
A China volta a jogar a sua carta mais delicada na nova escalada comercial com os EUA.
Em resposta às novas restrições impostas por Washington, Pequim voltou a colocar em evidência o seu poderoso controlo sobre as terras raras, um recurso estratégico do qual os Estados Unidos continuam a depender de forma crítica, apesar dos seus esforços para reduzir essa vulnerabilidade.
O conflito comercial entre os Estados Unidos e a China, que se tinha atenuado temporariamente após a visita de Donald Trump a Pequim, voltou esta semana a entrar numa fase de escalada.
Em resposta às novas medidas restrictivas de Washington, Pequim voltou a recorrer a uma das suas armas económicas mais poderosas: os elementos raros. E embora os Estados Unidos tenham vindo a tentar, há vários anos, reduzir a sua dependência crítica da China neste domínio, até agora não conseguiram uma mudança significativa.
O que aconteceu?
O Ministério do Comércio da China anunciou na segunda-feira a imposição de restrições à exportação que proíbem as empresas chinesas de fornecer a várias empresas norte-americanas produtos de dupla utilização, ou seja, produtos que podem ser utilizados tanto para fins civis como militares.
O Ministério explicou que a proibição tinha como objectivo «salvaguardar a segurança e os interesses nacionais e cumprir obrigações internacionais, como a não proliferação».
Ao mesmo tempo, o Ministério das Finanças chinês proibiu as entidades estatais de adquirirem produtos de 46 empresas norte-americanas, incluindo filiais de gigantes do sector da defesa dos EUA, como a Lockheed Martin, a Boeing, a General Atomics e a General Dynamics.
A medida surge duas semanas depois de o Pentágono ter incluído numa lista negra várias das empresas mais conhecidas da China devido às suas alegadas ligações ao Exército chinês. A lista actualizada inclui o gigante do comércio electrónico Alibaba Holdings, o gigante dos motores de busca Baidu e o fabricante de automóveis eléctricos BYD.
Destacando a sua liderança
A China ocupa posições-chave nas cadeias de abastecimento de elementos de terras raras. De acordo com dados da Bloomberg, cerca de 4 % do PIB dos EUA — aproximadamente 1,2 biliões de dólares — corresponde a sectores que dependem diretamente destes materiais.
Segundo salienta Christina Lu, analista da Foreign Policy, ao destacar duas empresas norte-americanas que desempenharam um papel fundamental no desenvolvimento das terras raras durante a administração de Trump — a MP Materials e a USA Rare Earth —, Pequim parece estar a demonstrar o seu poder e a realçar o alcance da sua influência na cadeia de abastecimento, num momento em que grande parte do mundo procura diversificar as suas fontes de receitas.
«A China está a dar um “tiro de aviso”», afirmou Bryan Bille, analista de políticas da Benchmark Mineral Intelligence.
Uma arma comprovada
Pequim quase triplicou a imposição de restrições à exportação nos últimos cinco anos, e esta não é a primeira vez que as terras raras entram em cena nas disputas comerciais.
“Recorde-se que os EUA já sofreram um duro revés por parte da China quando tentaram impor o «aumento drástico das tarifas» a Pequim no ano passado. Após um braço de ferro de aumentos tarifários, a China carregou no «botão nuclear» e restringiu a exportação para os EUA de oito elementos de terras raras chinesas, algo que significaria um golpe fatal para a indústria de alta tecnologia nos EUA, sobretudo no sector militar», afirmou à RT Marco Fernandes, membro do Conselho Civil do BRICS e analista geopolítico do meio de comunicação Brasil de Fato.
Embora seja possível que algumas indústrias norte-americanas consigam contornar qualquer interrupção no abastecimento, a maioria delas não dispõe de bons substitutos e algumas teriam de encerrar se as entregas fossem interrompidas.
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