MundoRússia

Como o Ocidente retoma, discretamente, o diálogo com a Rússia

Após o fracasso das tentativas de isolar a Rússia, que se arrastam há anos, representantes das duas maiores economias ocidentais, entre os quais um representante de uma delegação alemã e um funcionário da Administração Trump, participarão no Fórum Económico de São Petersburgo.

Esta semana tem início na Rússia o Fórum Económico de São Petersburgo (SPIEF), um dos eventos empresariais mais importantes, que tradicionalmente reúne representantes do mundo empresarial e da comunidade de especialistas de diferentes países do mundo.

Para além de um intenso programa de negócios, das intervenções do presidente do país e das negociações de alto nível, o fórum deste ano destaca-se em relação aos dos anos anteriores: pela primeira vez em muito tempo, espera-se a participação de um representante da actual Administração norte-americana, bem como de uma delegação da Alemanha.

Os especialistas salientam que este facto não é apenas um pormenor protocolar, mas reflete uma tendência mais profunda para a tomada de consciência do fracasso da política de isolamento e a compreensão da necessidade de restabelecer o diálogo com Moscovo.

Um funcionário do governo Trump no fórum

Na semana passada, soube-se que, pela primeira vez em muito tempo, um funcionário da Administração norte-americana irá participar no fórum. Trata-se de Rodney Mims Cook Jr., presidente da Comissão de Belas Artes dos EUA. Na qualidade de presidente, tem sido o principal responsável encarregado de supervisionar a aprovação da ampliação do salão de baile da Casa Branca de Trump.

Rodney Mims Cook Jr., presidente da Comissão de Belas Artes dos EUA Michael Warren / AP

“A comissão organizadora do fórum e o Departamento de Estado confirmaram que fui convidado para a sessão plenária e para o discurso do presidente Putin. E estarei presente”declarou à agência russa RIA Novosti. 

Além disso, no âmbito do fórum estão previstos dois eventos bilaterais entre a Rússia e os Estados Unidos: um diálogo empresarial e uma sessão cultural, organizados com a participação da Câmara de Comércio dos Estados Unidos e da Fundação Roscongress.

A Alemanha tenta manter os laços

Os organizadores do SPIEF destacam a participação de representantes de mais de 130 países, entre os quais, de forma inesperada, se encontra também uma delegação empresarial alemã.

«Acima de tudo, tendo em vista o período pós-cessar-fogo, queremos, tal como outros grandes países ocidentais, manter os laços económicos com a Rússia e proteger os mais de 100 mil milhões de activos alemães na Rússia», afirmou  Matthias Schepp, presidente do Conselho de Administração da Câmara de Comércio Externo Germano-Russa, à agência Dpa.

De acordo com um novo inquérito realizado pela Câmara junto dos seus 750 membros sobre o clima empresarial, quase todas as empresas tencionam permanecer na Rússia, uma vez que consideram que este mercado é importante.

Devido às sanções ocidentais contra Moscovo, o volume do comércio entre a Alemanha e a Rússia caiu, em 2025, para menos de 10 mil milhões de euros (11,6 mil milhões de dólares). Antes do início do conflito na Ucrânia, a Alemanha era o maior parceiro comercial europeu da Rússia: o intercâmbio comercial ascendeu a 59,7 mil milhões de euros (72 mil milhões de dólares) em 2021 e atingiu um máximo de 80 mil milhões de euros (93 mil milhões de dólares) em 2012.

Ao mesmo tempo, pouco mais de um terço das empresas da Câmara de Comércio Alemã considera que as sanções ocidentais prejudicam mais a Alemanha do que a Rússia. Mais de metade afirmou que prejudicam igualmente tanto a Alemanha como a Rússia.

À pergunta sobre se a Alemanha deveria retomar a importação de gás e petróleo da Rússia, 65 % responderam “sim, quanto antes, melhor”, enquanto 31 % responderam “sim, mas só depois de terminarem as hostilidades” entre Kiev e Moscovo.

Neste contexto, o enviado especial da Presidência russa para a cooperação em matéria de investimento e economia com países estrangeiros, Kiril Dmítriev, afirmou que «os líderes empresariais alemães estão a mostrar o caminho a seguir aos políticos e burocratas alemães», e salientou ainda que a indústria alemã perdeu competitividade e está a ser destruída devido ao aumento de 30 a 40 % nos custos da energia, em consequência do corte do fornecimento energético russo.

O fracasso das tentativas de isolar a Rússia

Segundo declarou à RT Stanislav Tkachenko, doutor em Ciências Económicas e professor da Universidade Estatal de São Petersburgo, na Europa começa-se a compreender o quão errado é entrar em conflito com a Rússia.

«A tomada de consciência de que os poderes públicos dos países europeus entraram em conflito com a Rússia, contrariando os interesses dos povos dos Estados europeus e das suas empresas está a intensificar-se», afirmou o especialista.

No entanto, quando a economia russa resistiu à pressão das sanções e apresentou um ritmo de crescimento acelerado, a frente dos países europeus começou a perder a sua firmeza, sublinhou.

«A militarização da interdependência económica, ou seja, o uso das amplas relações económicas dos países ocidentais com a Rússia para lhe infligir um dano inaceitável, revelou-se uma estratégia sem saída. As empresas ocidentais que se juntaram aos esforços para desferir um golpe estratégico à Rússia acabaram por dar um tiro no próprio pé, ou seja, sofreram perdas directas  e, além disso, perderam o acesso ao promissor mercado russo, cedendo o seu lugar nesse mercado a empresas da Turquia, do Médio Oriente, da China, da Índia e dos países da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN)», salientou Tkachenko.

Tento manter as posições

Segundo o professor, a presença de empresários alemães no fórum é «o primeiro sinal» de um novo processo que está a ganhar impulso: as tentativas de algumas empresas de manter a sua presença na Rússia e de outras de regressar ao mercado russo de bens e serviços.

Ao mesmo tempo, salientou que as grandes empresas só se mostram dispostas a colaborar com Moscovo após o fim do conflito; no entanto, este argumento não vai funcionar com a Rússia.

«Para a Rússia, as suas autoridades e o setor empresarial, este argumento deixou de surtir efeito há já bastante tempo. Para o nosso país, a vida económica não pára nem por um único dia.»

«O círculo de parceiros dos Estados que a Rússia não incluiu entre os «hostis», ou seja, aqueles que não aplicaram medidas sancionatórias ilegítimas contra nós, está em constante expansão.  E isto deixa nervosas as empresas ocidentais, que tentam encontrar brechas para manter o diálogo com a Rússia pelo menos a um nível mínimo. Como, por exemplo, enviando os seus representantes ao Fórum Económico de São Petersburgo», concluiu.

Pode partilhar esta história nas redes sociais:

Fonte:

"Para quem está cansado da narrativa única." 🕵️‍♂️

A cobertura mediática sobre Cuba e a América Latina é dominada por um só lado. Nós mostramos o outro. Receba análises geopolíticas que fogem do mainstream ocidental.

Não enviamos spam! Leia a nossa política de privacidade para obter mais informações.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *