
Memórias da violência política: A sabotagem interna como braço executor do cerco ao sistema elétrico nacional
A recente aprovação, em primeira leitura, da Reforma Parcial da Lei Orgânica do Sistema e Serviço Eléctrico pela Assembleia Nacional marca um ponto de viragem na gestão dos serviços públicos na Venezuela.
Esta iniciativa legislativa representa a concretização de uma nova doutrina de sobrevivência, protecção e expansão energética face às medidas coercivas unilaterais. A proposta legislativa prevê a abertura ao investimento nacional e internacional, a diversificação através de fontes alternativas e uma profunda descentralização do Sistema Eléctrico Nacional (SEN).
No entanto, tal como referimos num artigo anterior, a viabilidade desta reconfiguração estrutural depende da compreensão do cenário de guerra assimétrica que tem condicionado o metabolismo industrial do país ao longo da última década.
O bloqueio tecnológico e financeiro internacional foi acompanhado, de forma coordenada, por uma estratégia de desgaste operacional directo no terreno. Os sectores extremistas da oposição venezuelana adoptaram uma estratégia de «dupla via»: enquanto mantinham uma fachada de participação discursiva e institucional, activavam, em paralelo, células operacionais, sabotagens técnicas e alianças com o crime organizado para prejudicar as infraestructuras vitais do país.
Se as medidas coercivas privaram o país dos seus «olhos digitais» e dos componentes originais, a sabotagem interna encarregou-se de atingir os nós de distribuição e transmissão mais vulneráveis.
Sabotagem dos nós de transmissão e distribuição
Uma análise dos ataques ocorridos entre 2013 e 2019 demonstra que estes corresponderam a operações meticulosamente planeadas contra as principais vias de transporte do país.
O alvo principal desta campanha de desestabilização foi a Linha de Transmissão 765, a principal via que liga a Central Hidroelétrica Simón Bolívar (Guri) ao centro do país. Este corredor estratégico é responsável pelo transporte da energia que abastece mais de 60% do consumo da população.
Em setembro de 2013, uma acção deliberada derrubou uma rede de protecção sobre a subestação de San Gerónimo (Guárico). Na operação, foi atingido o ponto exato onde a linha se bifurca em dois ramos, desactivando instantaneamente os sistemas de redundância da rede.
Em condições normais, o segundo ramal tinha sido concebido para absorver até 90% da carga em caso de qualquer contingência. No entanto, a sabotagem provocou um efeito de rebote que desestabilizou ambas as linhas simultaneamente. Tal como salientaram os peritos técnicos da época, tal nível de eficácia só poderia ter sido alcançado através de cumplicidade interna ou do acesso directo aos planos de vulnerabilidade da rede principal.
Este padrão operacional repetiu-se a 2 de dezembro desse mesmo ano, na véspera das eleições autárquicas.
Posteriormente, entre 2014 e 2018, a estratégia evoluiu para uma campanha de ataque simultâneo contra as subestações locais de distribuição periféricas. O objectivo desta táctica era fragmentar a estabilidade regional da rede e sobrecarregar a capacidade de resposta das equipas da Corpoelec.
Em Caracas, um engenho explosivo provocou um incêndio de grande magnitude na subestação de Boyacá, responsável pelo fornecimento de energia a metade da capital. A recuperação desta infraestrutura crítica exigiu o desvio de mais de 35 milhões de dólares que estavam destinados aos planos ordinários de manutenção e expansão do serviço.
Em fevereiro de 2018, a subestação de Santa Teresa III (Miranda) foi alvo de dois ataques de grande envergadura em menos de oito dias. Células operacionais cortaram o sistema de ligação à terra dos transformadores, provocando explosões consecutivas que deixaram os estados de Miranda, La Guaira e o Distrito Capital sem luz.
Nesse mesmo mês, a região ocidental do país sofreu um ataque coordenado. A explosão provocada de um condensador na subestação de La Arenosa (Yaracuy) provocou uma falha em cadeia no serviço em 11 estados. Simultaneamente, registaram-se incêndios intencionais nas salas de controlo das subestações de La Concepción, Cabimas e Los Robles, no estado de Zulia.
Esta escalada de agressões físicas e mecânicas serviu de prelúdio operacional para o ponto de viragem desta guerra: o mega-apagão de março de 2019. Neste evento, a agressão física no terreno combinou-se com uma ofensiva cibernética e electrónica contra o centro nevrálgico informático do país.
Aproveitando o facto de o Sistema de Controlo Automatizado (SCA) e as interfaces de software SCADA do Guri não terem recebido actualizações de cibersegurança industrial devido ao bloqueio imposto pela empresa ABB, agentes externos atacaram as plataformas de controlo. A invasão electrónica deixou os ecrãs dos operadores completamente a preto.
Ao serem obrigados a restabelecer o sistema principal através de protocolos manuais, a rede ficou temporariamente sem visibilidade e exposta. Foi nesse momento de vulnerabilidade que foram activados actos de sabotagem física secundários em centrais de apoio como Tacoa (La Guaira) e nos transformadores de Baruta e El Hatillo (Caracas), com o objectivo de provocar um colapso irreversível da rede de transmissão nacional.
A ofensiva contra os sistemas de refinação, gás e conectividade digital
A estratégia de sabotagem aplicou mecanismos de acupuntura destructiva a outras infraestructuras críticas, com o objectivo de paralisar de forma transversal os transportes, o abastecimento de água e as telecomunicações, a fim de acelerar o colapso do metabolismo industrial da nação.
