Artigos de OpiniãoPaulo Da Silva

Cuba no cerco cognitivo: a guerra que não vemos e o povo que não se rende

Há uma guerra que não se vê. Não se ouve. Não cheira a pólvora nem a sangue. Mas mata – devagar, silenciosamente, sem que o mundo perceba.

É a guerra cognitiva. A guerra das narrativas, da desinformação, do controlo da consciência. O império percebeu, há décadas, que para destruir Cuba não bastam mísseis ou decretos. É preciso primeiro desconstruir a ideia de Cuba. Convencer o mundo de que a ilha é uma ameaça, um “Estado falido”, um regime que só se sustenta pela força. É preciso fabricar consensos, manipular realidades, silenciar vozes.

E é aí que entramos nós.

Cuba Soberana nasceu para ser uma trincheira. Não uma trincheira de aço e betão, mas de palavras, de traduções, de artigos, de entrevistas, de madrugadas passadas a construir pontes entre Portugal e Cuba. É uma gota no oceano da solidariedade. Mas as gotas, quando se juntam, formam ondas. E as ondas, quando são muitas, derrubam muralhas.

Este artigo é um olhar sobre essa guerra invisível. Sobre o cerco cognitivo que Washington tece contra Cuba, sobre as ameaças de Trump, sobre a resposta firme de Díaz-Canel, sobre a resistência de um povo que não se rende – e sobre o papel da solidariedade internacional nesse combate.

Não é um artigo de análise distante. É um testemunho. O testemunho de quem, há anos, atravessa o oceano para sentir o bloqueio na pele; é um artigo para que a verdade chegue a mais gente.

A guerra cognitiva não é apenas dos poderosos. É também nossa. E nós, estamos nela. Com a página, com a voz, com a verdade.

A guerra invisível que já começou

A batalha que se trava em torno de Cuba não é apenas económica ou militar. É, sobretudo, uma guerra cognitiva. O império percebeu que, para destruir a ilha, não bastam bombas ou decretos. É preciso dominar o sentido, manipular a realidade e fabricar consensos. As falsas narrativas sobre um “governo falido” ou um “país colapsado” não são erros de análise; são munições numa guerra que não conhece tréguas.

As máquinas de propaganda transnacionais trabalham a tempo inteiro para nos convencer de que a solidariedade é inútil e a resistência é impossível. Mas a verdade, como vemos todos os dias, é mais forte do que a ficção que tentam vender.


Cuba no banco dos réus: a farsa do Congresso dos EUA

O artigo “Cuba en el banquillo: el Congreso y la política de Florida” descreve uma cena que resume o estado das relações entre Washington e Havana. Numa audição sobre a guerra no Irão, Mario Díaz-Balart desviou o foco para Cuba. As perguntas foram simples, quase telegráficas: “¿Qué significa Cuba para la seguridad de Estados Unidos?”. As respostas do Secretário de Defesa, Pete Hegseth, foram igualmente breves: “S픓Correcto”“Es un Estado fallido”. Não houve argumentos, nem cifras, nem contexto. Mas essa economia de palavras cumpriu um objectivo político: converter em registo oficial a narrativa de Cuba como ameaça hemisférica. A consequência, é um cerco mais estreito, uma pressão internacional que dificulta qualquer tentativa de negociação em condições de igualdade.

Para combater esta farsa junta-se a produção constante de artigos de opinião e análises de figuras como Raúl Antonio Capote, cujos textos — publicados no jornal Granma — expõem com clareza a estratégia do império e a resiliência da Revolução. Capote, veterano do jornalismo combativo, recorda que a situação actual faz lembrar a época de Ronald Reagan, quando a ameaça de invasão era real. As suas análises de cenários possíveis para as relações Cuba-EUA em 2026 ultrapassam o absurdo: a ordem executiva de Trump que considera Cuba um perigo para a segurança nacional revela, na verdade, o desespero de quem já não tem argumentos.


A nova ordem executiva: Trump aperta o cerco

A 1 de Maio de 2026, Donald Trump assinou uma nova Ordem Executiva que amplia significativamente o alcance do criminoso bloqueio económico contra Cuba, dando poderes extraordinários ao Secretário de Estado Rubio para perseguir e castigar qualquer entidade ou indivíduo que faça negócios com a ilha. O objectivo, nas palavras do próprio documento: bloquear quem opere nos sectores de energia, mineração, defesa ou segurança de Cuba, ou quem preste apoio material ao governo cubano.

