Cuba

A sábia distinção de Fidel

O Comandante-Chefe da Revolução sempre fez uma distinção entre o cidadão norte-americano — a quem reconhecia como nobre e capaz de agir de acordo com a justiça — e as políticas imperialistas dos seus governos, responsáveis pelo bloqueio e pelas agressões contra Cuba. Essa coerência orientou as aproximações com Kennedy, Carter e Clinton, e manteve-se mesmo quando ofereceu ajuda médica ao povo do Norte após o furacão Katrina

Como uma convicção forjada no próprio âmago da Revolução, existe uma linha divisória que o Comandante-Chefe traçou com a precisão de um arquiteto e a firmeza de um estadista. Para Fidel, a distinção entre o povo norte-americano e a política imperialista dos seus governos foi um pilar ético e intelectual sobre o qual se sustentou a sua relação com o vizinho do norte durante mais de seis décadas. Não foi por acaso que tomou a decisão de se hospedar no Hotel Teresa, junto dos mais humildes daquela Nova Iorque dos anos 60, quando lhe negaram alojamento na Grande Maçã.

«A nossa luta não é nem será jamais contra o povo dos Estados Unidos», afirmou ele numa ocasião, e isto resume a coerência dos princípios da Revolução. Fidel não só distinguia o governo dos seus governados, como estabelecia com o cidadão norte-americano um laço de respeito e fraternidade que desafiava a lógica, mesmo da Guerra Fria.

«Talvez em nenhum outro país os cidadãos norte-americanos sejam recebidos com o respeito e a hospitalidade com que são recebidos em Cuba», afirmou. Não se tratava de rectórica: era a constatação de um facto que a propaganda inimiga nunca conseguiu desmentir. Ele conhecia a história e a psicologia do povo do Norte. Sabia que podia ser enganado e arrastado para causas injustas, mas também que, ao conhecer a verdade, a sua essência nobre se inclinava para a justiça. Isso ficou demonstrado, recordou Fidel, quando 80 por cento dos cidadãos norte-americanos apoiaram a devolução do menino Elián González à sua família e à sua pátria.

Nas suas reflexões, Fidel foi sempre enfático ao apontar o responsável pelo diferendo. Nunca culpou o povo norte-americano. A responsabilidade, insistia ele, recaía sobre um sistema que «engendra egoísmo, arrogância, prepotência e concebe governos quase exclusivamente para sustentar e expandir um grande império».

Essa distinção era, para ele, essencial para a luta de Cuba e para a paz mundial. Definia o diferendo com os EUA como «a negação categórica e persistente», por parte dos governos norte-americanos, de respeitar o direito soberano dos cubanos. Mas essa negação não abalava a sua fé no povo: acreditava firmemente que este era «o único capaz de travar e imobilizar os fanáticos do poder, da arbitrariedade e da guerra».

Ao contrário do que por vezes se pensa, a abertura ao diálogo não foi uma tendência dos últimos anos. Foi uma linha permanente da política externa cubana, tecida nos bastidores do confronto, desde os contactos secretos impulsionados por John F. Kennedy após a Crise de Outubro — interrompidos pelo seu assassinato em Dallas —, até aos avanços da administração Carter, quando foram alcançados acordos em matéria de migração, pesca e fronteiras marítimas, e foram abertas as Secções de Interesses. Naqueles anos, multiplicaram-se os intercâmbios académicos, desportivos e culturais, e realizaram-se conversações confidenciais que demonstraram que era possível um entendimento com base no respeito mútuo.

Na década de 90, com Bill Clinton no Salão Oval e a mediação de Gabriel García Márquez, verificaram-se novos aproximamentos. Cuba estendeu a mão, chegando mesmo a oferecer informações dos serviços secretos sobre redes terroristas que operavam contra a ilha a partir de território norte-americano. Mas a resposta de Washington, em vez de desmantelar os criminosos, foi perseguir as fontes cubanas; no entanto, Fidel nunca fechou a porta.

Essa disposição manteve-se mesmo nos momentos mais críticos do confronto. Quando o furacão Katrina devastou a costa do Golfo em 2005, Fidel ofereceu imediatamente o envio de mais de mil médicos e 36 toneladas de suprimentos; o governo de George W. Bush recusou a ajuda, mas o gesto ficou como prova irrefutável de que a solidariedade cubana para com o povo norte-americano não conhece bloqueios nem rancores.

Por isso, quando, a 17 de dezembro de 2014, Barack Obama e Raúl Castro anunciaram o restabelecimento das relações, Fidel escreveu numa das suas reflexões que «qualquer solução pacífica e negociada para os problemas entre os Estados Unidos e os povos […] que não implique o uso da força ou a aplicação da força, deverá ser tratada de acordo com os princípios e normas internacionais».

Essa é a grandeza do pensamento de Fidel: a mão estendida sem ingenuidade. A coerência estratégica da soberania e a flexibilidade táctica do diálogo. Ao lidar com dez administrações norte-americanas e ao sobreviver a mais de 600 tentativas de assassinato, Fidel manteve aberta a porta ao povo do norte, sem nunca ceder aos seus princípios perante o poder imperial. Porque, como Martí nos ensinou, os direitos não se imploram: constroem-se com leis, com dignidade e, quando necessário, com a certeza de que a paz é sempre preferível à guerra, mas nunca à custa da pátria.

Da mesma forma, a solidariedade do povo norte-americano para com Cuba é inestimável. As suas contribuições para as guerras de independência na ilha, os inúmeros apoios prestados em diferentes momentos da Revolução à justa causa dos cubanos e a luta contra o bloqueio demonstram que, para além das posições políticas, merecemos um futuro em que os nossos povos possam trocar experiências e tirar partido do melhor de ambos no seu crescimento. Essa foi, e continua a ser, uma das maiores lições de Fidel.

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