomática, independentemente de ser demonstrado no pódio da ONU, no gabinete do Secretário de Estado ou na própria Casa Branca.

Neste caso específico, não pouparam em nenhuma das duas coisas. Na segunda-feira, 13 de julho, a administração de Donald Trump anunciou um novo pacote de «sanções» contra dez entidades cubanas, entre as quais o Ministério do Turismo, o Grupo Empresarial de Comércio Externo (Gecomex), o Grupo Empresarial de Transporte Marítimo e Portuário (Gemar), as empresas energéticas Enetec e Coreydan, e também — como não poderia deixar de ser — as Milícias das Tropas Territoriais e a Associação de Combatentes da Revolução Cubana.

Seguindo o método de rigor, o Departamento de Estado, no seu comunicado, classifica-as como «instrumentos de repressão» e afirma que tudo isto faz parte de uma «iniciativa integral» para «pôr fim às atividades maléficas do regime cubano» e «modificar o seu comportamento».

Mas é que, apenas alguns dias antes, no palco da Assembleia Geral da ONU, o embaixador dos Estados Unidos, Mike Waltz, tinha declarado solenemente: «Não existe qualquer bloqueio norte-americano». Depois acrescentou, para que não restassem dúvidas quanto à sua genialidade rectórica: «O único bloqueio em Cuba é a guilhotina que o regime mantém sobre as cabeças do seu povo».

Mas, Senhor Embaixador: se não há bloqueio, o que são essas «sanções» que o seu próprio governo anunciou recentemente? Um acto de amor fraternal? Um gesto de solidariedade internacional?

Porque, sejamos sinceros, não é muito sério afirmar na tribuna que não existe um cerco económico e, no dia seguinte, o seu Departamento do Tesouro publicar uma nova lista de entidades «sancionadas».

Mas vamos por partes, pois o assunto é complexo. A mesma administração que agora «sanciona» as milícias populares e as empresas de combustível é a mesma que, desde janeiro, impôs um bloqueio petrolífero que deixou mais de nove milhões de cubanos às escuras – não uma vez, mas todos os dias.

É a mesma política que afugentou as empresas estrangeiras, que ameaçou os países fornecedores e que agravou a crise energética a níveis nunca antes vistos, nem mesmo nos piores momentos do «período especial».

O membro do Bureau Político do Partido e ministro dos Negócios Estrangeiros cubano, Bruno Rodríguez Parrilla, afirmou-o na ONU com a clareza que a razão e a dignidade conferem: entre março de 2025 e fevereiro de 2026, os prejuízos causados pelo bloqueio ascenderam a mais de 8 000 milhões de dólares, um recorde histórico.

Então, perguntamo-nos: se estão realmente preocupados com os cubanos, por que lhes negam combustível, comida e medicamentos? Não, não é o Governo cubano que mantém a guilhotina sobre os seus cidadãos; a guilhotina é fabricada em Washington, peça a peça, sanção a sanção, decreto a decreto, e deixam-na cair sobre um povo cujo único pecado foi recusar-se a renunciar à sua liberdade.

Não, não se trata de um cerco imaginário, é um crime contra a humanidade, e a comunidade internacional sabe disso: 136 votos na ONU – contra apenas nove – a favor do pedido de Cuba para abrir o debate sobre o bloqueio, mas, claro, para Washington, as maiorias não contam quando não lhes são favoráveis.

Fazem-no sabendo que o mundo o rejeita, que é ilegal à luz do direito internacional e que viola os princípios mais elementares da Carta das Nações Unidas.

Assim, quando o mundo lhes aponta a incoerência, repetem o mesmo discurso de sempre: «Cuba é uma ameaça, existem bases de espionagem chinesas e russas», algo que até o Pentágono desmentiu.

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Raúl Antoio Capote 

Raúl Antonio Capote Fernández (Havana, 1961) é um escritor, historiador, professor, investigador e jornalista cubano.  Jornalista, chefe de redacção do Granma Internacional

Fonte:

"Para quem está cansado da narrativa única." 🕵️‍♂️

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