A Gota, o Oceano e o Machete
Uma gota. Pequena. Quase invisível. Uma gota que, sozinha, não faz ondas, não faz ruído, não faz história. Apenas existe. Apenas persiste. Apenas resiste.

Mas o oceano, aprendi, não se faz de gigantes isolados. Faz-se de gotas. Milhões delas. Gotas que se juntam sem saber que estão a formar a corrente. Gotas que, sem alarde, vão preenchendo o espaço; até que, um dia, o oceano está ali. Imenso. Inegável.
E no meio desse oceano, há quem pegue no machete. Não um machete de aço forjado em guerra. Um machete de trabalho, de persistência, de convicção. É o machete de Maceo; o homem que não pedia licença, que não esperava ordens, que simplesmente pegava na ferramenta e lutava. Com ela, abria caminho na floresta. Com ela, enfrentava o inimigo. Com ela, não se vergava.
O nosso machete, hoje, tem muitas formas. É uma página digital que denuncia o bloqueio. São os artigos traduzidos nas madrugadas, enquanto o mundo dorme. São as entrevistas que dão voz a quem a tem, mas precisa de um palco. São as esperas por navios no horizonte, as caminhadas silenciosas pela solidariedade. Não é um machete que se vê. É um que se sente. Quem precisa, sabe que ele está ali – afiado, pronto, disponível.
A Revolução é um Oceano que se faz de Gotas
O 65.º aniversário da proclamação do carácter socialista da Revolução Cubana, celebrado a 16 de abril, não foi apenas um marco histórico. Foi a prova viva de que o oceano da resistência se renova a cada geração. Milhares de cubanos reuniram-se em Havana; jovens, estudantes, trabalhadores, veteranos de Playa Girón e combatentes das Forças Armadas Revolucionárias. Estavam ali as gotas de ontem e as gotas de hoje. Juntas, formavam a mesma corrente.
Perante a multidão, o presidente Miguel Díaz-Canel evocou a epopeia de 1961. Descreveu aquele dia como um momento que «mudou a história, e não apenas para Cuba». Condenou o bloqueio criminoso que há mais de 60 anos estrangula a ilha, agora agravado por um bloqueio energético de alcance extraterritorial. E deixou claro: Cuba é um Estado ameaçado que não se rende. Que resiste. Que cria. Que vencerá.
A Gota que não se Rende
As palavras de Fidel, evocadas naquela cerimónia, soam como um eco de todos os tempos:
«O que os imperialistas não nos conseguem perdoar é o facto de estarmos aqui, debaixo do seu nariz, e termos feito uma Revolução socialista.»
O que eles não perdoam é a dignidade. A coragem. A firmeza ideológica. O espírito revolucionário de um povo.
E esse povo, camarada, é feito de gotas. Gotas que se recusam a secar. Gotas que, mesmo sob o sol mais forte, mantêm a sua consistência. Gotas que, juntas, formam um oceano que o império não consegue atravessar.
O Machete que se Forja na Solidariedade
O machete de Maceo, hoje, tem muitas formas. Para uns, é a página digital que denuncia o bloqueio. Para outros, a tradução de artigos que trazem a verdade sobre Cuba a quem não a conhece. Para muitos, é a simples disponibilidade para estar na rua, na manifestação, no grupo de solidariedade, na conversa que planta uma semente.
No 65.º aniversário, milhares de cubanos voltaram a pegar no machete. Não o machete de aço – embora Díaz-Canel tenha exortado os cubanos a estarem prontos para pegar em armas se uma invasão se concretizar. Pegaram no machete da memória, da resistência pacífica, da determinação inabalável. E ao fazê-lo, mostraram ao mundo que o oceano não se esgotou. Que as gotas continuam a juntar-se. Que o machete continua afiado.
Milhões de gotas
Somos milhões de gotas que, todos os dias, dedicam horas à luta. Sobre os que não estão no palco, mas constroem o oceano. Sobre os que, mesmo sem aplausos, continuam.
Porque a luta, camarada, não é de um. É de todos. E cada um, à sua maneira, empunha o seu machete. Uns com o teclado. Outros com a voz. Outros com a simples coragem de estar onde doí.
Continuo a sentir-me uma gota. Mas aprendi que as gotas, quando se juntam, formam o oceano. E que o machete, quando é empunhado com lealdade, corta mais fundo do que qualquer espada.
Todas as gotas, juntas, formam o oceano. E o oceano, camarada, não se quebra.
Patria o muerte! Venceremos!
E que as gotas continuem a juntar-se – e o oceano, a crescer.

Paulo Jorge da Silva | Um activista português que viu, cheirou e sentiu o bloqueio. Pela soberania de Cuba. Pelo fim do cerco. Pelos milhões que, em silêncio, já decidiram de que lado estão. Porque os princípios, como Fidel ensinou, não se negoceiam.


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