A Mentira que veio do céu: Como a CIA usou provocadores para justificar a agressão contra Cuba
No dia 20 de maio de 2026, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos anunciou o indiciamento do General do Exército Raúl Castro Ruz e de outros companheiros cubanos, acusando-os pelo abate de duas avionetas da organização terrorista Hermanos al Rescate em 1996. A acusação, apresentada num tribunal da Florida, foi imediatamente qualificada pelas autoridades cubanas como fraudulenta, carece de fundamento jurídico, político e moral, e faz parte da escalada agressiva de Washington contra Cuba.
Esta não é uma questão de justiça. É uma manobra política destinada a justificar a agressão contra o povo cubano e a preparar o terreno para uma intervenção militar. E, mais do que isso, é um ataque à verdade histórica.
O objectivo deste artigo é recordar os factos que a máquina de propaganda do império tenta apagar: as dezenas de violações do espaço aéreo cubano, a cumplicidade do governo dos EUA, a armadilha preparada por José Basulto, agente da CIA, e a legitimidade da resposta cubana. É também uma homenagem a Raúl Castro – o homem que não foge, o estratega militar que jurou não descansar, o guardião da Revolução que, ao contrário do que a propaganda insinua, nunca traiu o seu povo.

As provocações no ar: Os 20 meses que antecederam a tragédia
Entre o final de 1994 e o início de 1996, os céus de Cuba foram repetidamente violados por uma organização que se dizia “humanitária”: Hermanos al Rescate, liderada por José Basulto, um agente confesso da CIA. Foram 25 incursões aéreas em apenas 20 meses. Sobrevoaram Havana, lançaram propaganda subversiva, filmaram as defesas cubanas e desafiaram, dia após dia, a soberania de um país que há décadas suporta o cerco mais longo da história.
O governo cubano denunciou cada uma dessas violações ao Departamento de Estado dos EUA, à Administração Federal de Aviação (FAA) e à Organização da Aviação Civil Internacional (OACI). Alertou para o perigo. Recolheu provas. E recebeu, como única resposta, o silêncio cúmplice de Washington.
A 15 de janeiro de 1996, Havana emitiu um comunicado público no qual advertia que qualquer aeronave não autorizada seria interceptada e, se necessário, neutralizada. No dia seguinte, foi enviada a Nota Verbal n.º 45 ao Departamento de Estado, reiterando a mesma advertência. As violações não eram secretas – eram divulgadas pela rádio, e os próprios provocadores gabavam-se delas.
Porque a verdade, é que estas provocações não eram actos isolados de “dissidentes”. Eram operações planeadas, com o conhecimento e a conivência das autoridades norte-americanas. Documentos recentemente desclassificados, como um memorando da FAA de 22 de janeiro de 1996, revelam que as autoridades dos EUA admitiram a sua preocupação face às violações e anteciparam o cenário de um possível abate. O Governo norte-americano tinha conhecimento, com precisão, da incursão de 24 de fevereiro de 1996 desde a noite anterior e nada fez para a impedir.
O objectivo não era salvar “balseros”. Era provocar uma resposta militar cubana que servisse de pretexto para uma intervenção dos EUA.
O “Maine voador”: O plano de Basulto
O próprio José Basulto, em declarações públicas, confessou o seu objectivo: criar um “Maine voador” – uma referência ao navio norte-americano cujo afundamento, em 1898, serviu de pretexto para a guerra contra Espanha e a ocupação de Cuba.
Ele queria um incidente. Uma provocação tão grave que forçasse Washington a agir. E sabia que o instrumento para isso era o desrespeito sistemático do espaço aéreo cubano.
Os Heróis da República de Cuba (os cinco combatentes antiterroristas presos nos EUA) desmascaram, há muito, a ligação entre Hermanos al Rescate e a CIA. Os pilotos da organização recebiam treino, financiamento e cobertura da agência. As suas missões eram comunicadas, antecipadamente, aos serviços secretos norte-americanos.
24 de Fevereiro de 1996: A armadilha que se fechou
Naquela tarde, dois aviões de Hermanos al Rescate penetraram no espaço aéreo cubano. Voavam em direcção à capital, Havana, numa rota que já tinham percorrido dezenas de vezes. Ignoraram todas as advertências. Foram interceptados por caças cubanos, que cumpriam ordens permanentes de defesa da soberania nacional.
Os pilotos dos aviões foram avisados. Viram os mísseis. Tiveram tempo para recuar. Não recuaram.
Porquê? Porque o plano era esse. Como revelam as escutas e as provas recolhidas pelos Heróis Cubanos, Basulto, que voava numa terceira aeronave, não deu ordem de retirada. Pelo contrário: afastou-se deliberadamente da zona de perigo e, enquanto os outros eram abatidos, filmava a tragédia com a sua câmara de vídeo, gritando “ji, ji, ji” – como se estivesse a assistir a um espectáculo.
O objectivo estava cumprido. A resposta cubana, legítima e proporcional, seria agora usada como prova de “agressão desproporcionada”.
A acusação fraudulenta contra Raúl Castro
O que está em jogo, agora, é a tentativa de transformar uma acção legítima de defesa da soberania num crime. O vice-ministro dos Negócios Estrangeiros cubano, Carlos Fernández de Cossío, foi claro: a acusação é “fraudulenta” e “carece de fundamento jurídico, político e moral”.
Os factos são irrefutáveis. O especialista em Direito Internacional Yusnier Romero Puentes recordou que a Convenção de Chicago de 1944 reconhece a soberania exclusiva e absoluta de cada Estado sobre o seu espaço aéreo (artigo 1.º), define o território até 12 milhas náuticas (artigo 2.º) e proíbe a utilização da aviação civil para fins contrários à paz e à segurança (artigo 4.º). A actuação de Cuba em defesa da sua soberania foi, portanto, plenamente legítima.
Além disso, a acusação contra Raúl Castro foi considerada nula de direito, uma vez que os Estados Unidos não têm jurisdição para julgar factos ocorridos em território soberano cubano, o que viola o princípio da igualdade soberana entre os Estados. O direito internacional assenta numa base sólida de igualdade soberana. Atribuir a si próprio uma espécie de jurisdição universal, julgando uma nação por um facto ocorrido fora do seu território, viola os princípios básicos das relações internacionais.
Como afirmou o presidente da agência Prensa Latina, Jorge Legañoa: estas acusações estão a ser dirigidas a públicos que nem sequer tinham nascido naquela altura, numa tentativa de tornar credível perante a opinião pública internacional a sua versão dos acontecimentos.
O presidente do Instituto de Direito Internacional, também ouvido na Mesa Redonda, foi ainda mais longe: não se trata de uma questão jurídica, mas sim de uma acção política destinada a justificar a agressão contra o povo de Cuba.
Raúl Castro O Homem que Não Foge
Porque é que esta acusação é particularmente grotesca? Porque o alvo é um homem cuja vida foi definida pela lealdade e pela coragem, não pela fuga.
Logo após a vitória da Revolução em 1959, Fidel confiou a Raúl a tarefa titânica de organizar as incipientes Forças Armadas Revolucionárias (FAR). Durante quase meio século como ministro das FAR (1959-2008), Raúl transformou um grupo guerrilheiro numa instituição profissional, disciplinada e leal ao povo. Sem as suas reformas estruturais, Cuba não teria resistido à invasão de Playa Girón, às agressões da CIA nem a décadas de bloqueio económico.
A sua coragem foi provada muito cedo. Tinha combatido corpo a corpo no assalto ao quartel de Moncada – onde, ferido e capturado, incitou os seus companheiros a entoarem o hino nacional perante o pelotão de fuzilamento. Fidel definiu-o uma vez com uma frase lapidária: “Raúl é um homem de uma lealdade à prova de tudo” . Durante a guerra, num episódio pouco conhecido, colocou-se com o seu corpo entre a pistola de um insubordinado e Fidel.
No seu diário de campanha, em agosto de 1958, o jovem comandante escreveu uma promessa que define toda a sua existência: “Jurei não descansar durante toda a minha vida” e apresentar-me “limpo e feliz por ter cumprido integralmente o meu dever”. O seu pensamento militar e político resume-se noutra máxima que repete aos seus oficiais: “A hesitação é sinónimo de derrota” . Quando esteve à frente do país (2008-2018), nunca vacilou. Sempre soube combinar firmeza revolucionária com realismo.
O maior acto de institucionalidade e abnegação pessoal da sua parte ocorreu quando, em 2018, renunciou voluntariamente à presidência e, em 2021, ao cargo de primeiro secretário do Partido Comunista. Não há um único exemplo na América Latina de um líder que, detendo o poder absoluto, tenha decidido orquestrar uma transição geracional pacífica dentro do quadro da legalidade socialista. Não entregou o poder a um familiar nem a um testa-de-ferro, mas sim seguiu o disposto na Constituição e na Lei Eleitoral: após as eleições gerais de 11 de março de 2018, foi a Assembleia Nacional que, em 18 de abril, nomeou e, no dia seguinte, elegeu por voto secreto Miguel Díaz-Canel como novo presidente, com 99,83% dos votos (603 de 604 deputados).
Um homem que sobreviveu à Crise de Outubro, ao Período Especial dos anos 90 – quando o país perdeu 85% do seu comércio externo –, a mais de 60 anos de bloqueio económico, a mais de 600 tentativas de assassinato e a uma interminável campanha de desestabilização, vai ceder perante uma acusação formal de um tribunal da Flórida? Seria ridículo pensar nisso.
A congressista María Elvira Salazar afirma que “ele é mais inteligente do que Maduro” e que, por isso, vai fugir. Pelo contrário: é mais inteligente porque conhece a história. Sabe que o exílio dourado não é uma opção para quem jurou “não descansar” até ver Cuba livre, soberana e socialista. Sabe que abandonar a ilha não seria uma retirada táctica, mas sim uma traição aos que caíram na Sierra, em Girón, nas missões internacionalistas e nas batalhas quotidianas do povo cubano.
A Guerra cognitiva: Quando a mentira se torna notícia
Imediatamente após os abates, as grandes cadeias de televisão ocidentais repetiram em uníssono a versão de Washington: “aviões civis abatidos em águas internacionais”. As imagens de Basulto, convenientemente editadas, serviram de prova. O presidente Bill Clinton condenou “da forma mais enérgica” a acção cubana.
A manipulação mediática foi perfeita. Durante semanas, o caso dominou os noticiários. A opinião pública mundial foi intoxicada com meias-verdades e omissões. Ninguém falou das 25 violações anteriores. Ninguém falou do silêncio cúmplice de Washington. Ninguém falou da ligação de Hermanos al Rescate com a CIA.
Esta operação de propaganda é o modelo do que hoje, décadas depois, se chama guerra cognitiva. O objectivo não é apenas derrotar o inimigo no terreno – é vencer a batalha da narrativa. E, nessa guerra, os meios de comunicação ocidentais não são observadores neutros. São armas.
Axios: Um meio de comunicação ou uma ferramenta do departamento de estado?
A análise do caso Hermanos al Rescate permite-nos compreender o funcionamento da máquina de propaganda do império. Hoje, organizações como a Axios repetem o mesmo padrão: publicam notícias aparentemente “isentas”, baseadas em “fontes oficiais”, que na realidade servem para legitimar narrativas de desestabilização.
Um artigo sobre “asfixia energética em Cuba” pode ser verdadeiro nos factos – mas falso no enquadramento. Omissão do contexto do bloqueio, ausência de responsabilização dos EUA, repetição acrítica de alegações oficiais – tudo isso contribui para criar a percepção de que Cuba é um “Estado falido”, que a Revolução está a colapsar, que a única saída é a “intervenção humanitária”.
O Departamento de Estado não precisa de mentir. Precisa apenas de alimentar a máquina com informações parciais, e deixar que os meios de comunicação façam o resto. O resultado é a saturação cognitiva: uma sobrecarga de desinformação que esgota a capacidade de resistência do público e legitima políticas de agressão.
O Machete de Maceo, as Palavras de Martí
Antonio Maceo não usava eufemismos. Quando pegava no machete, não era para “restabelecer a ordem”. Era para cortar. Para libertar. Para dizer, com o ferro, o que as palavras não conseguiam.
José Martí, o Apóstolo, escreveu uma vez:
“Os homens são feitos de palavras. E as palavras, quando são verdadeiras, cortam mais fundo do que qualquer espada.”
O inimigo mudou de rosto, mas a luta é a mesma. Hoje, as armas são outras – mísseis de precisão, sim, mas também notícias tendenciosas, relatórios fabricados, campanhas de difamação. A guerra cognitiva é a continuação do bloqueio por outros meios.
E nós, camarada, temos as nossas armas: a verdade, a memória, a palavra justa. O machete de Maceo é a coragem de não contemporizar. As palavras de Martí são a precisão de quem chama as coisas pelo nome.
Enquanto houver quem escreva “embargo” para suavizar o crime, nós escreveremos bloqueio. Enquanto houver quem repita as mentiras do império, nós desenterraremos os factos. Enquanto houver quem se esconda atrás de “fontes oficiais”, nós daremos voz aos Heróis de Cuba.
Homenagem ao povo que resiste – Crítica aos que Romantizam o Sofrimento
E agora, uma palavra para os que estão na linha da frente. Para os que, há mais de 60 anos, resistem ao bloqueio mais longo e mais cruel da história. Para os que, sem petróleo, mantêm os hospitais abertos. Para os que, sem comida, partilham o pouco que têm. Para os que, mesmo no escuro, acendem uma vela – e com ela, uma esperança.
Este artigo é para vós, povo cubano. Para a vossa dignidade inabalável. Para a vossa capacidade de, mesmo sob o cerco mais violento, continuardes a ser farol. Vós sois a prova de que a resistência não é uma palavra – é uma prática.
Vós sois o alvo do bloqueio. Vós sois o alvo das campanhas de difamação. Vós sois o alvo da guerra cognitiva que o império trava todos os dias. E, no entanto, aí estais. De pé. Firmes. Inquebráveis.
Enquanto isso, do outro lado do oceano, há quem olhe para o vosso sofrimento com um olhar distante, quase académico. Há quem repita “embargo” como uma palavra de ordem vazia, sem nunca o ter sentido na pele. Há quem condene as agressões do império mas, no mesmo fôlego, contribua para a narrativa de que Cuba é um “fracasso” – porque não se encaixa nos seus esquemas mentais, nas suas teorias puras, nos seus debates intermináveis sobre o “socialismo real”.
Há uma esquerda, camarada, que romantiza o bloqueio. Que o transforma num fetiche. Que precisa de Cuba como vítima para se sentir revolucionário. Que olha para o sofrimento do povo cubano como se fosse um cenário – uma paisagem da qual retira legitimidade, mas para a qual não move uma palha.
Essa esquerda não quer saber do médico que opera à luz de um telemóvel. Não quer saber do professor que ensina sem giz. Não quer saber da mãe que divide o prato. Não quer saber da criança que aprende, à luz de uma vela, que a liberdade não se negocia.
Essa esquerda precisa de Cuba como um símbolo, não como uma realidade. Como uma bandeira, não como um povo. Como uma causa, não como uma vida.
E, no fundo, essa esquerda – a que suaviza o bloqueio chamando-lhe “embargo”, a que contemporiza com a linguagem do império, a que se senta nos mesmos palcos que os algozes e discute “diálogo” e “transição” –, essa esquerda, camarada, não é aliada. É um obstáculo.
Porque a verdadeira solidariedade não se faz com discursos. Faz-se com acção. Não se faz com debates. Faz-se com denúncia. Não se faz com abstrações. Faz-se com o corpo, com a voz, com a voz que não cala, com a madrugada, com a teimosia de quem não desiste.
A ti, povo cubano, que nos ensinas todos os dias o que é a dignidade, a nossa homenagem – e o nosso compromisso.
Por cada médico que opera à luz de um telemóvel. Por cada professor que ensina sem giz. Por cada mãe que divide o prato. Por cada criança que aprende, à luz de uma vela, que a liberdade não se negocia.
Esta é a ponta do machete, camarada. A que corta a mentira, a que fere a vaidade, a que expõe os que, dentro do nosso próprio campo, confundem o espectáculo com a luta.
Contra os que romantizam o sofrimento do povo cubano, que o transformam em fetiche, que o usam para se sentirem puros sem nunca sujarem as mãos – contra esses, a ponta afiada do machete. A minha crítica. E o meu desprezo.
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Paulo Jorge da Silva | Um activista português que viu, cheirou e sentiu o bloqueio. Pela soberania de Cuba. Pelo fim do cerco. Pelos milhões que, em silêncio, já decidiram de que lado estão. Porque os princípios, como Fidel ensinou, não se negoceiam.



