Aliança ou Cálculo Estratégico
Hitler nunca escondeu as suas intenções nem a sua visão ideológica. Será plausível acreditar que a liderança soviética, incluindo os seus serviços de informação, desconhecia aquilo que o próprio Hitler proclamava publicamente há anos?
Resposta a um comentário:
Recebi um comentário em que se afirmava que a Alemanha nazi teria sido aliada da URSS. Em resposta, escrevi um comentário com a minha opinião sobre o assunto.
Embora não considere que o texto seja suficientemente aprofundado para abordar um tema tão complexo, decidi publicá-lo neste artigo porque penso que contém algumas informações e reflexões que podem ser úteis para a discussão.
Acho importante abordar este tema com frontalidade, uma vez que existe uma forte campanha de reinterpretação dos acontecimentos daquele período histórico, frequentemente com o objectivo de desacreditar a Rússia actual e promover uma narrativa anticomunista.
Comentário:
“Propaganda barata pró Russa. Foi um ditador tão sanguinário como Hitler, aliás chegaram a ser aliados no início da segunda guerra mundial durante 2 anos. Calado eras um poeta.”
A minha resposta:
“Boa tarde. Não sei exactamente o que entende por “propaganda barata”, mas aproveito esta oportunidade para abordar um mito muito difundido e sobre o qual, infelizmente, poucos fazem uma pesquisa séria.
Em primeiro lugar, suponho que se esteja a referir ao Pacto Molotov–Ribbentrop. Se esse pacto for apresentado como prova de uma alegada aliança entre a Alemanha nazi e a URSS, então cabe perguntar: como devemos interpretar outros acordos assinados entre a Alemanha nazi e as potências ocidentais, como o Pacto de Quatro Potências (1933), o Acordo Naval Anglo-Germânico (1935) ou o Acordo de Munique (1938)?
Se a simples existência de um tratado ou acordo diplomático for suficiente para demonstrar uma aliança política e ideológica, então seria necessário aplicar o mesmo critério a todos estes casos.
Em segundo lugar, mesmo admitindo, para efeitos de argumentação, que todos estes países foram “aliados” da Alemanha por terem assinado acordos com ela, existe um facto frequentemente ignorado. Numa conversa entre Dimitrov e Molotov, Dimitrov pergunta:
“Estamos a seguir uma política de desmoralização das tropas de ocupação alemãs nos vários países e pretendemos intensificar essas operações. Isso não interferirá com a política soviética?”
Ao que Molotov responde:
“É claro que é isso que devemos fazer. Não seríamos comunistas se não seguíssemos esse caminho. Apenas deve ser feito discretamente.”
Esta troca de palavras sugere que, apesar da existência de relações diplomáticas formais entre a URSS e a Alemanha, a hostilidade ideológica e política ao nazismo permanecia intacta. Dificilmente isto corresponde à imagem de uma aliança genuína entre dois regimes que partilhariam objectivos comuns.
Por fim, gostaria de colocar uma questão simples. Como é que Stalin — frequentemente descrito como uma figura profundamente desconfiada e paranoica — poderia ter depositado verdadeira confiança num Estado liderado por alguém que defendia abertamente posições anticomunistas, antissoviéticas e antieslavas?
Hitler nunca escondeu as suas intenções nem a sua visão ideológica. Será plausível acreditar que a liderança soviética, incluindo os seus serviços de informação, desconhecia aquilo que o próprio Hitler proclamava publicamente há anos?”
Pode partilhar esta história nas redes sociais:

