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A Quinta Coluna (Ou Como a Revolução é Corroída por Dentro)

Por um observador da condição humana.

A resposta, como sempre, está nas entrelinhas. E nas mãos de quem, apesar de tudo, continua a lutar.

O conceito que nunca sai de moda

A expressão “quinta coluna” nasceu na Guerra Civil Espanhola, quando o general Emilio Mola, ao aproximar-se de Madrid com quatro colunas de exército, gabou-se de ter uma quinta dentro da cidade, simpatizantes que abririam as portas aos invasores. O termo pegou. Designa desde então o inimigo interno, aquele que se infiltra, que se disfarça de aliado, que combate de dentro as estruturas que deveria defender.

Ao longo da história, os movimentos de libertação sempre tiveram de lidar com essa ameaça. Não a que vem de fora, visível, fácil de identificar. A que se senta ao lado, que ergue a mesma bandeira, que repete as mesmas palavras, mas que, quando a hora aperta, vota contra, silencia, desvia, corrói.

A quinta coluna não usa um uniforme inimigo. Usa a mesma roupa que nós. Fala a mesma língua. Canta as mesmas canções. Mas os seus interesses não são os nossos. E a sua lealdade, como a água, vai sempre para o lado onde o poder escorre.


O disfarce perfeito

O que torna a quinta coluna tão eficaz é a sua capacidade de se mimetizar. Não se apresenta como adversário, seria demasiado fácil combatê-la. Apresenta-se como amigo, como conselheiro, como o “verdadeiro” defensor da causa. É aquele que, nas reuniões, fala mais alto, critica mais ferozmente, exige mais pureza. É aquele que, nos corredores, semeia a suspeita sobre os companheiros mais dedicados. É aquele que, nas horas de decisão, propõe o recuo, adia o confronto, negoceia o inegociável.

O seu método é simples: infiltra-se, ganha confiança, ocupa lugares. Depois, lentamente, começa a desviar o movimento dos seus objectivos originais. Não é uma traição ruidosa, com gritos e portas a bater. É uma traição silenciosa, feita de pequenas cedências, de compromissos aparentemente inofensivos, de mudanças de tom que, ano após ano, transformam o que era uma espada numa caneta, o que era uma trincheira numa sala de reuniões.

O pior é que muitos dos que assim procedem não se consideram traidores. Convenceram-se de que o seu caminho é o correcto. De que estão a “modernizar” a luta, a “adaptá-la aos tempos”. De que a pureza dos princípios é coisa do passado, e que a eficácia exige compromisso.

Enganam-se. O compromisso com o poder não é eficácia. É rendição.


O preço da infiltração

A história está cheia de exemplos de movimentos que foram destruídos por dentro. Não pelos inimigos de fora, que se podiam ver, mas por aqueles que, sentados ao lado, foram minando a estrutura, desmoralizando os militantes, desviando os recursos, apagando a memória.

O preço paga-se em anos perdidos. Em gerações que crescem sem saber o que foi a luta. Em princípios que se transformam em slogans vazios. Em revoluções que se tornam burocracias. Em esperanças que se transformam em cinismo.

A quinta coluna não destrói de repente. Destrói devagar. Destrói na rotina, no cansaço, no “sempre se fez assim”. Destrói convencendo os mais jovens de que a luta não vale a pena, de que é tudo igual, de que o melhor é cuidar de si.

E quando o verdadeiro inimigo aparece… aquele de fora, com botas e tanques… já não há ninguém de pé para o enfrentar. Porque a quinta coluna, entretanto, já fez o seu trabalho. Abriu as portas por dentro.


Como reconhecer a quinta coluna

Não é fácil. O disfarce é perfeito. Mas há sinais:

  • Fala mais do que age.

  • Elogia ou dá graxa a quem está no poder

  • Divide mais do que une.

  • Tem uma palavra para cada momento, mas nenhuma palavra que custe.

  • Está sempre onde o poder está – ou onde o poder vai estar.

  • Sabe sempre o que é “politicamente correcto” dizer.

  • Nunca arrisca, nunca se expõe, nunca suja as mãos.

  • Confunde a luta com a carreira, o partido com o lugar.

Há uma espécie de irmandade que dispensa a viagem. Gente que nunca precisou de molhar os pés para saber da maré. Que nunca sentiu o bloqueio na pele, nunca respirou o bloqueio, nunca olhou nos olhos de quem vive sob o cerco. E, no entanto, sabem. Sabem tudo. Melhor do que os que lá estão. Melhor do que os que lá vivem.

É uma ciência exacta, a deles. Dispensa o contacto, a experiência, o suor. Basta um livro bem escolhido, uma teoria bem afinada, uma citação de pé firme. E eis que a verdade lhes pertence. Inteira. Incontornável. Como se a realidade se deixasse aprisionar em palavras.

