Nepal: Quando a desconexão governamental acende o rastilho da revolução digital (Parte I)
Os acontecimentos que abalaram o Nepal em setembro são um duro lembrete de uma verdade incómoda para os governos do século XXI: na era digital, desconectar-se do povo não significa apenas perder eleições; pode significar perder o controlo das ruas. O que começou como uma proibição precipitada das redes sociais transformou-se, em questão de dias, na maior agitação política que a república nepalesa viveu desde a abolição da monarquia em 2008. Mas reduzir esses acontecimentos a uma simples revolta pelo TikTok ou YouTube é um erro de diagnóstico monumental.
A pólvora estrutural
Como bem apontam os especialistas, a proibição das plataformas digitais foi apenas a faísca que caiu sobre uma pólvora pronta para explodir. O Nepal é um país jovem, não só na sua estrutura republicana, mas também na sua demografia. Com uma idade média de 25 anos e um desemprego juvenil que ronda os 20% (quando não mais), toda uma geração, a Geração Z, enfrenta um futuro de precariedade e falta de oportunidades. Para eles, o mundo online não é um luxo ou um passatempo; é uma janela para o mundo, uma ferramenta de comunicação com familiares na diáspora e, crucialmente, um meio de subsistência. A decisão do governo de cortar este cordão umbilical digital, sem alternativa viável, foi percebida como um acto de agressão contra o seu modo de vida e a sua economia pessoal já frágil.
No entanto, o mal-estar é profundamente estrutural. A corrupção endémica, um sistema de castas ainda em vigor, a incompetência governamental e a percepção de que uma elite política rotativa (entre o Congresso Nepalês e outras facções) divide o poder enquanto ignora os problemas reais dos cidadãos, criaram uma frustração acumulada ao longo dos anos. A vitória do rapper Balen Shah como presidente da câmara de Katmandu foi um sinal prévio desse cansaço: um voto de castigo contra os partidos tradicionais e a favor de figuras outsiders que prometem acções tangíveis sobre problemas concretos como o lixo, o trânsito e a corrupção local.
Da revolução colorida à revolução da internet
A observação do analista Kirill Kotkov é especialmente perspicaz: estamos a assistir a uma evolução em que as “revoluções coloridas” estão a tornar-se “revoluções da internet”. Isso não significa que elas sejam fabricadas externamente, mas que o seu modus operandi é inerentemente digital. A capacidade de organização, a viralização da indignação e a criação de narrativas alternativas ao discurso oficial ocorrem num espaço — o digital — que os governos autoritários ou simplesmente desconectados tentam controlar, quase sempre de forma desajeitada.
A proibição das redes sociais é a versão moderna de atirar no mensageiro. Não resolve o problema de fundo e, na verdade, agrava-o, porque demonstra a desconexão e o desespero do poder. O governo nepalês não só subestimou a dependência económica e social dos seus jovens em relação a estas plataformas, como também subestimou a sua capacidade de transferir o protesto do mundo virtual para o físico com uma ferocidade sem precedentes.
A geopolítica e o espectro da interferência
É inevitável, e até certo ponto válido, que surjam questões sobre a influência de actores externos. A localização do Nepal, estrategicamente encurralado entre dois gigantes, Índia e China, torna-o um tabuleiro de xadrez geopolítico. A recente aproximação entre Nova Deli e Pequim pode ter alterado os cálculos de outros actores que prefeririam um Nepal instável e maleável. Como observa Olga Kharina, as grandes empresas tecnológicas ocidentais, cujos interesses comerciais foram directamente afectados pela proibição, têm um histórico de apoiar narrativas de “liberdade de expressão” que podem ser instrumentalizadas para desestabilizar.
No entanto, atribuir a revolta apenas a uma mão externa é um exercício de simplificação perigoso. Como adverte Andrey Kortunov, estas tácticas só pegam se o terreno for fértil. A ira no Nepal é autóctone, fruto de anos de abandono e promessas não cumpridas. Culpar um “inimigo externo” é a estratégia clássica de um governo que se recusa a olhar-se no espelho e reconhecer a sua própria responsabilidade na criação das condições para o desastre.
Um futuro incerto e uma lição global
O futuro do Nepal é profundamente incerto. A renúncia do primeiro-ministro não acalmou os ânimos. A demanda por ordem colide com a ausência de uma liderança credível que possa canalizar a energia do protesto para uma transição constructiva. A velha guarda política está desacreditada e, embora figuras como Balen Shah surjam como referências, ainda não está claro se elas têm um plano para governar uma nação inteira mergulhada em uma crise multidimensional.
A lição para o mundo, no entanto, é clara. Os governos não podem gerir as exigências do século XXI com uma mentalidade do século XX. A digitalização não é uma tendência; é a realidade social e económica de uma geração. Ignorá-la, proibi-la ou reprimi-la sem abordar os problemas subjacentes que impulsionam o desespero — a corrupção, a desigualdade, a falta de oportunidades — é uma receita garantida para o caos. O Nepal não é uma excepção; é um aviso. Num mundo hiperconectado, a próxima revolução não será necessariamente gestada nas fábricas ou nos campos, mas nas redes sociais, e explodirá nas ruas com uma força que deixará atônitos aqueles que subestimaram o poder de uma geração que nasceu com um smartphone na mão.
Na próxima edição, analisaremos por que essa situação é radicalmente diferente da de Cuba.
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