Mais sanções secundárias. Mais perseguição a bancos e empresas estrangeiras. Mais cerco. Tudo para poder dizer, depois, que em Cuba há um “Estado falido”. Mas o que a nova ordem executiva omite, é que desde 1960 os Estados Unidos mantêm uma guerra económica cruel e desapiedada para matar de fome e doença os cubanos.

A mesma ordem executiva, contudo, não saiu do nada. Foi uma resposta directa a dois factos que Trump não conseguiu digerir: as marchas do povo de Cuba a 1 de Maio, onde centenas de milhares de pessoas demonstraram o seu apoio maioritário à Revolução; e os seis milhões e meio de assinaturas recolhidas no movimento “Mi firma por la Patria”. Estes dois eventos, são a prova mais visível de que as pressões ianques e a sua guerra mediática — paga com milhares de milhões de dólares — fracassaram estrepitosamente. O povo cubano continua na rua, com a fronte erguida, defendendo a sua independência.


Díaz-Canel responde: “Cuba não ameaça, Cuba é ameaçada”

A 12 de Maio de 2026, o presidente Miguel Díaz-Canel escreveu nas redes sociais uma frase que devia ser gravada em pedra:

“Em mais de seis décadas de Revolução socialista, a 90 milhas dos EUA, nunca partiu deste território uma única acção ofensiva contra a segurança nacional daquele país.”

E acrescentou: Cuba tem sido alvo de inúmeras acções ofensivas orquestradas a partir desse território, ao longo de todos estes anos de Revolução, que deixaram milhares de cubanos feridos ou mortos». O mandatário foi ainda mais longe: «Apontar Cuba como uma ameaça é, em primeiro lugar, cínico. Tanto pelo que a história prova como pelo que os factos demonstram neste preciso momento: todos os dias surge uma nova ameaça dos EUA contra Cuba». E concluiu com uma afirmação que resume tudo: «Cuba não ameaça, nem desafia, mas também não teme”.

As palavras de Díaz-Canel ecoam as dos seus antecessores. Lembram Fidel, que no auge da Guerra Fria afirmou: “O que os imperialistas não nos conseguem perdoar é o facto de estarmos aqui, debaixo do seu nariz, e termos feito uma Revolução socialista”. O que eles não perdoam é a dignidade. A coragem. A firmeza ideológica. O espírito revolucionário de um povo.


Cuba não é a “roda de substituição”

O artigo da Al Mayadeen é ainda mais incisivo. Com a derrota da “vitória inventada” no Irão, Cuba não pode ser a “rueda de recambio” de Trump, a roda de substituição para a derrota que sofreu no terreno iraniano. A ilha não vai deixar‑se utilizar nesse sentido. Os seus líderes estão a alertar o mundo, em particular o povo norte‑americano, para o propósito maquiavélico de Trump: manter os seus compatriotas entretidos e stressados, afastados do caso Epstein, das suas malversações ao fisco e de montes de delitos mais, para que não prospere um processo de impeachment nem haja uma eleição intermédia que lhe seja desfavorável.

Não seria justo que o povo dos EUA permitisse essa perversa intenção de Trump — de usar para a sua política interna cenários tão terríveis como o de Gaza, ou insistindo no caso de Cuba, no guião aplicado na Venezuela. E os cubanos, não o permitirão. Não haverá passividade nem medo para o enfrentar.


A gota, o oceano e o machete

O presidente Díaz-Canel deixou claro: Cuba é um Estado ameaçado que não se rende. Que resiste. Que cria. Que vencerá. E é neste ponto que a nossa experiência pessoal se cruza com a história colectiva de resistência da ilha.

O povo cubano, é feito de gotas. Gotas que se recusam a secar. Gotas que, mesmo sob o sol mais forte, mantêm a sua consistência. Gotas que, juntas, formam um oceano que o império não consegue atravessar.

No meio desse oceano, há quem pegue no machete. Não um machete de aço forjado em guerra. Um machete de trabalho, de persistência, de convicção. É o machete de Maceo — o homem que não pedia licença, que não esperava ordens, que simplesmente pegava na ferramenta e lutava.

