Teatro para os que partem e para os que ficam
Este evento decorreu de 10 a 20 de abril, com o objetivo de promover e divulgar peças de teatro que abordem questões sociais, políticas e culturais numa perspectiva crítica e transformadora.
Caracas, Venezuela- No meio do crepúsculo de Caracas, numa praça da cidade repleta de pessoas de todas as idades, sente-se o aroma do café acabado de fazer. Não o guayoyo da Venezuela ou o expresso americano, mas o da Sierra (Maestra), o dos mambises, aquele que os nossos antepassados preparavam, feito num caldeirão a carvão.
Para os nascidos na Maior das Antilhas, brindar a ele pode significar gratidão, hospitalidade, proximidade. E, sobretudo, anuncia uma conversa descontraída em que se “fala de tudo” e se tenta “pôr o mundo em ordem”. Foi assim que os presentes na Plaza de la Juventud o entenderam, quando os actores do grupo de rua Teatro Andante lhes ofereceram a bebida que tinham acabado de preparar.
Com o ashé de uma boa chávena de café, o elenco apresentou uma das suas últimas estreias, Faro, no quarto Festival Internacional de Teatro Progresista. Nas palavras do seu director, Juan González Fiffe, a peça “fala do aqui e agora da nossa realidade, das nossas dificuldades, das nossas lutas por um mundo melhor. É um olhar ousado, crítico e profundo, com a fé inabalável que nós cubanos temos”.
A encenação – sem cenários nem cortinas – combina a representação, a música e a dança numa proposta que desvenda nostalgias latentes, recorda a utopia da ilha como farol, torna o público cúmplice e toca a alma dos que cá estão e dos que já partiram.
O dever implícito na partida – ou mesmo a própria morte -, a migração, a busca de sonhos ou de melhorias económicas longe da terra natal e a dor que permanece sempre nas famílias separadas: “tempestades devastadoras” que as personagens enfrentam, conduzem o enredo.
Vão, corram para onde têm de ir/ Vão, pois o futuro espera por vós/ Voem, pois os cisnes estão vivos/ O meu canto está comigo/ Não estou só, diz a mãe aos filhos enquanto os vê partir. No entanto, tece um farol: a bandeira da estrela solitária, para que, onde quer que um filho daquela casa esteja, a possa ver e saiba que será sempre bem recebido.
Durante a produção teatral, são feitas alusões a canções, slogans, frases, contextos que marcam certos quotidianos cubanos, mas não é necessário ter nascido na ilha para compreender – e até sofrer – a história que está a ser contada. A migração é uma realidade que afecta todos os países. O povo venezuelano, personagem-espetador desta narrativa, conhece-a bem e vive-a.
Do lado cubano, La Franja Teatral também esteve presente neste evento, que decorreu de 10 a 20 de abril, com o objetivo de promover e divulgar obras teatrais que abordem questões sociais, políticas e culturais numa perspectiva crítica e transformadora. É também um compromisso da comunidade artística com a justiça social, a igualdade e a defesa dos direitos humanos.
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