A crise será devastadora se a guerra no Irão e no Líbano continuar
O delicado processo de negociação assenta numa base extremamente frágil. Tão frágil que talvez não consiga suportar o peso dos interesses que deve defender.
Após uma série de ameaças contra o Irão, Trump anunciou finalmente um acordo bilateral de cessar-fogo de quinze dias com o Irão. No estilo grandiloquente que costuma utilizar nas suas comunicações na rede social Truth Social, o presidente norte-americano anunciou que «tinha chegado um grande dia para o Irão» e que o país iria ganhar «muito dinheiro» neste processo, incluindo na reconstrução.
No dia 8 de abril, voltou a abordar o assunto, com vista às negociações:
«Os Estados Unidos irão trabalhar em estreita colaboração com o Irão, país que, segundo determinámos, passou por aquilo que será uma mudança de regime muito produtiva. Não haverá enriquecimento de urânio, e os Estados Unidos, em colaboração com o Irão, irão escavar e eliminar todo o «pó» nuclear profundamente enterrado (bombardeiros B-2). Isto está agora, e tem estado, sob vigilância por satélite muito rigorosa (Força Espacial!). Nada foi tocado desde a data do ataque. Estamos, e estaremos, a discutir o alívio de tarifas e sanções com o Irão. Muitos dos 15 pontos já foram acordados. Obrigado pela vossa atenção a este assunto. Presidente Donald J. Trump”.
Por seu lado, o Irão publicou, no dia 7 de abril, um comunicado assinado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros do país, Araghchi, no qual se afirmava que a nação, na sequência do pedido feito pelo primeiro-ministro do Paquistão, aceitava negociar os 15 pontos propostos pelos Estados Unidos, com base na aceitação pública, feita pelo presidente dos Estados Unidos, dos 10 pontos propostos pelo Irão como quadro geral da negociação.
Os dez pontos propostos pelo Irão são os seguintes:
- Um fim definitivo da guerra, e não apenas uma trégua temporária;
- O levantamento das sanções económicas impostas ao Irão;
- Garantias de que os Estados Unidos e «Israel» não voltarão a atacar;
- Reconhecimento do direito do Irão a desenvolver energia nuclear para fins civis;
- A retirada das forças militares estrangeiras da região;
- Estabelecer condições para a segurança no Golfo, incluindo o tráfego marítimo;
- Indemnizações pelos danos decorrentes do conflito;
- Mecanismos para a reconstrução das infraestructuras afectadas;
- Uma abordagem regional que inclua a redução das tensões noutras frentes, nomeadamente no Líbano;
- A criação de um quadro de negociação abrangente, em vez de acordos parciais.
A resposta israelita a este processo, neste dia 8 de abril, consistiu em cometer um genocídio contra a população civil libanesa, em Beirute e noutras regiões, levando a cabo a campanha de bombardeamentos mais intensa dos últimos anos contra o país. Estas acções, sem dúvida, respondem a uma vontade consciente da entidade sionista de dinamitar qualquer processo de diálogo que não atenda aos seus interesses coloniais delirantes e à sua agenda expansionista e genocida de «segurança».
O delicado processo de negociação que agora se inicia assenta numa base extremamente frágil. Tão frágil que talvez não consiga suportar o peso dos interesses que deve defender.
Por um lado, o Irão sai fortemente abalado, mas não derrotado. A resistência, a resiliência e a capacidade de resposta da República Islâmica superaram todas as previsões dos seus inimigos. Não só não se verificou a tão alardeada “mudança de regime”, como o Irão demonstrou a extrema vulnerabilidade da infraestrutura militar anglo-sionista na região, as insuficiências dos seus sistemas antiaéreos extremamente dispendiosos e a fragilidade de toda a infraestrutura energética da região.
A doutrina militar iraniana revelou-se correcta e perfeitamente adaptada ao tipo de guerra assimétrica a que o país tem sido submetido. A sua estructura em mosaico na tomada de decisões e as múltiplas camadas sucessórias em cada nível de direcção fazem com que, por um lado, o sistema mantenha a sua funcionalidade independentemente das perdas humanas e, por outro, evite a geração de vácuos de poder, o que torna a estrutura militar e política do país praticamente invulnerável.
Sem dúvida, a perda de quadros importantes e experientes prejudica sempre o funcionamento da estrutura, mas não a paralisa. E a sua lógica do Talão em matéria militar, profundamente enraizada na cultura mesopotâmica e persa, levou os seus inimigos a um cálculo cuidadoso das suas acções, sabendo que qualquer passo em falso poderia desencadear um cenário ainda pior na arena regional.
A internacionalização do conflito, muito criticada no Ocidente e utilizada como argumento contra o Irão, é um resultado inevitável. Os Estados árabes do Golfo têm, historicamente, aceitado a utilização dos seus territórios para fins militares por parte dos Estados Unidos. As empresas norte-americanas estão fortemente interligadas com o tecido produtivo regional e lucram tanto com a guerra como com a extracção de recursos naturais. Além disso, todos estes Estados permitiram a passagem de aeronaves israelitas a caminho de atacar o Irão. Forneceram-lhes informações de inteligência e actuaram como defesas antecipadas contra os drones e mísseis iranianos dirigidos contra a entidade sionista. Se o Irão quisesse ter alguma possibilidade real de resistir no actual conflito, tinha e tem de neutralizar as capacidades inimigas nos países árabes, tanto militares como económicas.
