Aos meus camaradas cubanos: o que aprendi convosco
"De um comunista português que descobriu, em Cuba, que a revolução se tece com fios de rum, dança e fraternidade."

Poupanças e a Espera, o Caminho para Cuba
Durante meses, começo a encher uma pequena lata de moedas, um mealheiro. Parece um gesto pequeno, quase infantil. Mas é o primeiro acto de um ritual que se repete há anos: juntar, cêntimo a cêntimo, a possibilidade de voltar a Cuba. Não vou como turista, nem como observador. Vou como quem volta a casa — a uma casa que não é minha por sangue, mas por escolha.
A Partida, Os Amigos, Cadeados Esquecidos e Abraços Apertados
Antes da partida há sempre um ritual, um jantar com amigos no restaurante da minha família. Menu? Comida cubana, fechamos as portas, e ficamos até de madrugada — a rir, a beber rum, a cantar “Hasta Siempre”. O dia seguinte.., o caminho para o aeroporto, A Sofia, minha companheira de luta, leva-me até ao aeroporto. Pelo caminho esqueço sempre um cadeado qualquer. Sai a Sofia a correr e aparece com um. É o amor e o companheirismo nos detalhes. Um beijo e um abraço de amor de uma mulher de armas… uma foto com a frase: “Já que me mandam para Cuba, aqui vou eu”. Mais um abraço apertado e um beijo… E depois, a porta das partidas. Sozinho, mas nunca realmente só, ainda sinto o calor do seu abraço e o sabor dos seus lábios.

