O Muro à Porta de Casa: O Bloqueio a Cuba, a Mentira e os Milhões que Resistem
"Por vezes, compreender o ser humano é difícil. Mas compreender a máquina de desumanização que é o bloqueio a Cuba não é. Basta sentir na pele, como eu senti, a escassez fabricada, ou ouvir, como todos ouvimos, os clichés vazios que a justificam. Entre a dor concreta de uma criança sem medicamento e a abstracção venenosa de um comentário sobre 'falta de democracia', abre-se um abismo. Este artigo é uma tentativa de construir uma ponte sobre esse abismo, com os tijolos dos factos e o cimento da experiência vivida."

O Muro à Porta de Casa: Sobre o Bloqueio, a Mentira e os Milhões que Resistem
Por vezes, compreender o ser humano é extremamente difícil. Escrevo isto a propósito de comentários recentes sobre A ordem executiva de 29 de janeiro emitida pelo presidente Trump contra,Cuba. “Cuba precisa de democracia”, “Em Cuba não há democracia”, “A família Castro no poder e o povo cubano a morrer de fome”. São frases que mostram como, apesar do acesso a toda a informação, muitos preferem dar ouvidos à imprensa mainstream – a mesma que mente sobre o regime na Ucrânia e que mente sobre Venezuela, Cuba ou Irão, dia após dia.
Falar sobre o bloqueio a Cuba, que sofri na pele nas minhas visitas, é algo que ainda hoje me dói. Ele não é uma política económica; é um acto de guerra. Visa unicamente castigar um povo que ousou escolher a soberania. Recordemos: antes de 1959, Cuba era um protectorado mafioso dos EUA, um centro de lavagem de dinheiro e um bordel para o turismo norte-americano. A Revolução limpou essa chaga.
Seis Décadas de Cerco: Um Arsenal de Maldade Sistémica
Como detalha a análise “Seis Décadas de Cerco“, o bloqueio não é estático. É um “arsenal de maldade” em constante evolução, desenhado para asfixiar todas as esferas da vida: medicamentos, alimentos, combustível, peças de aviação. A sua lógica é genocida: criar tanto sofrimento que o povo cubano se levante contra o seu próprio governo. É, nas palavras do artigo, um “experimento de laboratório de tortura colectiva”.
A Nova Escalada: Estrangular a Economia, Até à Última Transacção
Sob a administração Trump, como documenta a “Nova Escalada“, esta guerra económica tornou-se ainda mais brutal. Activa-se o Título III da Lei Helms-Burton, processando qualquer empresa que ouse negociar com Cuba. Persegue-se o petróleo venezuelano, o remédio vital da ilha. Ataca-se as remessas familiares, o cordão umbilical que sustenta milhares de lares. O objectivo é claro: tornar impossível qualquer transacção comercial ou financeira com Cuba, isolando-a completamente.
O Alvo Mais Vil: As Crianças e o Futuro
A maior prova da barbárie está em quem ataca. O artigo “Como o Bloqueio Oprime as Crianças Cubanas” é um soco no estômago. O bloqueio nega alimentos, medicamentos pediátricos e material escolar. Provoca escassez de leite em pó e de papel. É uma sentença de sofrimento contra os mais inocentes, para tentar quebrar a moral da nação através do desespero das suas mães e pais. Acusar depois Cuba de “matar o seu povo de fome” é a hipocrisia suprema.
A Metáfora do Muro: A Verdade que Todos Percebem
Não compreender isto é como construir um muro à porta da tua casa, impedindo-te de sair para comprar comida ou remédios, e depois acusar-te de não saberes governar a tua família e de a estares a matar de fome. Esta é a verdade nua e crua do bloqueio.
Felizmente, o mundo é feito de povos solidários. O fim-de-semana em Sevilha, onde conheci seres humanos maravilhosos no encontro Europa por Cuba, confirmou-me: somos milhões. Milhões que não acreditam nas mentiras mainstream, milhões que sabem que a soberania cubana é uma bandeira de dignidade para todos os povos, milhões que, na sua trincheira, lutam contra o muro.
O bloqueio é o muro. Nós, os solidários, somos os que passamos alimento, informação e esperança por cima dele. E um dia, como todos os muros da história, este também cairá.
Conclusão: A Única Fronteira que Importa
Os factos estão expostos. A mecânica da asfixia e o ecossistema da mentira foram desmontados. Perante isto, resta-nos uma única pergunta: de que lado da história nos colocamos? Do lado do muro, ou do lado dos que o derrubam?
O encontro em Sevilha, as vozes que se erguem de todos os continentes, e a resistência diária do povo cubano provam que a escolha não é solitária. Somos milhões. E a esses milhões, aos camaradas cuja solidariedade é acto e não palavra, dirijo o apelo final:
Que nunca nos faltem as forças para lutar. Forças para todos os solidários com os povos do mundo.
Porque no fundo, para lá de todas as siglas e tácticas, a luta é uma só. É a luta para derrubar os muros visíveis do bloqueio e os muros invisíveis da desinformação. É a luta para abolir as fronteiras que separam os oprimidos do mesmo inimigo.
É a luta eterna e urgente contra o imperialismo que oprime os povos do mundo. E nessa luta, até à vitória final, estaremos sempre presentes.
¡Patria o Muerte! ¡Venceremos!

Paulo Jorge da Silva | Um activista português que viu, cheirou e sentiu o bloqueio. Pela soberania de Cuba. Pelo fim do cerco. Pelos milhões que, em silêncio, já decidiram de que lado estão.