Um precedente directo deste efeito multiplicador ocorreu em fevereiro de 2018, quando os ataques contra a subestação de Santa Teresa III inutilizaram os sistemas de bombagem Tuy I, II e III da Hidrocapital. Esta manobra interrompeu abruptamente o abastecimento de água potável em toda a Grande Caracas. Paralelamente, foram realizados ataques com substâncias químicas em estações de grande afluência do Metro de Caracas (Plaza Venezuela e Capuchinos) e foram colocadas barras de ferro na linha ferroviária Caracas-Cúa, numa tentativa de descarrilar o sistema ferroviário.
A ofensiva estendeu-se também ao estrangulamento da rede de refinação e gás da PDVSA. A 4 de julho de 2022, coincidindo com os primeiros sinais de recuperação do PIB nacional, uma falha eléctrica induzida interrompeu as operações da unidade de destilação e da unidade de craqueamento catalítico (FCC) da refinaria de Amuay, um centro que, naquele momento, produzia 80% da gasolina destinada ao consumo interno.
Apenas treze dias depois, a 17 de julho de 2022, foi perpetrado um atentado terrorista contra o gasoduto de injeção em El Tejero (Monagas). As investigações no terreno realizadas pelas forças de segurança detectaram acampamentos clandestinos nas proximidades e a remoção técnica dos parafusos das braçadeiras, uma operação planeada para provocar uma fuga maciça de gás e detonar a estação de operações.
Simultaneamente, o cerco técnico visou o centro nevrálgico das telecomunicações estatais. Em Flor Amarillo (Carabobo), um ataque perpetrado com potentes acelerantes químicos destruiu sete armazéns centrais da CANTV e da Movilnet. A queima intencional destes componentes tecnológicos gerou uma perda patrimonial superior a 275 milhões de dólares em material estratégico de conectividade.
Esta agressão industrial foi complementada por cortes duplos deliberados nas ligações de fibra óptica no estado de Falcón. O objectivo concreto destas acções era prejudicar o serviço de Internet de banda larga (ABA) à escala nacional, de modo a obstruir o funcionamento das plataformas bancárias, dos sistemas de pagamento electrónico e da actividade comercial habitual do país.
A doutrina da desestabilização híbrida
A sabotagem operacional consolida uma estratégia híbrida em que os actores políticos beligerantes delegaram as acções de força ao crime organizado. Esta táctica instrumentalizou os danos materiais às infraestructuras públicas para exercer pressão em períodos de elevada tensão institucional.
Durante o primeiro semestre de 2024, as investigações estatais desmantelaram um plano de «guerra eléctrica» concebido especificamente para perturbar a paz social antes das eleições presidenciais de 28 de julho. Células criminosas a soldo executaram ataques localizados contra instalações da SEN nos estados de Nueva Esparta, Guárico e Zulia, concentrando-se em zonas com forte base política do chavismo para induzir um clima artificial de frustração e descontentamento generalizado.
A par da ofensiva energética, a agressão estendeu-se aos sistemas de conectividade terrestre. Foi revelado um atentado de elevada complexidade contra a estrutura da Ponte Angostura, a artéria rodoviária que liga os estados de Anzoátegui e Bolívar. O sabotagem consistiu em cortes cirúrgicos nos cabos tensores que sustentam a ponte, com o objectivo de provocar um colapso catastrófico para interromper o abastecimento de bens e a comunicação com o sul da República.
Este ciclo destructivo atingiu o seu auge operacional no contexto pós-eleitoral de 28 de julho, onde o assalto técnico se combinou abertamente com bandos armados para sustentar a narrativa da «fraude». Na sexta-feira, 26 de julho, apenas dois dias antes das eleições, as forças de segurança capturaram em Ureña (Táchira) uma célula armada proveniente de Norte de Santander (Colômbia), equipada com o material técnico e explosivos necessários para dinamitar a subestação eléctrica fronteiriça.
Após o fracasso dessa manobra, o extremismo mobilizou, de forma encoberta, bandos criminosos transnacionais (como o «Tren del Llano» em Guárico) e redes de «pranes» nas freguesias periféricas de Caracas, para tentar forçar paralisações dos transportes através da violência armada. O objectivo final desta articulação criminosa era gerar focos de anarquia nas ruas que servissem de cobertura para o sabotagem em grande escala perpetrada a 30 de agosto de 2024.
Da agressão à protecção da infraestructura crítica
O apagão nacional ocorrido nessa data constituiu uma operação de facto de ataque técnico destinada a neutralizar a Central Hidroelétrica Simón Bolívar. Ao contrário do que aconteceu em 2019, a acção de 2024 foi executada como um acto de sabotagem direccionado e de alta intensidade contra os sistemas de transmissão do complexo de geração de Guri, interrompendo o fluxo de electricidade em quase todo o território venezuelano, desde a madrugada até ao final da tarde.
A redução da duração do evento (que não se prolongou por vários dias) deveu-se à instalação prévia de sistemas físicos de contenção e redundância técnica desenvolvidos na sequência das situações de emergência da última década. A activação paralela do chamado «Plano Centella» por parte do Executivo funcionou como um mecanismo de mobilização logística e de transportes para neutralizar imediatamente os pontos de paralisia e os focos de agitação armada interna que acompanharam este momento, inscrevido na tentativa de operação destitutória.
O debate sobre a Reforma Parcial da Lei Orgânica do Sistema e Serviço Eléctrico justifica-se plenamente neste acúmulo de agressões históricas e materiais. O Estado, longe de administrar um serviço público num cenário normal, tem-se visto obrigado a concentrar-se na protecção de uma infraestructura crítica num contexto de guerra combinada de baixa intensidade, em que as medidas coercivas unilaterais e a sabotagem material axtuam como um laço asfixiante.
Assim, torna-se indispensável abordar a crise energética a partir da sua inegável origem política.
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