O nosso machete, hoje, tem muitas formas. É uma página digital que denuncia o bloqueio. São os artigos traduzidos nas madrugadas, enquanto o mundo dorme. São as entrevistas que dão voz a quem a tem, mas precisa de um palco. São as esperas por navios no horizonte, as caminhadas silenciosas pela solidariedade. Não é um machete que se vê. É um que se sente. Somos centenas de milhares a pegar neste machete e lutamos contra a guerra cognitiva dos EUA contra Cuba.


Milhões de gotas: o oceano da solidariedade

Ao longo de mais de 60 anos, milhões de pessoas juntaram‑se em iniciativas de solidariedade com Cuba por todo o mundo. São as gotas que enchem este imenso oceano. Na sua grande maioria, são gotas anónimas, sem rosto. Mas que, juntas, mostram ao Mundo que estão com Cuba.

Olhar para este imenso oceano de solidariedade enche o coração. Fazer parte dele — saber que sou uma dessas gotas — enche‑me de orgulho. 

A solidariedade que hoje vemos, porém, não nasceu do nada. É a herança de uma cultura. Como nos lembra a revista cubana La Jiribilla, a solidariedade faz parte da essência da cultura cubana. Ela não se resume a palavras de apoio, mas materializou‑se em acções concretas que mudaram a história do continente africano, como a epopeia de Cuito Cuanavale. Foi lá que, nas palavras do próprio Nelson Mandela, os cubanos “vieram como médicos, professores, soldados, mas nunca como colonizadores”.


O que fica

Fica a guerra cognitiva. Fica o cerco que se aperta. Ficam as ameaças, os decretos, as sanções. Fica o cinismo de quem chama “Estado falido” a um país que resiste há mais de seis décadas ao bloqueio mais longo da história.

Mas fica também o povo cubano. De pé. Nas marchas de 1 de Maio. Nas 6,5 milhões de assinaturas. Na resposta firme de Díaz-Canel. Na recusa em ser “roda de substituição” das derrotas do império. Na força das suas gotas e no fio dos seus machetes.

Fica a certeza de que, por mais que a máquina de propaganda tente isolar Cuba, a verdade — essa, camarada — continua a chegar. Pelos artigos da Razones de Cuba, pelos textos da Al Mayadeen, pelas páginas do Granma. E por esta humilde página “Cuba Soberana”.

Homenagem e Apoio Incondicional ao Povo Cubano

E, neste ponto, quero dirigir-me directamente ao povo cubano. Àqueles que, há mais de seis décadas, enfrentam o bloqueio mais longo e mais cruel da história. Àqueles que, sem petróleo, mantêm os hospitais abertos. Àqueles que, sem comida, partilham o pouco que têm. Àqueles que, mesmo no escuro, acendem uma vela – e com ela, uma esperança.

A ti, povo cubano, a nossa homenagem.

Não a homenagem vazia dos discursos, nem a solidariedade de ocasião. A homenagem de quem vos acompanha todos os dias, de quem traduz os vossos artigos, de quem partilha as vossas vitórias e as vossas dores. A homenagem de quem sabe que a vossa luta é também a nossa luta – e que a vossa resistência, camaradas, é um farol para todos os povos que recusam ajoelhar-se.

A ti, povo cubano, o nosso apoio incondicional.

Não um apoio piedoso, daqueles que olham de cima. Um apoio activo, militante, diário. O apoio de quem, mesmo longe, se recusa a calar. O apoio de quem denuncia o bloqueio onde quer que esteja. O apoio de quem, gota a gota, ajuda a construir o oceano da solidariedade.

Por cada médico que opera à luz de um telemóvel.
Por cada professor que ensina sem giz.
Por cada mãe que divide o prato.
Por cada criança que aprende, à luz de uma vela, que a liberdade não se negoceia.

Patria o Muerte, Venceremos!

Paulo Jorge da Silva | Um activista português que viu, cheirou e sentiu o bloqueio. Pela soberania de Cuba. Pelo fim do cerco. Pelos milhões que, em silêncio, já decidiram de que lado estão. Porque os princípios, como Fidel ensinou, não se negoceiam.

"Para quem está cansado da narrativa única." 🕵️‍♂️

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