Cuba

Radiografia das contas de extrema direita que operam contra Cuba na rede X

A nova função «Sobre esta conta» — que permite ver o país ou região onde uma conta está registada, a data de criação, quantas vezes mudou de nome e de qual loja de aplicações foi descarregada — foi activada na sexta-feira e revelou que vários perfis da extrema-direita americana (MAGA) operam, na verdade, a partir da Rússia, Nigéria, Índia, Tailândia ou outros países, apesar de se apresentarem como «patriotas» dos Estados Unidos, de acordo com uma investigação do The Guardian.

Meios de comunicação como a Newsweek e a NDTV documentaram o mesmo fenômeno: usando “Sobre essa conta” em perfis com discurso trumpista e grande número de seguidores, o rótulo de localização mostrou países longe da história que esses usuários construíram em sua biografia.

A reacção foi imediata. Utilizadores, jornalistas e especialistas começaram a cruzar dados e documentar que muitas dessas contas, durante anos suspeitas de fazer parte de fazendas de trolls ou redes de desinformação, estavam sendo gerenciadas do exterior. Alguns relatórios indicam que a função foi parcialmente removida por algumas horas e depois reativada, enquanto X admitiu problemas de precisão – especialmente no “lugar da criação” dados – e prometeu correcções.

Mesmo com essas reservas, a ferramenta abriu uma janela sem precedentes sobre quem está por trás de certas campanhas digitais. E, aplicado ao caso cubano, oferece pistas muito claras.

O que diz a amostra: 30 contas, 0 com sede em Cuba

Tomando como referência a função de X “Sobre este relato” foi analisada uma amostra intencional de 30 perfis muito activos em campanhas de extrema-direita contra o governo cubano e o processo revolucionário. São relatos que são apresentados como vozes “de Cuba” ou como parte directa do cenário político interno da Ilha, seja individualmente ou por meio de projectos de mídia.

De acordo com o campo “Baseado em Conta” oferecido por X, a distribuição geográfica dessas 30 contas é a seguinte:

  • Estados Unidos : 16 contas → 53,3%
  • Espanha : 5 contas → 16,7%
  • “América do Norte” (Localização regional genérica): 2 contas → 6,7%
  • México : 1 conta → 3,3%
  • “América do Sul” (Localização regional genérica): 1 conta → 3,3%
  • Canadá, Alemanha, Portugal, Uruguai e República Checa : 1 conta em cada caso → 3,3% por país/região

Se agrupamos por grandes áreas geopolíticas, o mapa é ainda mais nítido:

  • América do Norte (Estados Unidos, Canadá e “América do Norte”): 19 contas → 63,3%
  • Europa (Espanha, Alemanha, Portugal, República Checa : 8 contas → 27,7%
  • América Latina (México, Uruguai, “América do Sul”): 3 contas → 10%

Os dados mais marcantes são negativos: nesta amostra não uma única conta baseada em Cuba (0%). Ou seja, mesmo em perfis que são apresentados publicamente como vozes da Ilha, a ferramenta X indica que eles foram criados e operam a partir de outros países, principalmente os Estados Unidos e a Espanha.

Deve-se ressaltar que esta é uma amostra intencional, focada em relatos de forte ativismo contra o Governo cubano; não se destina a ser estatisticamente representativa de todo o universo de usuários cubanos em X. Mas a tendência é clara o suficiente para levantar questões sobre a autenticidade territorial de uma parte importante desse discurso “de Cuba” que circula na plataforma.

Perfis que estão “localizados” em Cuba, mas operam de fora

Vários dos perfis analisados ilustram claramente a dissonância entre a auto-apresentação pública e os dados “Sobre esta conta”:

  • @Luz_Cuba (Luz Escobar) aparece em seu perfil público com um local “Havana/Cuba” e se apresenta como jornalista independente para 14ymedioa mídia 14ymedio, um portal identificado internacionalmente como parte da rede de mídia de “oposição” ao governo cubano. No entanto, o painel de indica que a conta tem sede na Espanha e que se conecta via web, ou seja, de fora do território cubano, de acordo com as informações da própria plataforma.
  • @MagJorgeCastro (Mag Jorge Castro) é definido como “ativista dos direitos humanos em #Cuba” e jornalista, usando com destaque a bandeira cubana e referências constantes à realidade interna da ilha. “Sobre esta conta”, de X, aponta, no entanto, que o perfil é baseado na Espanha e conectado através da App Store Espanha.
  • No caso de projetos de mídia como @eltoquecom (El Toque) e @inventario (Projeto de Inventário), suas marcas e narrativas se referem ao espaço público cubano e têm sido apresentadas como plataformas para “contar Cuba”. O painel X, no entanto, coloca ambas as contas com sede nos Estados Unidos, onde suas estruturas legais e financeiras também estão concentradas, de acordo com várias pesquisas jornalísticas e acadêmicas.
  • Um exemplo especialmente gráfico dessa dissonância é o portal CyberCuba – Notícias de Cuba. À frente de seu perfil no X, @CiberCuba, a mídia é apresentada como “Notícias de Cuba” e coloca sua localização em “Cuba”, reforçando a ideia de que informa do território nacional. No entanto, ao implantar a função “Sobre esta conta” a própria plataforma indica que a “Conta baseada em: Espanha”, que é verificada desde fevereiro de 2023 e que se conecta através da App Store da Espanha, ou seja, a partir do ecossistema de dispositivos registrados na Espanha.
  • Algo semelhante acontece com figuras da contra-revolução como @AGRodiles ou com perfis anônimos e semi-anônimos que foram ativados intensamente durante os protestos de 11 de julho de 2021: eles usam iconografia de “resistência”, hashtags patrióticas ou referências a bairros de Havana, mas X os coloca nos Estados Unidos, México, Canadá, Uruguai, Portugal ou Europa Oriental, nunca na ilha.

