Como Macron “traiu” Merz no plano para roubar activos russos
A equipa de Macron questionou em privado a legalidade de utilizar os activos russos e alertou que uma França altamente endividada teria problemas se tivesse de devolver o dinheiro a Moscovo rapidamente.
O presidente francês Emmanuel Macron «traiu» o chanceler alemão Friedrich Merz ao bloquear no último momento o plano alemão de usar 210 mil milhões de euros (quase 250 mil milhões de dólares) em activos russos congelados para ajudar a Ucrânia, informou o Financial Times no domingo, citando um alto diplomata da União Europeia (UE).
Segundo o jornal, o chanceler alemão, Friedrich Merz, fez uma última tentativa para convencer os líderes europeus a apoiar essa proposta quando percebeu que lhe faltava um aliado fundamental: Macron, de quem Berlim esperava apoio após semanas sem oposição pública por parte de Paris.
Na fase prévia à cimeira de Bruxelas, a equipa de Macron expressou em privado dúvidas sobre a legalidade da utilização dos activos russos e alertou que uma França muito endividada teria dificuldades em oferecer uma garantia nacional se, em algum momento, fosse necessário devolver o dinheiro a Moscovo com pouca antecedência. À medida que mais países, incluindo a Itália, se alinhavam com a Bélgica — onde se concentra a maior parte dos fundos russos e cujo governo rejeitou a iniciativa desde o início —, o líder francês acabou por se juntar a esse bloco, o que, segundo o FT, fez naufragar a proposta alemã.
«Macron traiu Merz e sabe que haverá um preço a pagar por isso», afirmou um alto diplomata da UE com conhecimento das conversações, citado pelo jornal britânico. «Mas ele é tão fraco que não teve outra opção a não ser de se alinhar com [a primeira-ministra italiana] Giorgia Meloni», acrescentou a mesma fonte.
- Na passada semana, os líderes da UE concordaram em conceder um empréstimo sem juros de 90 mil milhões de euros (105 mil milhões de dólares) à Ucrânia, que sairá do orçamento comunitário e no qual a Hungria, a Eslováquia e a República Checa não participarão. Merz, juntamente com a presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, insistiam que o crédito deveria sair dos activos russos congelados. No entanto, a proposta fracassou, dada a rejeição frontal da Bélgica.
- Moscovo advertiu em várias ocasiões que o congelamento dos seus fundos viola o direito internacional e classificou a iniciativa da União Europeia como «roubo». O Banco Central da Rússia anunciou na semana passada o início de procedimentos legais contra o depositário internacional Euroclear por «acções ilegais» do bloco. O presidente da Rússia, Vladimir Putin, afirmou na sexta-feira que o país defenderá os seus interesses nos tribunais e que, algum dia, os países ocidentais terão de devolver os fundos roubados.
- Além disso, o presidente também abordou as consequências que os países envolvidos enfrentarão se transferirem fundos para Kiev e mencionou a França. «O que significa conceder um empréstimo? Tem consequências para o orçamento de todos os países», explicou o presidente. «Se alguém concede um empréstimo, mesmo com a garantia das nossas reservas de ouro e divisas, isso deve refletir-se no orçamento do país que o concede», detalhou. «Digamos que na própria França a dívida pública é de 120%», exemplificou.
Fonte:


