O espelho de Narciso
A sociedade moderna, no nosso «Ocidente coletivo», mas também noutras partes do mundo, apresenta cada vez mais traços de decadência e um verdadeiro culto à sua própria degradação e autodestruição. É como se um cansaço de viver e crescer tivesse tomado conta das pessoas modernas, que brincam a olhar-se no espelho, na expectativa de uma reinicialização do sistema em que vivem, um Armagedão que elas temem, é claro, mas talvez também secretamente anseiem.
Os chamados “influenciadores” lançam modas reais tão incisivas quanto efémeras e seduzem as partes mais fracas das nossas almas com as suas homilias ao estilo dos YouTubers. Muitas pessoas imitam-nos, acreditando que ser e parecer são a mesma coisa. Não é esse o caso, mas o filtro da gratificação momentânea é muito poderoso e eficaz.
Estamos perante um narcisismo patológico em massa? Roberto Giacomelli, que já entrevistei algumas vezes no passado (por exemplo, aqui e aqui), acredita que sim e dedicou o seu último ensaio, O Espelho de Narciso, recentemente publicado pela Passaggio al Bosco, a este aspeto da nossa sociedade.
1) Quem é o narcisista, historicamente e na nossa sociedade contemporânea?
A) O narcisista é um sujeito caracterizado por um mau funcionamento psíquico e, numa análise mais aprofundada, grandes figuras históricas enquadram-se nesta categoria. Napoleão Bonaparte, um génio militar e político valioso, segundo o relato da sua mãe, parece ter tido características narcisistas desde a infância. Na literatura, Dorian Gray, a personagem do romance de Oscar Wilde, um belo jovem apaixonado por si mesmo, é um narcisista. Personagens grandiosas reais ou fictícias e a grandiosidade em si são características do narcisismo, que na sua versão benigna é característica de génios e grandes artistas. Na sociedade contemporânea, onde o narcisismo se tornou um distúrbio em massa, o génio raramente aparece, enquanto a necessidade de aparecer, a autopercepção dada pelo julgamento dos outros e a falta de empatia descrevem um sujeito fraco e altamente problemático.
2) Por que é que esta figura parece tão bem-sucedida e até parece uma “vencedora”?
A) Os desvalores da sociedade do capitalismo terminal são perfeitamente personificados pelo narcisista, por isso esta figura é considerada um sujeito bem-sucedido a ser admirado e, quando possível, imitado. Gestores implacáveis e sem escrúpulos, cantores e actores de cinema escravizados pelo álcool e pelas drogas, influenciadores desprovidos de valores e dignidade que vendem a sua imagem, são os heróis infelizes de uma sociedade moribunda. Eles representam, apesar do seu vazio espiritual e da absoluta falta de ética, o protótipo perfeito do homo oeconomicus, aquele que tem paixão exclusiva pelos seus próprios interesses individuais e materiais. O cidadão que não vive na e para a comunidade, mas está isolado num individualismo doentio, característico da sociedade liberalista. Sem ideais, sem sentimentos, sem fé, ele vive como um ser unidimensional: o do lucro e da exploração.
3) No seu último ensaio, como em outros, fala de uma “sociedade nutritiva”. Poderia explicar o significado destas suas palavras?
A) Por sociedade nutritiva, refiro-me à fase histórica em que o prazer derivado da estimulação da boca domina, uma fase sexual regressiva do adulto que concentra a libido, e consequentemente o prazer, na área oral, como uma criança. As características distintivas da fase oral são a passividade, a dependência e o egocentrismo, aspectos proeminentes do homem contemporâneo escravizado pela comida e pela compra compulsiva de objectos, alimento simbólico. Tendência à vitimização, reclamação, busca espasmódica por protecção e assistência, complacência com a própria fraqueza e fragilidade. Frequentemente viciados em tabaco, álcool, drogas e devoradores compulsivos, tornam-se obesos, incorporando as características somáticas da criança. Escravos do “Princípio do Prazer”, que exige a satisfação imediata de todos os impulsos, porque são incapazes de resistir à fraqueza e à falta de vontade. Um narcisista perfeito, o triste protagonista da época da dissolução.
4) Então, qual é a relação entre o narcisista e a sociedade nutritiva?
A) A relação entre o narcisista e a sociedade acolhedora é de dependência, a fraqueza, a fragilidade ostentadas e praticadas como um modo de vida tornam este sujeito perturbado o protagonista absoluto da nossa sociedade. A falta de valores, de ideias, de espiritualidade, devido à ausência de figuras paternas, substituídas por mães superprotectoras e dominadoras, numa sociedade feminizada, que explora as mulheres investindo-as de responsabilidades e tarefas masculinas, produz homens fracos e medrosos. O narcisista, que esteve no centro das atenções maternas, mimado e defendido do contacto com a realidade, sucumbe quando confrontado com as dificuldades e dores da vida. Não suporta o abandono e chega ao ponto de se matar se for deixado, teme a solidão e sofre de transtorno de personalidade dependente, escravo de parceiros que não ama, mas explora para sua sobrevivência psíquica.
5) Quando é que a nossa sociedade começou a delinear os traços desta doença do espírito?
A) O narcisismo nasce com o espírito do capitalismo, na aldeia medieval, quando o bater do relógio municipal substitui o toque dos sinos, quando o vínculo eterno entre o homem e o divino é definitivamente dissolvido. A emoção predominante do espírito capitalista é o egoísmo e o impulso primário é a necessidade compulsiva de acumular como manifestação de continuidade e conquista da eternidade. É a sublimação inconsciente do medo da morte, sentida como o castigo final, como a antecâmara daquele inferno que aterrorizava os homens daquela época distante. O capitalismo prospera com o individualismo, com o desaparecimento da espiritualidade e a perda de valores e o consequente triunfo do vazio que resultará no niilismo moderno. Indivíduos isolados da sua comunidade, enfraquecidos, assustados, para se sentirem aceites, rodeiam-se de objectos para exibir, como exige a sociedade de consumo. O comerciante medieval, sem nascimento nobre e sem o espírito marcial do cavaleiro, a sabedoria dos clérigos, a comunhão com a natureza dos camponeses, encontra a emancipação social na exibição da sua riqueza económica. Primeiro exemplo de narcisismo, exibir-se aos outros para ser reconhecido.
6) Em que medida os meios de comunicação modernos influenciam a nossa percepção de nós próprios?
A) Os meios de comunicação influenciam fortemente o homem contemporâneo, promovendo incessantemente anúncios intrusivos que propõem uma imagem de pessoas sempre jovens, bonitas e felizes graças à posse de objectos muitas vezes inúteis e caros. Estas imagens enganosas reforçam a necessidade de possuir para parecer característico do narcisismo de massa: quanto mais se tem e se exibe, mais se sente aceite e importante. A autopercepção do narcisista depende do julgamento dos outros, por isso, incorporar os modelos vencedores propostos pelos meios de comunicação torna-se essencial para se sentir vivo.
7) Narcisismo, mas também transumanismo, wokismo e um certo medo de viver, envelhecer e morrer. Tudo está relacionado?
A) A imagem estereotipada do narcisista moderno é a do eterno jovem, porque a velhice inconscientemente nos remete à ideia da morte, temida e exorcizada pela sociedade que cultiva a juventude eterna. O desaparecimento dos ritos de passagem das sociedades antigas deixa os seres humanos sem o conhecimento iniciático fundamental que evitava o medo da aniquilação na escuridão da morte. Essa passagem, outrora vivida como a continuidade da vida numa nova dimensão, em nossa época é removida e paira como uma maldição sobre o homem contemporâneo. Todos querem ser jovens e viver para sempre, enganando a morte. O transumanismo e o domínio da tecnologia alimentam o sonho prometeico da imortalidade, alcançada através de enxertos antinaturais e hibridização com máquinas. Esquecendo que a imortalidade é alcançada através da superação da dimensão humana na transcendência para o divino, uma prática mágica que sempre foi contemplada nas disciplinas esotéricas.
8) A quem beneficia este modo de vida, esta sociedade tão fortemente desequilibrada?
A) A crise do mundo moderno beneficia as forças metapolíticas que sempre agiram nos bastidores da História, usando a economia e as classes políticas escravizadas como arma. Poderes ocultos que levaram a humanidade a um ponto sem retorno, funcional à fase terminal do ciclo cósmico. Certamente não beneficia as pessoas que lutam todos os dias para sobreviver num mundo cada vez mais sombrio e difícil, onde o ambiente está poluído, a miséria cresce juntamente com o desespero, as guerras massacram civis. A sociedade que alimenta o egoísmo, o individualismo e o narcisismo é o ambiente ideal para o desenvolvimento de vícios e dependências, que permitem a ditadura do dinheiro.
9) Às vezes somos prisioneiros de uma roda de hamster. É realmente esse o caso? O que podemos fazer para sair dessa situação?
A) Para quebrar as correntes da ditadura de baixa intensidade das democracias autoritárias, é preciso redescobrir a identidade dos povos, os rituais e as tradições. Rejeitar veementemente a subcultura woke, transhumanista e consumista de origem norte-americana. Recriar comunidades de destino, novas tribos para substituir as famílias deliberadamente destruídas pelo sistema capitalista. Praticar desportos de ousadia fortalece a vontade e a coragem para se opor eficazmente à conspiração globalista que quer súbditos fracos e escravos de drogas e produtos farmacêuticos. Acima de tudo, retornar aos ritos ancestrais dos povos europeus, ao culto dos deuses da linhagem, cujo eclipse causou o surgimento de cultos exóticos que geraram o surgimento de ideais igualitários que culminaram em ideologias materialistas. A salvação está na nova espiritualidade dos europeus.
Fonte:
Autor:
Costantino Ceoldo