Há também os que nunca perderam uma noite de sono em traduções sobre a realidade que dizem conhecer. A madrugada é sagrada, o descanso é devido. Não se sacrifica o sono por algo que já se sabe. E eles sabem. Sabem tudo. Dispensam a fadiga.

Há os que nunca repetiram um gesto nove vezes para acertar um olhar. O primeiro ensaio é o que vale. Ou o segundo, quando muito. A perfeição é um vício pequeno-burguês, diriam. A repetição é para os que não nasceram sabendo. E eles nasceram sabendo.

Há os que nunca enfrentaram uma acusação mentirosa com a verdade na cara. A verdade, para eles, não é um confronto. É uma posse. Algo que se tem, não algo que se faz. Defendem-na nos papéis, nos artigos, nas moções. Mas na cara, frente a frente, há sempre um silêncio estratégico. Uma prudência superior.

Há os que nunca se sentaram ao lado da companheira quando tudo tentava separá-los. As relações, para eles, são como as teorias: ajustam-se à vontade. Se alguém tenta separar, que se afastem. Há sempre outro alguém, outra teoria, outra causa. O que importa é a pureza do princípio, não a sujidade do compromisso.

E depois há os outros. Os que atravessaram. Os que perderam noites. Os que repetiram. Os que enfrentaram. Os que se sentaram e ficaram.

Esses não sabem tudo. Sabem apenas uma coisa: que a verdade não se possui. Vive-se.

Os outros, os donos, os que nunca precisaram de sair de casa para saber do mundo, esses continuam nos seus corredores. Arvorados. Pavoneando-se. Doutrinando. Enquanto o mundo, lá fora, continua a girar. E eles, com ele, nunca saíram do mesmo sítio.

Esses podem estar do lado de fora da trincheira. Ou, pior, podem estar dentro mas já não lutam. Apenas ocupam.


A Defesa

Como se defende um movimento da quinta coluna? Não expulsando todos os que criticam – a crítica é essencial, é o ar da luta. Mas discernindo. Separando o trigo do joio. Distinguindo quem constrói de quem apenas ocupa. Quem arrisca de quem calcula. Quem ama de quem usa.

A defesa é a memória. É saber de onde viemos, o que custou chegar aqui, quem pagou o preço com o corpo, com a liberdade, com a vida. É não deixar que a história seja apagada, que os nomes dos que tombaram sejam substituídos pelos dos que chegaram depois.

A defesa é a acção. É continuar a construir, mesmo quando os corredores se enchem de vozes que só sabem criticar. É traduzir, publicar, viajar, filmar, escrever. É sujar as mãos. É não se deixar paralisar pelas suspeitas, mas também não as ignorar.

A defesa, acima de tudo, é a fidelidade aos princípios. Não aos que mudam com o vento, mas aos que custam. Aos que nos fazem perder amigos, lugares, comodidades. Aos que nos mantêm de pé quando tudo à volta nos empurra para baixo.


A Conclusão

A quinta coluna está sempre presente. É uma constante histórica. Não se pode eliminá-la de vez, mas pode-se reconhecê-la, contê-la, impedir que tome as rédeas.

O primeiro passo é saber que existe. O segundo é olhar à volta. O terceiro é agir.

Há quem pense que a luta se faz nas reuniões, anos cargos, nos títulos. Enganam-se, a verdade conquista-se na pele, no erro, na teimosia de quem não desiste. Conquista-se quando se diz o que pensa mesmo sabendo que vão chamar-te nomes. Quando se olha nos olhos de quem te acusa e se responde com a cabeça erguida.

A quinta coluna não tem esses gestos. Porque esses gestos custam. E quem só quer ocupar, não está disposto a pagar o preço.

Fica a pergunta, no ar como a moeda de Drexler: quem, no fim, está do lado certo? Quem está a construir? E quem está apenas a pavonear-se pelos corredores, esperando que a revolução caia do céu?

A resposta, como sempre, está nas entrelinhas. E nas mãos de quem, apesar de tudo, continua a lutar.

A luta não é um título.
É uma vida.
E quem a vive – não precisa de a declarar.

Os outros, os donos da verdade, os que nunca atravessaram o mar,
esses continuam nos seus corredores.
Arvorados. Pavoneando-se. Doutrinando.

Nós, os que sujamos as mãos, os que perdemos noites e dias, os que ficamos, esses, continuamos.

A construir. A traduzir. A mudar uma opinião na sombra da noite. A lutar. A filmar. A resistir. Sem título. Sem corredor. Sem aplauso.

Porque a verdade não se possui.
Vive-se.

E nós.. nós vivemos na verdade.

🌪️ Ventos da História

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