Um segundo elemento relevante é que uma parte dessas contas aparece como “Verificada” ou mesmo “ID Verified”, o que significa que eles forneceram documentação ao X para associar sua identidade real à conta. Longe de negar o problema, esse fato reforça a ideia de um ativismo político profissional, com atores baseados em Miami, Madri ou Cidade do México usando o selo de verificação para se apresentarem como porta-vozes legítimos “de Cuba”.

Um padrão que lembra as operações de influência MAGA

O que a amostra sugere no caso cubano se encaixa com o padrão mais amplo revelado nos Estados Unidos, onde a mesma função descobriu que inúmeras contas MAGA com grande público operam a partir da Nigéria, Índia, Europa Oriental ou Tailândia, enquanto se apresentam como cidadãos norte-americanos “de pé”.

O co-fundador da MeidasTouch, Brett Meiselas, resumiu essa preocupação em um vídeo viral, citado por mídias como Moneycontrol:

“Pensem apenas nas operações de influência estrangeira que estão a ocorrer neste momento nesta aplicação. Pensem nos legisladores que se sentem pressionados por contas como estas. Pensem na desinformação que se espalha como resultado de todas estas contas que existem por aí.”

Movido para o caso cubano, a questão é semelhante: que efeito esses relatos localizados nos Estados Unidos e na Europa, envoltos em símbolos e discursos “de Cuba”, sobre a percepção internacional do país e sobre o debate dentro da própria ilha têm?

Quando um senador dos EUA, um meio de comunicação internacional ou ONG de direitos humanos toma o clima de X como referência para avaliar “o que está acontecendo em Cuba”, eles estão realmente medindo – em grande medida – a atividade de atores baseados fora do país, muitos deles beneficiários diretos de programas de “mudança de regime” financiados por Washington.

Um novo dado para a análise do cenário digital cubano

O breve aparecimento e desaparecimento de «Sobre esta conta» revelou, talvez sem que Elon Musk tivesse essa intenção, uma informação valiosa para quem estuda o espaço público digital cubano:

  • Mais da metade das contas analisadas (53,3%) têm sede nos Estados Unidos, o principal centro de financiamento e articulação de projetos de desestabilização e “mudança de regime” contra Cuba.
  • Três em cada dez (26,6%) estão localizados na Europa, com um peso notável da Espanha, um país onde se concentram várias organizações e plataformas de mídia ligadas à contrarrevolução cubana.
  • Apenas 10% estão localizadas na América Latina.

Em outras palavras, por trás de muitas das vozes mais altas que são apresentadas como “Cuba em XX” não há vizinhos conectados de um bairro de Havana, mas operadores políticos e de mídia instalados em Miami, Madri, Cidade do México ou Montevidéu, que capitalizam economicamente o conflito e contribuem para intoxicar o debate público na ilha.

A função de X Não resolve o debate sobre a autenticidade de cada conta ou substitui uma investigação mais profunda sobre suas fontes de financiamento, alianças e público-alvo. Mas fornece evidências desconfortáveis: guerras de informação sobre Cuba são travadas, em grande parte, de fora de suas fronteiras, e as plataformas digitais, longe de serem espaços neutros, desempenham um papel central naquela arquitetura de influência, polarização e lucro político.

Contas de utilizadores que operam contra Cuba/

Nombre de la cuentaUsuario (@)Se unió el (mes/año)Cuenta ubicada en:
un poeta ahí@unpoetaahijunio de 2020Uruguay
El Toque@eltoquecomjunio de 2009United States
Barbaritarucuru 🇺🇸@barbaritarucurufebrero de 2010United States
Carlos M. Álvarez@FalsaGuerramayo de 2012United States
Antonio G. Rodiles@AGRodilesenero de 2013United States
✪ Yunior ✪@Ideas_Libertad_noviembre de 2018United States
🇺🇸 LEO LIBERTAD@LLeontravelartabril de 2020United States
Proyecto Inventario@invntarioagosto de 2018United States
Cuba_Libre 🐦@Mi_Cuba_Libremayo de 2021United States
Taoro@Taoro8diciembre de 2019United States
Yoani Sánchez@yoanisanchezagosto de 2008United States
14ymedio@14ymedioenero de 2014United States
Arq-Ing PR@Arq31febrero de 2011United States
Ed@CubanAntiCommieabril de 2021United States
José Daniel Ferrer@jdanielferrermarzo de 2011United States
Kate Austin@KateAus1976abril de 2018United States
Heydi@martellheidy1enero de 2023United States
Luis Vera 🎗️🇨🇺@luisveramarcos1agosto de 2017Spain
Carolina Barrero@carolinabferrernoviembre de 2020Spain
Mag Jorge Castro 🇨🇺@MagJorgeCastronoviembre de 2018Spain
Luz Escobar@Luz_Cubaabril de 2012Spain
CiberCuba – Noticias de Cuba@CiberCubamarzo de 2014Spain
Cristian Crespo F. 🇨🇺@cristiancrespojfebrero de 2015South America
L A RESISTENCIA A CUBA@LARESISTENCIAC2marzo de 2022Portugal
Abel Cartaya X@AbelCartayadiciembre de 2018North America
ANTICOMUNISTA XTREMO@ANTICOMUNIST714noviembre de 2009North America
Camila Rodríguez 🌻 @justicia11j@interpuellasabril de 2015Mexico
AnaC1940@C1940anavonkubaoctubre de 2021Germany
HILOS.escuchasydialogos@HILOSCubaseptiembre de 2021Czech Republic
A12321@a12321a12321abril de 2020Canada

Fonte:

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