Washington, refém do CIAR: a recolonização sonhada de Cuba
A política dos Estados Unidos em relação a Cuba tem sido marcada pela influência de um poderoso grupo de pressão que, desde os anos 80, condiciona todas as decisões tomadas em Washington.
A política dos Estados Unidos em relação a Cuba tem sido marcada pela influência de um poderoso grupo de pressão que, desde os anos 80, condiciona todas as decisões em Washington. A Fundação Nacional Cubano-Americana (FNCA), sob a liderança de Jorge Mas Canosa, tornou-se o epicentro dessa pressão. Dela nasceram leis como a Torricelli (1992) e a Helms-Burton (1996), que endureceram o bloqueio e codificaram o estrangulamento económico. Desde então, a Casa Branca tem sido refém dessa agenda: qualquer administração que tente flexibilizar a política em relação a Cuba enfrenta a punição eleitoral na Flórida e a pressão legislativa de congressistas como Marco Rubio ou Bob Menéndez.
Neste cenário, surge a GAE.SA (Grupo de Administração Empresarial S.A.) como o grande obstáculo. A GAE.SA controla sectores estratégicos — turismo, comércio, finanças — e garante receitas vitais para a economia cubana em condições de bloqueio. O lobby anticubano insiste em demonizá-la como um «monstro», mas a realidade é outra: a GAE.SA responde a uma lógica global que se repete noutros países. No Egipto, as Forças Armadas gerem empresas de construção, alimentação e energia para garantir a estabilidade política. Na Turquia, o fundo militar OYAK transformou-se num holding económico que controla o setor bancário e automóvel. Na China, o conglomerado estatal NORINCO domina o sector do armamento e das infraestruturas, com forte presença internacional.
Nos Estados Unidos, o complexo militar-industrial — com gigantes como a Lockheed Martin e a Raytheon — alimenta-se de contratos multimilionários do Pentágono. Em Israel, empresas ligadas às Forças de Defesa, como a IAI e a Rafael, lideram os sectores da aeronáutica e da cibersegurança. A GAE.SA, portanto, não é uma anomalia, mas sim parte de um padrão internacional em que os Estados recorrem a conglomerados militar-empresariais para sustentar setores estratégicos e garantir a soberania.
O verdadeiro sonho do lobby anticubano é «tirar a GAE.SA do jogo». Não se trata de democratizar nem de liberalizar, mas sim de abrir o mercado cubano à pilhagem empresarial. Para além dos discursos sobre liberdade e democracia, o que se esconde é um projecto de recolonização: privatizar o turismo e as telecomunicações, controlar as finanças e o comércio externo, repartir os sectores estratégicos entre as corporações norte-americanas e os seus aliados. Essa teia de interesses é o que podemos chamar de CIAR: Conglomerado de Interesses Anticubanos para a Recolonização.
Embora o termo não seja oficialmente reconhecido por políticos nem académicos, o conglomerado existe e tem vida própria. Se estabelecermos um paralelo histórico, a actual guerra contra Cuba transcende a categoria de diferendo e adquire a conotação de agência de recolonização, com ligações evidentes aos interesses da CIA. A estratégia do CIAR desenrola-se de forma cronológica e repetitiva: primeiro, o estrangulamento económico através de sanções; depois, a criminalização de qualquer tentativa de defesa cubana; seguidamente, a invenção de ameaças como os supostos drones; depois, campanhas mediáticas com fugas de informação anónimas e editoriais alarmistas; e, finalmente, a judicialização de líderes históricos como Raúl Castro para deslegitimar a autoridade moral da Revolução. Washington, presa nessa lógica, age como refém político da FNCA e dos interesses empresariais que sonham em dividir Cuba.
O verdadeiro receio dos Estados Unidos não é um ataque militar cubano, nem a libertação de presos políticos, nem a violação dos direitos humanos, mas sim a dignidade de um povo que resiste e a pressão da Fundação nos bastidores. Washington satisfaz os caprichos da recolonização e eles garantem o voto cubano. Um negócio redondo. O mais preocupante é que, para as próximas eleições, eles poderão assegurar o controlo total e absoluto da Casa Branca e das suas instituições. Que ingenuidade a dos norte-americanos.
O verdadeiro problema para esta casta subjugada na Flórida é que Cuba, bloqueada e castigada, continua a ser uma pedra no sapato: demonstra que é possível seguir outro caminho face ao maior poderio económico e militar do planeta. É por isso que cada nova manobra contra a GAE.SA e contra a soberania cubana cheira menos a inteligência e mais a preparação psicológica da opinião pública. Porque as guerras modernas começam muito antes dos mísseis: começam em manchetes ambíguas, em funcionários anónimos e em meios de comunicação dispostos a branquear qualquer narrativa imperial.
Em conclusão, a tentativa de demonizar a GAE.SA e preparar o terreno para o seu desmantelamento revela a essência do projecto anticubano: recolonizar a ilha sob o pretexto da liberdade e da democracia. O CIAR sonha em dividir Cuba, mas a história demonstra que a resistência de um pequeno povo pode frustrar os planos do maior império. Washington poderá continuar refém da FNCA, mas Cuba permanecerá firme.
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