O Amigo e Camarada Palestiniano em Madrid, o Taxista em Havana
Madrid, em casa do meu amigo palestiniano. Conhece-mo-nos algum dia num congresso por Cuba. Uma cama… comida, a conversa pela noite fora até à hora de sair, mais um abraço fraterno e de amizade de despedida. É a solidariedade transnacional em acção: dois lutadores contra o mesmo imperialismo, partilhando o pouco que têm.
Em Havana, um taxista, um velho conhecido espera-me. Passamos sempre pela Praça da Revolução. Reconheço cada esquina. O coração acelera.
A Chegada: 54 Escadas e um “Mi niño, por fin llegaste”
Ofélia, a minha mãe cubana, espera-me à porta. Um abraço que diz tudo. “Mi niño, por fin llegaste”. Depois, as 54 escadas — um segundo andar que parece um quarto. Subo com as malas, começo a suar o calor cubano começa a fazer das suas, mas subo as escadas a rir. Em casa, mais um abraço, um o reencontro com a minha mãe cubana, por fim sem mais saudades, estamos juntos, assino os papéis da casa de renta oficial. É burocrático, mas é também um contrato de afecto. Num tiro tomo um banho, troco de roupa, e saio disparado para a rua. Havana cheira a maresia, a diesel, a resistência.
Ritmos do Dia: Do Café do Eça de Queiróz ao Pabellón Cuba
Não faço planos. Caminho por Havana. Paro no café onde Eça de Queiróz foi cliente nos seus tempos de Cônsul em Havana. Tomo café, um casal ele toca piano e ela canta, entretanto sentam-se a meu lado…já nos conhecemos há anos. Termino o meu café e saio, compro cigarros ao viejo hermano.
Domingo, no Pabellón Cuba: há sempre concertos gratuitos, artesãos, camaradas reformados a dançar até de madrugada. Uma senhora de 78 anos, fundadora da dança de roda de casino, puxa-me para dançar. Eu, com “dois pés esquerdos”, rio-me com ela. A vida, em Cuba, não para aos 40, nem aos 80, os Camaradas João e Irene que contem a nossa epopeia de dançarinos.
Economia Moral: Pizzas, Rum e a Garrafa de Havana Club 7 Anos
No festival “Granma, Rebelde”, o Camarada e Amigo “Paquito, el de Cuba” quis abarrotar-me de pizzas, deve ter pensado como a Sofia, que estou todo escazelado, “é o que dá ser forte e rijo como um pero” . No final, alguém aparece com uma garrafa de Havana Club 7 anos e partilha-a, simplesmente. São gestos que não cabem na lógica capitalista. Aqui, a escassez não matou a generosidade — aprofundou-a. Aprendi que a revolução também se mede nisso: na capacidade de transformar a privação em partilha.
E foi esse mesmo o Camarada “Paquito, El de Cuba”, que me surpreendeu com um convite: participar num encontro de correspondentes de guerra cubanos que actuaram em Angola. Numa sala cheia de combatentes da palavra e da imagem, fui anunciado pelo nome e conduzido à mesa principal. Ali, perante de quem viveu a guerra com uma câmara ou um bloco de notas, falei sobre a presença portuguesa em Angola — não como historiador distante, mas como filho de um soldado português que também pisou aquele solo em tempos de conflito. Falei de memórias pesadas, de histórias que doem, mas que precisam ser ditas em voz alta para que nunca se repitam.
Dias depois, o Paquito bateu à minha porta em Havana. ‘Vamos ao cemitério’, disse. Fomos homenagear Juan Bacallao, o jornalista cubano tombado em Angola — e, com ele, todos os camaradas jornalistas caídos. Naquele silêncio quente do cementerio de Colón, entre campañas simples e bandeiras cubanas, entendi que a solidariedade também se faz de memória conjunta: honrar os mortos de uma revolução que não é a nossa por nascimento, mas que é nossa por escolha.”
Conversas Que São Trincheiras
À noite, no Malecón, encontro o vendedor de cervejas e a sua família. Conversamos pela madrugada fora. Falamos de tudo: do bloqueio, da Rússia, da SMO, do último concerto em Cuba. A política não é um tema separado — é o ar que se respira. Discutimos, discordamos, rimos. “Lo pasamos bién”, dizemos. E é verdade: a alegria é uma arma de resistência.
O Bloqueio na Pele: Uma Semana a Comer Frango, humanismo
Não há romantismos. O bloqueio dói. Já passei uma semana a comer só frango, ou pizzas cubanas — que não são iguais às do mundo capitalista.
A minha mãe cubana cuidou da própria mãe até ao fim da sua vida. Enquanto isso, no Ocidente, os idosos são depositados em lares como lixo humano.
Cuba ensinou-me isso, os valores: a humanidade e sabedoria como valor revolucionário.
O Momento Mais Difícil: A Despedida
Voltar a Lisboa é uma ferida. Em Cuba, a luta é clara, os camaradas estão ao lado. Aqui, a solidão política às vezes é mais dura que o calor de Havana. Mas volto diferente. Volto com a sabedoria do Paquito, a energia da dançarina de 78 anos, a garrafa de rum partilhada. Volto com energia renovada para a luta — porque foi isso que aprendi com o povo cubano.
O Reencontro e o Recomeço
Há a imagem que guardo na memória: um chapéu cubano sobre a minha cabeça, braços que se cruzam, sorrisos que não cabem no enquadramento. Em Madrid, reencontro o camarada palestiniano — dois rios de luta que se encontram num aeroporto. Em Lisboa, o abraço da Sofia não apaga a saudade, mas afirma o regresso.
E no dia seguinte, a Festa do Avante.
Conto as histórias que aprendi no Malecón. Conto histórias com os vendedores de cerveja, a dançarina de 78 anos, os jornalistas que honraram os caídos em Angola. Partilho o fogo que Cuba me entregou — não como um facho solitário, mas como brasa para acender outras fogueiras.
Porque Cuba não é um destino; é um reactor.
Cuba recarrega as minhas baterias para um ano inteiro de luta. E é esse presente — feito de amor, resistência, rum, pizzas, de abraços que falam de revolução — que só o povo cubano me poderia dar.
Levo-os no peito.
E volto à luta, com o som do mar a bater no Malecón e Cuba no coração.
Cuba Não é um Lugar, é um Compromisso
Cuba deu-me uma família. Deu-me a consciência de que ser comunista no sofá é fácil; difícil é defender uma revolução sob bloqueio há 62 anos. Deu-me a medida real da fidelidade. E, sobretudo, deu-me a certeza de que, no fim da vida, o que levamos são as recordações, a luta e o amor pelo próximo.
Por isso, este artigo é uma carta de gratidão.
Aos meus camaradas e família cubana — do vendedor de cervejas do Malecón ao director do Cuba Debate, da Ofélia ao Paquito — obrigado por me fazerem sentir um de vocês.
Patria o muerte, venceremos

Um militante português com o coração dividido entre duas trincheiras.
Pela soberania de Cuba. Pelo fim do bloqueio. Pela humanidade que resiste.



