Milhões de Gotas: O Oceano Invisível da Solidariedade com Cuba
No último fim de semana, enquanto via as imagens e videos das iniciativas de solidariedade com Cuba por todo o Mundo. Não foi uma revelação. Foi uma constatação. Milhões de pessoas, anónimas na sua maioria, juntaram-se. Sem palco. Sem holofotes. Sem lugar na fotografia ou nos videos. Apenas com a certeza de que, juntas, são um oceano.
Sou uma dessas gotas. Uma gota que já perdeu a conta às travessias do oceano para Cuba. Uma gota que, em momentos de dificuldade, sentiu na pele a solidariedade do povo cubano. Uma gota que, hoje, se junta a outras gotas para dizer: Cuba não está sozinha.
Este artigo é o registo dessa constatação. É a homenagem às gotas anónimas. É o grito de quem recusa aceitar que o bloqueio continue a matar. E é a certeza de que, quando as gotas se juntam, o oceano – esse, camarada – não se quebra.

No último fim de semana, foram várias as iniciativas de solidariedade com Cuba por todo o Mundo. Milhões de pessoas juntaram-se. São as gotas que enchem este imenso oceano. Na sua grande maioria, são gotas anónimas, sem rosto. Mas que, juntas, mostram ao Mundo que estão com Cuba.
Olhar para este imenso oceano de solidariedade enche o coração. Fazer parte dele – saber que sou uma dessas gotas – enche-me de orgulho. Mas também me impõe o dever de continuar esta luta mediática contra o bloqueio. Uma missão que me foi atribuída num qualquer verão de Agosto, em Havana.
A Herança da Solidariedade
A solidariedade que hoje vemos, porém, não nasceu do nada. É a herança de uma cultura. Como nos lembra a revista cubana La Jiribilla, a solidariedade faz parte da essência da cultura cubana. Ela não se resume a palavras de apoio, mas materializou-se em acções concretas que mudaram a história do continente africano, como a epopeia de Cuito Cuanavale. Foi lá que, nas palavras do próprio Nelson Mandela, os cubanos “vieram como médicos, professores, soldados, mas nunca como colonizadores”. Esta é a tradição que está na génese do oceano de solidariedade que hoje se junta em torno da ilha.
Todos os povos do Mundo merecem a solidariedade dos povos do Mundo. Mais do que nunca, o império alçou as suas garras e mostra o seu rastro de morte ao assassinar milhares de pessoas com as suas guerras contra a humanidade. Mas voltemos a Cuba.
Já perdi a conta às viagens. Em todas, fui recebido com carinho e amizade. Ao longo dos anos, foram-se construindo laços de verdadeira amizade, laços familiares com pessoas que recordo todos os dias. Em momentos de dificuldade minha, fui brindado com solidariedade do povo cubano. Basta dizer que há uma necessidade e, minutos depois, alguém aparece alguém com a solução.
As minhas dificuldades, porém, são mínimas se comparadas ao que o povo cubano tem vindo a sofrer ao longo de mais de 60 anos devido ao bloqueio genocida e criminoso por parte do império.
A Guerra Cognitiva e a Mentira como Arma
A batalha que travamos não é só pelo petróleo ou pela comida. É, acima de tudo, uma guerra cognitiva. O império percebeu que, para destruir Cuba, não bastam bombas ou decretos. É preciso dominar o sentido, manipular a realidade e fabricar consensos. As falsas narrativas sobre um “governo falido” ou um “país colapsado” não são erros de análise; são munições numa guerra que não conhece tréguas. As máquinas de propaganda transnacionais trabalham a tempo inteiro para nos convencer de que a solidariedade é inútil e a resistência é impossível. Mas a verdade, como vemos todos os dias, é mais forte do que a ficção que tentam vender.
Enquanto a máquina de propaganda do império nos quer convencer de que Cuba é um “Estado falido”, a realidade dos factos teima em mostrar o contrário. As acusações de Narco Rubio e as ameaças de Trump sobre uma suposta “Cuba colapsada” não passam de um espetáculo de má fé, fabricado para justificar o que realmente interessa: a intervenção e o controlo. O objectivo não é salvar os cubanos, é humilhá-los. É quebrar a resistência de um povo que, durante mais de 60 anos, construiu sistemas públicos de saúde e educação gratuitos e de qualidade. Mas, como afirma o artigo de Cuba Deabate, Cuba: ¿gobierno fallido?, o conceito de “Estado falido” é uma “etiqueta de moda”, um “cajón de sastre” que se usa para justificar o injustificável. Cuba não está indefesa, e a sua força reside precisamente no que o império mais odeia: a sua cultura, a sua dignidade e a solidariedade internacional que continua a receber.
Romper o Cerco Energético
Mais do que nunca, é necessário que os povos do Mundo sejam solidários com Cuba. Não falo apenas de ajuda humanitária. Neste momento, o estrangulamento é também ao petróleo. O mundo sabe que Cuba precisa de petróleo para manter em funcionamento as suas centrais eléctricas, mas também para o dia a dia: hospitais, ambulâncias, a sociedade inteira necessita desse vil líquido que tantas guerras trouxe ao Mundo.
A Rússia cumpriu a sua missão e já afirmou que irá continuar a fornecer petróleo a Cuba. É necessário e obrigatório que os países do Mundo formem uma cadeia de fornecimento a Cuba e rompam, de uma vez por todas, com o bloqueio energético imposto pelo império.
A Força do Oceano
Somos milhões de gotas. Umas visíveis, outras anónimas. Umas que ocupam o palco, outras que se escondem na sombra. Mas todas essenciais. E o oceano, camarada, não se quebra.
Homenagem ao Povo Heroico de Cuba
E agora, camarada, uma palavra para os que estão na linha da frente. Para os que, há mais de 60 anos, resistem ao bloqueio mais longo e mais cruel da história. Para os que, sem petróleo, mantêm os hospitais abertos. Para os que, sem comida, partilham o pouco que têm. Para os que, mesmo no escuro, acendem uma vela – e com ela, uma esperança.
Este artigo é para vós, povo cubano. Para a vossa dignidade inabalável. Para a vossa capacidade de, mesmo sob o cerco, continuardes a ser farol. Vós sois a prova de que a resistência não é uma palavra – é uma prática. E vós sois, também, o oceano que nos inspira.
Não estamos aqui para vos salvar. Não precisais de salvadores. Estamos aqui para remar convosco. Para quebrar o cerco. Para que o mundo saiba que Cuba não está sozinha.
Por cada médico que opera à luz de um telemóvel. Por cada professor que ensina sem giz. Por cada mãe que divide o prato. Por cada criança que aprende, à luz de uma vela, que a liberdade não se negocia.
Patria o Muerte, povo cubano. Sempre.
E que as gotas – as vossas, as nossas – continuem a juntar-se. E que o oceano, esse, nunca se quebre.
Patria o Muerte, Venceremos

Paulo Jorge da Silva | Um activista português que viu, cheirou e sentiu o bloqueio. Pela soberania de Cuba. Pelo fim do cerco. Pelos milhões que, em silêncio, já decidiram de que lado estão. Porque os princípios, como Fidel ensinou, não se negoceiam.