O mesmo se aplica ao Estreito de Ormuz. O controlo desta passagem é uma questão de segurança nacional para o Irão, bem como a sua principal base de negociação para qualquer acordo futuro. O Irão demonstrou que é capaz de exercer um controlo total e incontestável sobre a zona, tornando praticamente impossível a sua reabertura por qualquer potência externa, dados os potenciais custos militares. O Estreito e o controlo sobre ele são a principal ferramenta de que o Irão dispõe para garantir uma paz duradoura e a recuperação económica do país. Ceder neste ponto tem implicações que vão até à segurança nacional do país, sobretudo à luz de todas as recentes agressões. Por isso, considero improvável que o Irão aceite, em qualquer processo de negociação, um regresso ao estatuto anterior desta rota comercial.
Além disso, chega a este processo de negociação com uma profunda desconfiança. Os Estados Unidos e «Israel» já atacaram de forma traiçoeira no meio de dois processos de negociação anteriores e não é de excluir que o façam novamente. A isto acrescenta-se que a guerra reforçou a coesão da população iraniana em torno da República Islâmica e dos seus objetivos militares, o que, somado às conquistas no campo de batalha, coloca o país numa posição negocial muito vantajosa.
Os Estados Unidos, pelo contrário, encontram-se numa posição de relativa fraqueza que não conseguem esconder, apesar das declarações grandiloquentes de vitória e das fanfarronices do presidente, do seu secretário da Guerra e de outros porta-vozes. O Irão atingiu ou destruiu a totalidade da infraestrutura militar norte-americana na região da Ásia Ocidental. As perdas em equipamento e em homens são significativas. Os radares, peça-chave na estrutura defensiva anglo-sionista, foram drasticamente dizimados, reduzindo as capacidades de alerta e resposta. O mesmo aconteceu com os seus stocks de mísseis interceptores e de cruzeiro, que se esgotaram a um ritmo várias vezes superior à capacidade de produção da sua indústria.
Para compensar o equipamento danificado, os Estados Unidos tiveram de trazer baterias antiaéreas de outras regiões, deixando aliados como a Coreia do Sul desprotegidos. A Europa teve de se mostrar firme — com a habitual firmeza moderada europeia, claro — para que os Estados Unidos não desmontassem também os sistemas localizados na fronteira oriental com a Rússia.
Como um elefante numa loja de cristais, Trump lançou ofensas e ameaças a todos os seus aliados por estes se recusarem a aderir a uma guerra sobre cujo início não foram informados e para a qual nem sequer foram consultados. Sendo os europeus, acima de tudo, os mais dependentes das importações de petróleo do Golfo. O presidente norte-americano retomou os seus ataques contra a OTAN, organização que chegou a classificar como «tigre de papel», ao melhor estilo maoísta.
Além disso, o prolongado bloqueio selectivo do Estreito de Ormuz pelo Irão fez disparar os preços do petróleo e, com eles, o custo de vida nos Estados Unidos. Embora o país seja um grande produtor de petróleo, a sua produção é cotada ao preço do mercado mundial, o que significa que, se o preço de referência subir, o preço do gasóleo e da gasolina vendidos nas bombas de serviço do país também sobe. Isto, num ano de eleições intercalares, tem consequências mais pronunciadas na opinião pública interna do que o assassinato de centenas de meninas numa escola no Irão, infelizmente.
À incompetência do presidente junta-se a do inexperiente e arrogante secretário da Guerra, que, em pleno conflito, se dedicou a demitir uma dúzia de generais, todos quadros experientes, com conhecimentos operacionais e capacidade de liderança nas estruturas militares. A chave desta decisão parece residir nas crescentes críticas à guerra em curso e à forma como tem sido gerida, contrariando até mesmo os critérios de numerosas vozes no Pentágono. Se o impasse iraniano não for resolvido de uma forma que a administração possa vender como uma vitória, não é de excluir que Hegseth se torne o «bode expiatório» de uma guerra criminosa e absurda, iniciada sem um fim claro.
Trump é extremamente sensível às sondagens e ao mercado bolsista, e ambos estão a apresentar números preocupantes. Manter a guerra implicaria, inevitavelmente, a sua escalada, com consequências ainda mais catastróficas. Um acordo de paz, a menos que os negociadores norte-americanos consigam alguma capitulação iraniana inesperada, implicaria fazer concessões ao Irão que seriam difíceis de apresentar como uma vitória.
O movimento sionista, por seu lado, não parece estar particularmente satisfeito com a perspectiva de paz. Sobretudo porque isso fortaleceria o Irão, a sua imagem e os seus aliados na região, incluindo o temido Hezbollah, que, tal como a fénix, renasce com mais força cada vez que «Israel» pensa tê-lo derrotado. É muito provável que o sionismo pressione para provocar uma ruptura do diálogo e um recomeço da escalada.
Os Estados Unidos entraram na guerra sem objectivos claros ou impulsionados pelos objectivos israelitas. «Israel» tem um plano claro: desmantelar a República Islâmica e concretizar o projecto colonial do Grande Israel, o que inclui, no imediato, concluir a obra genocida em Gaza, na Cisjordânia e no Líbano. Um Irão fortalecido, com capacidades militares intactas, controlo total do estreito de Ormuz, sem sanções e a caminho de um possível entendimento com os Estados Unidos é o pior pesadelo do genocida Netanyahu e dos interesses que ele representa.
Autor:
José Ernesto Nováez Guerrero | Escritor e jornalista cubano. Membro da Associação Hermanos Saíz (AHS).
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