Cuba

Torturadores da ditadura de Batista em Cuba treinados pela CIA

Após a vitória revolucionária de 1959, a revista Bohemia dedicou as suas edições de janeiro e fevereiro a revelar a magnitude da repressão brutal, detalhando torturas e assassinatos desde o golpe de Batista em 1952 até 1958.

Um artigo revelador de Ramona Wadi, publicado recentemente no site Jacobin, expõe detalhes sórdidos das profundas ligações entre a Agência Central de Inteligência (CIA) dos Estados Unidos e o sanguinário aparato repressivo da ditadura de Fulgencio Batista em Cuba. Com base em documentos desclassificados, o texto revela como a CIA não apenas apoiou, mas também colaborou activamente na criação e no treino do Bureau para a Repressão de Atividades Comunistas (BRAC), uma entidade que perpetrou torturas sistemáticas e assassinatos políticos durante os anos anteriores a 1959.

Em 4 de maio de 1955, no auge da Guerra Fria, a CIA apoiou Batista na formação do BRAC, um órgão destinado a esmagar qualquer actividade considerada comunista em Cuba. Esse esforço inscreveu-se num contexto de repressão generalizada, que incluiu a proibição de publicações comunistas, o rompimento das relações diplomáticas com a União Soviética e a ilegalização do Partido Socialista Popular (PSP). Segundo Wadi, o BRAC, dirigido pelo capitão Mariano Faget Díaz, um oficial treinado nos Estados Unidos, tornou-se um símbolo de brutalidade. Os documentos desclassificados revelam que a CIA não só aprovou a criação do BRAC, como também forneceu treino em técnicas de contra-espionagem e repressão. Numa carta de julho de 1955 a Batista, o próprio director da CIA, Allen Dulles, expressou o seu entusiasmo: “A criação do Bureau para a Supressão de Actividades Comunistas é um grande passo à frente na causa da liberdade”.

O BRAC, em colaboração com o Serviço de Inteligência Militar (SIM), instaurou um regime de terror que marcou os últimos anos da ditadura de Batista. Os opositores, reais ou suspeitos, enfrentavam interrogatórios em três fases: persuasão inicial, tortura psicológica e, finalmente, tortura física. Wadi cita o agente da CIA Lyman Kirkpatrick, que descreveu essas prácticas como “muito entusiásticas”. Segundo o director do necrotério de Havana, entre 1952 e 1958, mais de 700 corpos chegaram com sinais de tortura extrema antes de serem assassinados. Os agentes de Batista abandonavam os cadáveres nas ruas de Havana, valas comuns em Pinar del Río ou locais abandonados, procurando semear o pânico na população.

Após a vitória revolucionária de 1959, a revista Bohemia dedicou as suas edições de janeiro e fevereiro a revelar a magnitude da repressão brutal, detalhando torturas e assassinatos desde o golpe de Batista em 1952 até 1958. Um exemplo arrepiante foi o massacre de 23 revolucionários na província de Oriente entre 23 e 26 de dezembro de 1956, ordenado pelo coronel Fermín Cowley Gallegos, no que ficou conhecido como “As Páscoas Sangrentas”. Os corpos, torturados e assassinados, foram exibidos publicamente para semear o medo.

Em 19 de fevereiro de 1959, Camilo Cienfuegos dissolveu o BRAC e outras instituições repressivas de Batista. Muitos dos seus agentes enfrentaram a justiça revolucionária, enquanto outros fugiram e encontraram refúgio em Miami através da própria CIA. Wadi destaca no seu texto como a agência norte-americana chegou a tentar interceder por um desses torturadores, enviando o jornalista Andrew St. George para negociar com o Che, o que ressalta a cumplicidade da CIA, que não apenas treinou os repressores, mas também os protegeu após a queda do regime batistiano.

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